*CHUVA OU SOL NA TERRA DE SÃO JOSÉ

Em 1960 a água apontou na entrada da rua, barrenta e tranquila, mostrava sua força provocada pela enchente do rio Jaguaribe. Morávamos em um povoado, de elevada altitude, era retiro para os desabrigados. Enquanto os adultos demonstravam visível preocupação, pela falta de plantio, a criançada se banhava, apreciava a imensidão das águas parecendo mar. Eu com catapora, nove apenas, admirava a extensão da água, da porta, fortuitamente e, repreendida pela tia alegando que, caso a catapora, se recolhesse eu morreria - entre e se enrole, menina - afirmou categórica.

A maioria dos homens migrou para o Amazonas à cata de pedras preciosas. Meu pai foi com dois filhos. As famílias sobreviviam com a pesca, matavam animais de outros donos, a mandado do padre da igreja, afirmando que não seria pecado, devido à desoladora situação. As famílias compravam o essencial e os maridos enviavam algum dinheiro pelo banco. Meu pai nunca falhou, e trouxe o suficiente para se firmar em Fortaleza. Comprou mercearia e açougue em bairro tranquilo e agradável.

O nordestino é povo sofredor pela estiagem ou, em raras vezes pelo excesso de chuva. Na escassez, a mortandade de pessoas e animais é estarrecedora, pela falta de alimento e trabalho, os retirantes migram para as cidades a procura de emprego. Lemos estas mazelas nos romances: O Quinze de Raquel de Queiroz, 1915; Vidas Secas de Graciliano Ramos, 1938; os Sertões, de Euclides da Cunha em 1902.

O povo, humilde e fervoroso, reza pedindo a São Pedro que gire a chave e águe as terras ressequidas. Outros imploram a São José que as águas molhem a terra, no dia 19 de março, ou o inverno não virá, escondem até a imagem do santo e só liberam quando chover. Os profetas das chuvas sertanejas afirmam: da cumeeira para acima só quem sabe é Deus. As previsões são inúmeras: manchas solares, nevoeiros ao redor da lua, pedrinhas de sal no sereno representando os meses de janeiro a junho, se nenhuma derreter é sinal de seca. Os ventos de Aracati, que carregam as nuvens, são sinais de seca. A floração e frutificação dos juazeiros, umarizeiras, carnaubeiras, aroeiras, é sinal de bom inverno etc.

O Rio Jaguaribe banha o Estado do Ceará. No seu leito, foram construídos os dois grandes açudes cearenses: o Orós que fica a 450 km de Fortaleza, e o Castanhão. Os braços do rio Jaguaribe desapareciam em épocas de seca, o que lhe rendeu a denominação de "maior rio seco do mundo", retornavam e cresciam muito rápido em volume e extensão, na estação chuvosa, tornava-se necessário usar canoas para atravessá-lo. Nadei muito nas águas deste belo rio, que passava detrás da minha residência.

A partir da seca dos três oitos, 1888, no tempo do Império, ocorreu a ideia do açude do Orós com o intuito de ajudar às populações que estavam sendo prejudicadas pela estiagem prolongada, mas só foi iniciada em 1950 no governo de Juscelino Kubitschek. Em 1960, quando ainda estava em construção, houve uma grande inundação desabrigando vários lugarejos e interrompendo a comunicação. O açude foi inaugurado no ano seguinte com o nome de JK.

É assim o nosso nordeste de sol que aquece em excesso, bronzeia a pele, resseca nossa vegetação e deixa o solo rachado parecendo bordado de artesã, e sem as chuvas torna-se infecundo.

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Do livro: Mistérios da Vida








 
Sonia Nogueira
Enviado por Sonia Nogueira em 21/03/2021
Reeditado em 28/03/2021
Código do texto: T7212519
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