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Deu tartaruga

 

Acabo de fazer um teste numa página internética para saber que animal mora dentro de mim.

Até então julgava hospedar, por assim dizer, em minha psique um cachorro vira-lata ou um cão-de-andarilho. Mas deu tartaruga, inapelavelmente. E digo inapelavelmente, porque, chateado com isso, refiz várias vezes o teste, mudando algumas respostas às perguntas oferecidas pelo formulário.

Nem assim.

Tartaruga, meu caro cronista, insistia o linque, remetendo-me em seguida a uma janela onde se escancarava a interpretação do resultado.

Lentidão e sabedoria, dizia-se lá. Não é por covardia que, de tempos em tempos, você recolhe a cabeça, mas sim para refletir profundamente sobre as coisas da vida, longe da curiosidade alheia. Acredite que as tartarugas são capazes de dar a volta ao mundo nesse passinho de quem não quer nada, e ainda assim, segundo o filósofo Zenão de Eléia, com alguma vantagem na largada ela não perderia nunca uma corrida contra o enfezado Aquiles. Acrescente que o provérbio "Devagar se vai ao longe" é da mais pura lavra quelônica e ainda não encontrou quem o refutasse. Você mesmo, não é verdade que chega a abusar do provérbio? Confesse.

Lembrei-me da ex-mulher. Betinha vai deitar e rolar quando souber disso. Elétrica e estabanada, impaciente com tudo, ela adorava tirar-me do sério justamente trazendo à baila e à briga esse meu lado meio paradão, que eu chamava de zen, um cara capaz de adiar o inadiável.

Tenho de cair na real.

De fato, gastei dois meses cuidando de minha recente mudança de domicílio e não trouxe tudo de uma vez para a nova casa. Levo séculos para finalizar trabalhos urgentes e não admito mais ler um bom livro em menos de um mês. Minhas caminhadas são longas e demoradas; chego a esquecer da vida diante de duas formigas brigando. Quando me resolvo a cumprir a promessa de visitar um amigo, ele já mudou de endereço. Meu irmão caçula vai fazer cem anos de Rio das Ostras, e ainda não apareci por lá. Precisam ver o tempo de que necessito para escrever uma crônica boba como esta. E se der um pulinho no passado, para rematar, basta um único exemplo: alistei-me aos dezoito de idade no exército e só regularizei minha situação com os milicos aos quarenta.

A grande verdade é que o teste só errou mesmo no lance da sabedoria. No mais, tinha que dar tartaruga mesmo. E tartaruga velha, que é mais lenta.

[4.11.2006]

Luiz Guerra
Enviado por Luiz Guerra em 24/10/2007
Código do texto: T707677

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Sobre o autor
Luiz Guerra
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 69 anos
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Luiz Guerra