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Ao som dos Bandolins

Dançavas e rodopiava ao som dos bandolins! Era moça ainda. Linda no vestidinho curto, no equilíbrio e na harmonia do corpo. Corpo que seus pés de moça equilibravam. Nos seus dezoito anos o corpo não percebera o envelhecimento que chegava. Não havia rumores do tempo na dança, na harmonia que se dissipava no espaço – como se o tempo não corresse – o momento parecia todo impregnado de eternidade. Naquela pequena alegria doméstica, não dávamos ouvidos aos rumores do tempo.

Dançavas num dos cômodos da casa. Colocara o rádio no chão, ligou na tomada mais próxima, pôs o CD do Oswaldo Montenegro e disse algo que, na minha memória, se tornou mais ou menos isto:

- Vou ali no meu quarto, tá? É rapidinho. Vou dançar uma música.

Seu público: eu. Um rapaz nos seus dezenove anos de idade, cujo olho esquerdo, como bem notara, se espreme num sorriso, ficando menor do que o outro.

E você “valsando como valsa uma criança”. A tímida e magérrima bailarina que fora na infância parecia dançar ao som dos bandolins sua mocidade inteira. Como se tudo aquilo fosse uma despedida que não suspeitávamos. Despedida de sua mocidade que passava - que passava sorrateira como as águas de um rio escondido por entre a mata densa. Águas insuspeitadas de uma despedida que, na sua discrição, não acenou os braços, não disse: “Adeus!”.

E como reconstituir na memória a posição de cada coisa, de cada objeto, de todas as coisas simples que compunham aquele ambiente? As mesas, as cadeiras, as roupas sobre a tábua de passar, as sandálias, a lâmpada acesa e a projeção de cada sombra? Mas que importa a reconstituição de todas essas coisas? Das sombras que também dançavam, projetando nas paredes, no chão e em mim, as formas do teu corpo que se movimentava, do seu corpo que ardia? Que dançava alegre e ágil como pluma ao vento, como se flutuasse por sobre a gravidade?

E a luz da lâmpada também dançava sobre teus passos de bailarina, revelando suas formas e seus movimentos aos meus olhos. Corpo que - como todas as coisas – é nuvem que se dissipa. E como é triste sentir as coisas passando!  E enquanto você dançava naquele cômodo, o tempo silenciosamente ia convertendo todas as coisas em passado. E dentro de mim cada coisa ia se convertendo em memória e saudade.

E enquanto a eternidade se equilibrava sobre teus pés, que aconteciam com as coisas lá fora? Alguém sonhava a alguns quarteirões dali madrugadas passadas?  As estrelas refugiavam-se atrás de um céu nublado ou exibiam todo seu brilho? Alguém passava os piores momentos de sua vida, encharcando-se de bebida, tragando maços e maços de cigarro? Sinto-me ridículo ao fazer essas perguntas, basta-me saber que meus olhos estavam lá dentro, naquele condomínio, naquela casa em Vicente Pires. E que ela dançava.

E quando dava seus últimos passos o vestido insinuou cair. E caiu-lhe, assim, discretamente, num estreito espaço de tempo. Pude ainda perceber de supetão a singela “duplicada púrpura dos teus seios” pontilhando majestosamente a dança. Mas mal percebi e logo ela se vestiu novamente. Seu rosto ficou corado de vergonha, embora continuasse a dançar. Depois, no fim da dança, se queixou num muxoxo.

- Você não viu nada não, né?

- Neruda que o diga... Não vi nada...

Meu sorriso acabou me denunciando:

- Ah não! Num era pra você ter visto isso não.

- Mas foi lindo amor!

- Num foi não...

- Ah! então num foi não...

Tive que concordar... Mas eram como coisas invioláveis, colocadas sobre o altar como obra-prima, como duas frutas proibidas, intocáveis. Frutas proibidas, da qual me resignei a contemplar, assim, à distância, como música para meus olhos, naquela noite que você dançou ao som dos Bandolins.
 
E o tempo passou lá fora. E a canção acabou. As luzes se apagaram. A moça me sorriu. Inclinou-se para os aplausos. Aplaudi de pé. E se o tempo morreu lá fora, digo que aqui dentro continua vivo – assim como continua vivo na memória, aquele condomínio de Vicente Pires, aquela casa no condomínio, aquelas sandálias e aquelas roupas sobre a tábua, o seu rosto corado. Tudo persistindo na memória e em mim como aquela estrela que se apagou distante mas que ainda podemos enxergar.
Alex Canuto de Melo
Enviado por Alex Canuto de Melo em 28/10/2007
Reeditado em 26/12/2008
Código do texto: T712963
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Sobre o autor
Alex Canuto de Melo
Brasília - Distrito Federal - Brasil
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Alex Canuto de Melo