MEXIDÃO

Se existe um prato muito popular das gentes simples do Brasil é o famoso mexidão. Um resto de arroz ali, uma sobra de feijão aqui, a macarronada residual do almoço familiar e as sobras de carne fundidas à rapa no fundo da panela. Estes são alguns dos diversos ingredientes de uma mistureba de sabores. Preparar esse quitute é extremamente fácil, prático e rápido. Basta misturar todo mundo em uma panela grande, verter um bocado de água para ajudar a esquentar e acender o fogão ao fogo médio. Com auxílio de uma colher mexa todos os ingredientes até homogeneizar. Deixe cozinhando até secar a água e sirva-se à vontade, de preferência assistindo a um filme ou seriado. Após a gula, caso sobre, repita mais um prato e satisfaça o “pandu”, não esquecendo de limpar o fundo do prato.

Essa iguaria é especialmente apreciada pelo meu irmão, que possivelmente deve lamber os beiços devido ao cheiro daquela fusão de itens. Quando não, é a própria comida nova, bafejando a atmosfera interna da casa, quem está prestes a receber uma mistura muito bem conhecida. Uma das mãos é levada com firmeza à pega de uma colher ou garfo, sendo cravada impiedosamente ao interior do alimento. A mão que estava ociosa observando a ação da outra, invejosa, logo toma a atitude de agarrar a margem do prato e o gira delicadamente para facilitar a formação da “gororoba”. Em poucos instantes o mexidão está pronto para o abate, unicamente homogeneizado.

Lembro de todo esse ritual quando dos finais de semana na casa de vovó em Iúna, no pezinho do Caparaó. As paneladas de arroz, macarrão, feijão e angu eram os delírios do mano que espiava de longe, com água na boca, as cores, as formas e as disposições. Lógico, matutava alguma artimanha que no fim já era bem manjada, pois de qualquer maneira a mistureba traria o mesmo resultado. Tomado pelo sentimento de gula, as partes eram colocadas modestamente no prato de vidro, e ao sofá, assistindo a algum programa do fim de semana, o mexidão era devorado e não lembro se repetido.

O mexido, um prato típico da culinária amadora brasileira, além de toda essa mistura de sabores e riqueza nutritiva, é também um “prato” cheio para contar uma história.