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Pra Sempre

Seu pra sempre acabou antes do meu, na passeata de ilusões a minha ficou perdida no meio de todo aquele passar de horas. Dias que vão como a nossa vida desapercebida em rotinas quase compassadas que também escorrem sem volta como todo esse ar que acaba um dia óbvio e inútil me cercando. É triste perceber que quem tanto me importa não olha por mim, apenas me vê. Não altera em nada sua lista de prioridades quando preciso de socorro, atenção. Apenas (depois, sempre depois) desculpa-se. Diz que as coisas estão complicadas, o dia esta corrido.

Está constantemente ocupado atrapalhado. Sempre se sai com ótimos motivos para não ter falado, ido, feito, acompanhado. Conhece o meu tom de voz, meus gostos, minhas neuras, o porquê do riso rasgado. Sabe o número do meu telefone, onde vivo, mas mora num outro universo, do qual não tenho o endereço, nem pertenço: é péssimo notar que sou pouco para quem é muito pra mim.

Depois, depois ninguém sabe mas aí tudo serão lembranças inertes congeladas num passado imperfeito cúmplice da absoluta inexperiência muda que não se rende. E não se trata de desdém, nem de rancor. É mais sutil e menos óbvio, por isso tão doído. Pode até me surpreender com telefonemas, e-mails, conversas à toa, mas não está presente nos momentos críticos da minha vida. Torna-se incomunicável, desaparece. Não fica ao meu lado. Não pega o lenço para que eu possa continuar chorando, sem medo de julgamentos. Não traz da cozinha a garrafa da minha bebida preferida para comemorarmos. Não me abraça quando faltam palavras, não me afaga quando elas não bastam.

Sei que aquela pessoa, tal qual a recordo, existiu, só não sei em que ponto deixou de ser real para se tornar um holograma da minha mente. Uma suspeita de surto: será que me enganei desse jeito? Talvez não tenha me enganado, apenas o tempo nos tenha tornado diferentes demais e já não andemos na mesma direção.
Talvez.

A vida me trouxe uma pessoa assim. Ele estive comigo, compartilhou e me ajudou a construir minha história, mas que, sabe-se lá quando e por que, descompassou. De certa forma ele até continua presente, mas jamais esteve tão ausente. Fazia questão de me dizer o quanto eu era importante, especial, e eis um alerta que não ignoro: sempre desconfiei de quem fala "Você pode contar comigo", "Qualquer coisa, me liga", "Nunca vou te esquecer". Isso se mostra calmamente, no dia-a-dia, não se legaliza numa promessa. É preciso tempo, e é só com ele que saberei se essas palavras significam algo ou são mera formalidade. Me mostre que eu posso contar com você, não me diga isso.

Talvez eu tenha perdido o sentido permanecer na vida desta pessoa, por mais importantes que eu tenha sido (ou que suponho ter sido). Minha permanência tornou-se oca de significado. Desbotada. E gradualmente, ele foi sumindo. Não vejo mais sentido de continuar mendingando aquele amor.
Tati Picon
Enviado por Tati Picon em 14/10/2007
Reeditado em 25/10/2007
Código do texto: T694091

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Sobre a autora
Tati Picon
Londrina - Paraná - Brasil, 32 anos
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Tati Picon