O autor do salmo 127 visita a Angola do século XXI

O viajante perambula por alguma rua de Luanda, capital da Angola. Não importa especificar qual é essa rua, mas é relevante dizer que ali está havendo um protesto. São mulheres que se manifestam. Ele fica curioso com o que vê e questiona um outro espectador: "por que está havendo manifestação?".

"Essas mulheres estão protestando contra a Igreja Universal do Reino de Deus (IURD), uma organização religiosa que está sendo acusada por elas de cometer abuso de poder e de proibir pastores (maridos delas) de terem filhos", disse o homem.

No local de origem do viajante, não há nenhuma noção moderna de relação de poder. Ao escutar "abuso de poder", ele não se abala. Talvez até endosse o abuso de poder, a depender da vítima. No entanto, escutar "proibir pastores de terem filhos" foi perturbador. Seria ele um defensor do direito à família? Não, absolutamente não.

Seu argumento contra a proibição de filhos é fundada numa mistura de visões teológica e belicista. O viajante acreditava que "os filhos são heranças do Senhor". Proibir filhos seria o mesmo que impedir a aquisição de galardões de Deus.

Filhos são como flechas, assim pensa o viajante. Quanto mais cheia a aljava, mais poderoso é o homem. Coitado de quem o desafia.

Porém, a IURD, a igreja-empresa de Edir Macedo, não quer que seus homens objetivem encher aljavas. Seus pastores são, na prática, empregados com metas lucrativas a cumprir. Eles não vivem no modo de produção conhecido como regime asiático. Vivem no capitalismo. Tempo é dinheiro, templo também é dinheiro. Fazer flecha hoje é inútil. Não traz lucro. Pelo contrário, atrapalha.

Sem lucro, não tem como competir no capitalismo igrejeiro e explorador da fé alheia.

O deus do viajante é o deus da guerra. O deus de Macedo é Mamon, é o dinheiro, a mercadoria equivalente universal, o novo bezerro de ouro. Os "filhos da mocidade" hoje não fazem mais o homem poderoso. O dinheiro é quem dá poder.

O mundo do viajante não é o da mercadoria. Ele vive num modo de produção em que a mercadoria ainda não é reinante na sociedade.

A bem-aventurança está atrelada à mercadoria. Não tem mais a ver com filhos ("flechas") abatendo o inimigo. O único galardão que vale a pena hoje é o dinheiro.