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Vaso Chinês

Cheguei ao apartamento vazio. Depois dos quinze dias na casa de mamãe é estranho entrar num lugar tão vazio e silencioso. mas tenho dúvidas... estará mais vazio o apartamento, ou minha alma?
Ah, que saudades de minha casa. Da varanda ampla, do quintal com bancos de vime, do jardim cheinho de orquídeas.
Por que o maldito do Clovis tinha de me trair, e não bastasse, pedir o divórcio sendo o melhor advogado da cidade?
Não me deixou nada, aquele bastardo! Nem ao menos minha adorada casa (com o quintal e seus bancos de vime, o jardim e suas orquídeas). E a hidromassagem? E o closet onde guardava todos meus sapatos italianos e pendurava meus casacos e vestidos de grife? E a prataria? E meus copos de cristal? Será que a “outra” será dona de tudo? Tudo o que eu comprei, escolhi, reformei, decorei.
Ai, como pensar nisso me dá náuseas. Odeio o Clóvis e odeio essa colegial que poderia ser sua filha, mas está lá toda galante em meu lugar. Nem o cachorro ficou comigo.
Depois de um surto de loucura, passei quinze dias na casa de mamãe que usou de “tratamento de choque” para fazer-me voltar à lucidez. Acho que já sou eu mesma novamente. Mas uma “eu mesma” com muita raiva e um ímpeto assassino.
Ai ai. Aqui estou. Num apartamento de dois quartos com vista para a avenida, num bairro de classe média. Tudo o que deu para comprar com o dinheiro que Clóvis achou que mereci pelos dose anos de casamento. Dose anos em que o acompanhei em suas conferências e seminários pelo país afora e fora dele. Pelos dose anos em que suportei aquela víbora da minha sogra e seus jantares chiquérrimos e chatérrimos - perdi a conta dos sorrisos amarelos e beijinhos em que as bochechas não se tocam. Dose anos de solidão, pois sempre o trabalho em primeiro lugar (tanto que a estagiária está lá, bela e formosa na minha casa e eu aqui, com medo de baratas nesse apartamento chinfrim).
Acendo um cigarro e vou desembrulhando as caixas. Roupas e sapatos. É tudo o que tenho. Roupas e sapatos! Como posso viver? Vou comer roupas e sapatos? Pagar condomínio, luz e telefone com roupas e sapatos? Oh meu Deus! Ai de mim.
Se eu estivesse num desses países em que se fazem bazares para vender pertences em garagens... ah seria uma salvação! Venderia algumas peças e teria dinheiro por alguns meses. Mas estou mesmo é no Brasil, onde essas coisas não funcionam. E promover um bazar de artigos de luxo na gararem do prédio que é de uso comum aos moradores tenho certeza, seria no mínimo, bizarro. E cá entre nós, quem pagaria cinco mil dólares num sapato ou casaco ( já tirando o tempo de uso e dando um ótimo desconto) aqui por essas vizinhanças? Não, não. Preciso pensar em algo mais viável.
Vou até a minúscula sacada. Analiso. Aqui, um vaso de orquídeas e uma cadeira. Só. E terei de me contorcer para sentar. Enquanto tudo está vazio mesmo, sento no chão, olho para o céu que me oferece sua lua cheia. Gostaria de acreditar que, cheia de esperança! Vou escrevendo em meu diário.
Toca a campainha. Fecho o diário, prendo os cabelos, atendo. Um entregador com algumas caixas. Não as esperava. Abro-as vorazmente, como um vento afoito de um tufão. Pequenos embrulhos cuidadosamente enrolados em camadas de jornal. Sim... sim!!! São meus cristais, e minhas peças de prata, minhas estátuas de bronze,  toda minha louça inglesa, minhas porcelanas francesas, meus faqueiros talhados em ouro, meus vasos chineses, minhas peças suíças para degustações de inverno, meus souvenirs africanos, e as belíssimas louças portuguesas da última viagem, no Verão. Quase não acredito ao vê-lo!!! ... ele, ele... o meu Vaso Chinês... exclusivo, não há outro igual no mundo, ganhei em Xangai. Foi todo pintado à mão por uma chinesinha que deu-me de presente depois de eu ensiná-la algumas palavras em Inglês em minha viagem para China. Quase um metro de altura, enorme. Se tivesse comprado seria uma fortuna.
Ai ai... como esse vaso me traz boas lembranças, da viagem, das pessoas que conheci, da chinesinha que me presenteou. Um vaso, mas é como se carregasse tudo o que vivi naquela longa viagem, faz parte da minha história.
No fundo da caixa, um pequeno bilhete:
“Dai a César o que é de César.
Querida Leonora, creio que essas peças tenham um valor inestimável para você, pois escolheu uma a uma e não seria justo que ficassem comigo. Além do mais, reformarei a casa e elas acabariam esquecidas no porão. Faça bom uso.
Clovis.”
Por um momento, Leonora desejou quebrar todos aqueles objetos, imaginando a grande reforma que Clóvis faria em sua casa para agradar a nova “esposa”, talvez com cartazes da Britney Spears pela sala e instalando uma lanchonete do Mac Donald’s no quintal.
Porém, aqueles objetos realmente tinham valor sentimental para ela, então respirou fundo e conforme a calma surgia uma nova idéia clareou sua mente.
Sim, eram objetos valiosos no aspecto emocional, pois contavam partes de sua vida, mas falavam do passado e Leonora queria começar uma vida nova.
Foi assim que em dois meses inaugurou a primeira loja de artigos de luxo naquela região. Leonora montou seu próprio negócio. A cada objeto que vendia, contava a história de onde viera e de como fora adquirido. Passou a ser querida em todo o bairro e sua lojinha chique, um estouro.
O apartamento “chinfrim” , agora era o mais novo lar de um cachorrinho abandonado encontrado por Leonora na rua, e sempre estava cheio de amigos. Flores por todos os lados, orquídeas em especial. Muito bem decorado, aconchegante, acolhedor! A anfitriã cheia de charme a servir chás indianos com biscoitos amanteigados, um glamour.
Talvez o que Leonora não soubesse, é que a vida tem certos desígnios. E ela precisou tropeçar, cair e se machucar para aprender a andar com suas próprias pernas... e viver sua própria vida!
Ah claro, em destaque num canto especial da sala o Vaso Chinês, do qual Leonora não se desfaria jamais. Mesmo sabendo que pudesse valer alguns milhares de dólares. Outra lição que aprendera recentemente: algumas coisas na vida não há dinheiro que compre!
Alguém quer chá?
Anamaria Moraes
Enviado por Anamaria Moraes em 28/10/2007
Reeditado em 28/10/2007
Código do texto: T713157

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Sobre a autora
Anamaria Moraes
São Paulo - São Paulo - Brasil, 34 anos
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Anamaria Moraes