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A MORTE E O AMOR: IRMÃS SIAMESAS

Lúcio Alves de Barros

O amor e a morte, mais do que desejamos, são emoções muito parecidas. Digo isso mais por suas conseqüências do que por suas relações e especificidades. Em ambos sentimentos, emoções e momentos, seja qual for a idéia ou a percepção que temos do amor e da morte, vamos encontrar três relações inevitáveis.

Em primeiro, a inexorável relação com a perda. Provavelmente, não exista receio pior que este nas relações humanas. Tanto na morte como no amor, sofremos a possibilidade de jamais ter a pessoa preferida por perto. Em muitos casos, chega a ser assustador a simples lembrança que podemos ficar sem a mãe, o pai, os irmãos, o amigo (a), a companheira (o), dentre outros. Para evitar o mal-estar optamos por não falar no assunto. Brincamos com a morte e fazemos do amor algo que pode ser parecido com o que ocorre no mercado. Enquanto registra-se o lucro é mantida a relação, caso aconteça (somente a possibilidade) prejuízo caímos fora e não sofremos tanto a perda que (talvez) aconteceu. O fato é que, tanto lá quanto cá, produzimos a intolerância e nos apegamos à própria pulsão de vida em detrimento do sofrimento e das conseqüências que podemos abrir na alma do outro. Diante da alteridade, principalmente nas sociedades excludentes, é melhor apostar na distância, nas relações passageiras e incapazes de manutenção de laços face-a-face, pois nada como afastar o outro que possa produzir sentimentos oriundos da morte ou do amor.

Em segundo, tanto na morte como no amor, trabalhamos com o ideal. Na maioria das vezes, é produzida a relação de espera. No amor, as mulheres esperam sempre encontrar o imaginário Don Juan e o príncipe que antes era sapo (o meu conselho é que fiquem com o sapo, caso encontrem), quanto aos homens nada como uma mulher que compense o seio deixado da mãe. Boa na cozinha, no carinho, no arrumar da casa e na subserviência. Esperamos o mesmo nos momentos em que a morte se aproxima. Resultado de uma cultura pseudocrístã, ainda nos apoiamos na idéia de um paraíso repleto de anjinhos loirinhos, brancos e pelados e em um “deus” manso, bom e afável. Bela espera, em uma vida na qual as pessoas aproveitam para manipular, burlar, roubar, matar, “sacanear” e explorar - de diversas maneiras - o outro. Amo e odeio o meu oponente, principalmente se ele, ou ela estiver longe dos ideais cristãos. Não é por acaso que a maioria de nós se faz de santo e vivemos de trocar máscaras em um mundo ilusório e hipócrita. Mas é melhor assim, pois nada melhor que o auto-engano para acreditar que somos melhores que os outros e que podemos e merecemos - tanto no amor quanto na morte - usufruir de momentos mais especiais e importantes do que o das outras pessoas.

Por último, e longe de acabar com as semelhanças, é possível perceber no amor e na morte, a percepção generalizada de que nunca seremos a próxima vítima. No caso da morte, é notória a expulsão dos sentimentos que percorrem o inconsciente quando a “partida” de um outro está próxima. É comum nas cidades do interior, a igreja badalar os sinos e avisar que alguém faleceu. É desse momento que estou falando, é exatamente nessa hora - a de  lembrar da finitude - que gozamos da morte do outro: “antes ele do que eu”. Nas relações de finitude encontramos a mulher e o homem cínico, potente, fanático, fantástico, que não envelhece e deseja ser sempre viril. Este é o ser humano da chamada pós-modernidade, um sujeito ridículo que foge rápido de suas limitações e não encara as inexoráveis relações de sofrimento e luto. O mesmo acontece no amor. Não cumpre ser romântico, poeta, escritor, cantor e ator. Ciúme, então, virou doença e os médicos, psicólogos e psiquiatras andam ganhando “rios de dinheiro” para acabar com a falta do outro. Tenho falta por ter afeto. Se me afeta é porque sou humano. Tenho alma, espírito e coração. Veja que maravilha. E, como tal, é óbvio que amo e sou passível de ser amado. Nesse caso, é inevitável que, uma hora ou outra, o amor vai entrar na alma e fazer miséria. E que venham as lágrimas, as fortes palavras, os abraços apertados e, se for o caso, a traição, o amor desmedido, o medo, o fim do relacionamento e o inevitável sofrimento. Desejar e impedir suas manifestações é não viver, é impedir a humanidade, o nascimento do espírito da dádiva e da troca. É em tais relações que grandes homens e mulheres se inspiraram e nos forneceram muitas obras. O ser humano pós-moderno está acabando com isso. No mínimo está “revendo os conceitos”. O amor virou somente dor e ser vítima não é nada salutar. A moda agora é “deixar a fila andar” e que venha a próxima ou o próximo.

O leitor certamente encontrará outras evidências nas relações amorosas e das que nos lembram o fim da vida. Pelo pouco espaço que tenho destaquei somente três. Todavia, vale ainda um argumento: amor e morte fazem parte da vida dos seres humanos. Na realidade, são eles que nos fazem mais humanos, felizes, democráticos e humildes. O fato é que não se deve esquecer de aproveitá-los. É isso mesmo. É preciso re-significar tais emoções e vivê-las intensamente. Deixe a poesia tomar a vida, volte a pensar em melodias e músicas embaixo da janela da amada, mande cartas, ofereça presentes, ame e pense em se matar, permita sofrer, deixe as lágrimas caírem, tome o porre, grite para todos, chore por ela (e) e depois, como o passar do tempo, verá que valeu à pena e que tudo isso faz parte da grande comédia ou tragédia que é a vida. Tanto no amor como na morte podemos encontrar a dor, mas sabendo que em tudo existe a finitude e a incerteza e, como humanos, nos resta a memória, pois tudo passa.
Lúcio Alves de Barros
Enviado por Lúcio Alves de Barros em 24/10/2007
Reeditado em 10/05/2012
Código do texto: T708080
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Sobre o autor
Lúcio Alves de Barros
Belo Horizonte - Minas Gerais - Brasil
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Lúcio Alves de Barros