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Crônicas da Amendoeira ( As descobertas de Pret-à-Porter )

Crônicas da Amendoeira ( As descobertas de Pret-à-Porter )

Depois de um longo e tenebroso inverno – expressão sempre recorrente para se fazer referência ao sumiço inesperado de alguém – reencontro Pret-à-Porter na Amendoeira. Ao me ver, ergueu-se sorridente. Seu abraço conservava o calor das amizades que não precisam dos olhos para se manterem aquecidas. Sentamo-nos. Márcio trouxe-me a Brahma e a Sagatiba do longevo amigo. Acostumado a brincar, chamando-lhe “ O Cavaleiro das Ostras “, quis saber por onde andara todo esse tempo. O velho aposentado Guardador de Águas da Cedae olhou para os lados e, abafando a voz como quem conta um segredo, disparou:
-  Professor, andei lendo umas coisas...
A voz cava, como diria Nélson Rodrigues, teve, para mim, o peso das revelações ainda suspensas.
 - Mas o quê, meu velho?
 - Dostoiévski e Poe, professor!
Seu semblante mudara. Um ar transtornado ocupou-se de seu rosto. Parecia-me ver um Dimitri Karamasov angustiado entre o amor por Sônia e o ódio pelo pai cínico e déspota. Senti um arrepio, aquele frio na espinha sempre que nos deparamos com um perigo muito grande como, por exemplo, viver.
Do russo, Pret-à-Porter não lera Crime e Castigo, o primeiro que me viera à mente, mas sim Memórias do Subsolo. Eu o lera recentemente por conta de um presente de aniversário dado por meu irmão mais velho. Fiquei uma semana sem respirar, o que é uma temeridade para um tabagista inveterado como eu. E Pret-à-Porter discorreu sobre o livro como ninguém. Nem mesmo Nietzsche, para quem o livro era “ a voz do sangue “, conseguiu ser mais cruel que o amigo riostrense.
Quanto a Poe, acertei na mosca: Estórias Extraordinárias. E bota extraordinárias nisso! Ainda na adoslescência, na companhia de mamãe e o citado irmão, assistira ao filme “ Muralhas do Pavor “, com Vicent Price e Peter Lorre. Baseava-se em dois contos estonteantes do genial americano: “ O Gato Preto “ e “ Barril de Almontilado “. Conto isso a Pret-à-Porter que me sorri aqueles sorrisos que congelam a alma. Um novo calafrio se instala. De trás do balcão, Márcio me aponta uma coruja pousada num galho nu da Amendoeira com aqueles olhos de quem presta muita atenção a tudo.
Não contei as cervejas sob a mesa. Despedi-me rápido, paguei a conta e bati em retirada para a calmaria do lar. Mau agouro por mau agouro, vamos que a coruja fosse um corvo disfarçado? Não, nunca mais.


                                                                                                                                                                       Aldo Guerra
                                                                                                                                             
Aldo Guerra
Enviado por Aldo Guerra em 31/10/2007
Código do texto: T717902
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Sobre o autor
Aldo Guerra
Rio das Ostras - Rio de Janeiro - Brasil, 61 anos
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Aldo Guerra