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Em todo boteco

Em todo boteco que se preze, você tem que ser atendido pelo dono. Também tem que chamá-lo de viado direta ou indiretamente sempre que puder. Sem homofobia nem nada do tipo, entende? É apenas a maneira como as coisas seguem.

Um bom boteco tem que ter algum louco de estimação que sempre passa pelo local falando merdas ininteligíveis, xingando e sendo xingado pelos clientes.

Todo boteco que presta, tem que ter caldinho de feijão, alcatrão e cerveja quase gelada. Perdão, mas seu restaurante gourmet com um menu de oito páginas e uma clientela escrota de madames limpas e advogados com bigodes perfeitos com certeza não chega nem perto de um boteco fodão.



Num boteco também tem que existir algum sujeito estranho que quase nunca fala, mas que está sempre lá escrevendo coisas no celular ou num guardanapo enquanto enche a cara.

Fofoca. Num boteco padrão, a fofoca tem que rolar solta. " Souberam que João comeu Maria que é casada com Salatiel e deve aluguel para Pedro? Pedro disse que se não lhe pagarem a dívida, ele vai estuprar Maria, Salatiel e o cachorro de João…"

Aqui conversas aleatórias da vida alheia não podem faltar e nem precisam fazer sentido algum.

Tem também o cara que está sempre lá no boteco, cheio de conversa mole e ocupando os melhores lugares mas não consome nada além de uma garrafa de água. O filho da puta geralmente reclama do preço da água.

O dono. O dono do boteco sempre tem que ter um passado meio obscuro. Coisa do tipo, " veio do interior após matar um desafeto ou estava jurado de morte em Minas e após dar um sumiço no agente da condicional, correu pra cá e abriu um bar."

É impossível abrir um boteco e ser aparentemente alguém de bem.

"Foda-se o bem". É o que dizem.



Num boteco sempre tem uma história de morte, além das histórias que rodeiam o dono. "Eaê cara?! Sabe, mataram um sujeito nesse lugar em que você está sentado, isso foi a uns anos atrás. Um alucinado veio e esfaqueou o cidadão bem nessa cadeira. Primeiro no pescoço, o sangue jorrou no chão e na mesa. Depois duas facadas na nuca. Nunca pegaram o desgraçado mas falaram que foi coisa de chifre, sempre é, tá ligado!?"

"Tô, tô ligado."

Um bom boteco abre todos os dias, principalmente em dias de semana.

Não faz sentido ficar bêbado aos sábados e domingos.

Todo mundo está louco igual a você. Qual é a graça? Grandes merdas, entende?!



Em um bom boteco, o clima fecha se chega alguém desconhecido. A clientela tem que ser, obrigatoriamente,  sempre a mesma. Todos pensam que o estranho é matador ou policial, o que no fim dá no mesmo. Enquanto o figura não der uma risada ou vinher com alguma conversa fiada, ninguém se dirige a ele.



A conta. Num boteco, ao entregar a conta o dono, invariavelmente, vai ouvir " deu a porra, eu pedi duas latas de cerveja, não duas caixas" ou " eu vou deixar essa conta na mesa, vou me levantar, te atolar uma bofetada e ir embora sem te dar um centavo, ladrão desgraçado. Desde quando cinco doses de vodka dão tudo isso aqui, porra?!".

O dono, claro, geralmente está enxugando os copos e sorrindo enquanto escuta tanta merda e blasfêmia. Caso se estresse, é pior. Bebum não tem coragem palpável, mas tem uma habilidade surreal para encher o saco.

Um bom boteco, é a selva,

é um lar.





O Bêbado
Enviado por O Bêbado em 21/03/2021
Reeditado em 21/03/2021
Código do texto: T7212482
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
O Bêbado
Olinda - Pernambuco - Brasil, 32 anos
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