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PARECE QUE MORREU, ACABOU!

PARECE QUE MORREU, ACABOU!
(Ivone Carvalho)



Este ano fiz algo que não fazia desde os meus tempos de criança.

Lembro-me tão bem! Chuva incessante, filas imensas para se entrar num ônibus, guarda-chuvas se atropelando, mães (inclusive e principalmente a minha) protegendo as crianças, não só para não se molharem, pois isso, fatalmente, as deixaria gripadas, febris, doentes, mas, também, para não se perderem, tamanho o volume de gente e de espaço, tudo propiciando a perda, ante a mínima distração.

Assim, todos, sempre de mãos dadas, um ao lado ou no colo e os outros na sua frente, seguíamos grudadinhos ao corpo daquela protetora que levava os filhos, em todos os lugares, sob suas asas.

 Não sei se os meninos sabiam o que significava aquele passeio, mas eu, mais velha que eles, sabia. Vovô nos deixou quando eu tinha sete anos, portanto, entendi o que significava ver aquele velho tão bom, que nos últimos tempos da minha ainda curta vida eu via numa cama, sem uma das pernas, sobre uma grande mesa ladeada por velas acesas, muitas flores e muita gente chorando. Por isso, eu sabia que aquele passeio, pelo menos uma vez por ano, era para prestarmos homenagens a ele e rezarmos ante aquele pedacinho de terra florido, limitado por cimento.

Enquanto criança, acompanhei mamãe por alguns anos naquele passeio. Com o passar do tempo, essas visitas foram rareando.

Vovó nos deixou às vésperas do meu casamento, três meses antes, e não posso deixar de mencionar, aqui, que ela cumpriu a promessa que me fez quando sua saúde se agravou e eu lhe disse que ela precisava ficar boa logo porque eu já tinha marcado a data. Ver-me casada era um grande sonho dessa velhinha que foi (confesso que ainda é) uma das pessoas mais importantes da minha vida e que, mesmo depois da vida terrena, jamais deixou de estar sempre ao meu lado, permitindo-me senti-la, ouvi-la, sabê-la por perto. No dia do meu casamento, mesmo desencarnada, ela estava ali na igreja e me permitiu vê-la sorrindo, de pé, meio afastada de todos os convidados que lotavam a Igreja de Sant’Ana.

O fato de estar casada, ter uma vida atribulada, trabalhando, estudando e já possuindo opinião própria sobre alguns assuntos e podendo demonstrar para mamãe o que eu pensava sobre idas ao cemitério para rezar pelos nossos mortos, fez com que ela já não fosse lá com a freqüência que ia na minha infância, e, se fosse, eu só ficava sabendo depois.

Assim, nunca mais fui a um cemitério, senão para acompanhar enterros. A exceção ocorreu apenas quanto à minha filhinha que eu sentia necessidade de ver onde tinha ficado o seu frágil corpinho e depois para a triste  e tão dolorosa tarefa de exumá-la para guardar seus ossinhos num ossário. Foi a única vez que pude carregá-la no colo!

Este ano, porém, tudo mudou de figura. Com o recente falecimento de papai, há apenas três meses, não pude dizer “não” à minha mãezinha quando ela me pediu para levá-la ao cemitério neste Finados.

Optei por irmos um dia antes, esperançosa de que a dor pudesse ser menor. Também a minha crença na espiritualidade, a minha convicção de que a vida é eterna e que nossos espíritos se materializam de tempos em tempos em busca da evolução, do aprimoramento, do conhecimento, da expiação dos nossos erros e das nossas fraquezas, me fizeram imaginar que eu agiria com naturalidade ao ver as campas dos meus irmãos e do meu pai.

Mas é muito esquisito! Talvez pelo tempo que faz que os meus irmãos nos deixaram, ainda foi menos sofrido. Mas o meu pai... Meu Deus! Eu não queria estar ali, ver novamente o lugar em que o enterrei, há tão poucos dias... Por alguns momentos fiquei dentro do carro e uma tristeza profunda se apossou do meu peito, não me permitindo segurar as lágrimas que me faziam soluçar.

Mas, e minha mãezinha? Eu não podia decepcioná-la, tampouco permitir que ela fosse sem mim até aquele túmulo que eu daria tudo para não existir.

E fui. Fomos. E os sentimentos dos momentos seguintes são inexplicáveis.

Flores, velas, orações, pranto. Decidi tirar as flores dos vasos e plantá-las. Dedos e mãos cheias de terra. A terra que cobre o corpo do meu pai.

Após sairmos dali, minha mãe começou a observar os outros túmulos. E os montes de terra sem qualquer cuidado, que apenas, pela forma de apresentação, demonstravam que ali jazia matéria que apenas foi enterrada, sem qualquer retorno de familiares.

Mamãe, que sempre deixou um jardineiro responsável para cuidar das campas dos meus irmãos e agora de papai, não se conformava. Como é possível uma família enterrar um ente querido e deixar ali, sem nunca cuidar? Parece que morreu, acabou... Era o que ela repetia...

Tentei dizer a ela que não é bem assim! Que eu mesma, que não preservei o hábito de ir visitar o cemitério, poderia afirmar que a dor, a saudade, as orações, os pensamentos, não se resumem a cuidados com os túmulos dos nossos mortos. Mas, é claro, ela não consegue entender isso. E, por esse mesmo motivo, ela nunca aceitou a minha afirmação de que eu desejo ser cremada. E informa, alto e bom tom, que se ela estiver viva quando eu partir, ela não permitirá a cremação, pois, como mãe, tem direito de exigir que se cumpra a sua vontade, independente de qual seja a minha... Pode?


02/11/2007
IVONE CARVALHO
Enviado por IVONE CARVALHO em 02/11/2007
Código do texto: T720848
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Sobre a autora
IVONE CARVALHO
São Paulo - São Paulo - Brasil, 66 anos
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IVONE CARVALHO