A moral é uma narrativa trágica

Aristóteles, um velho sábio da Grécia Antiga, além definir o ser humano como um “animal racional”, ele também nos definiu como um “animal político”. Por quê? Somos animais políticos porque precisamos aprender a conviver com os outros em sociedade. Somos a única espécie de animal no planeta que a vida social ou, em sociedade, não pode ser organizada pelos instintos naturais como acontecem às outras espécies existentes.

Os lobos vivem em sociedade, as alcateias, no entanto, as sociedades de lobos não são regidas por valores morais criados pelos lobos. São os seus instintos naturais dos lobos que formam as alcateias: as suas sociedades. Dizer que a vida dos lobos são naturais é afirmar a repetição da vida num ciclo quase eterno. Os lobos vivem do mesmo jeito há milhares de anos sem alterarem suas alcateias ou sociedades. É uma vida natural, instintiva, sem moral e, por isso, uma vida repetitiva: sem grandes alterações no viver em sociedade.

A vida humana tem aspectos naturais ou instintivos, mas a "natureza humana" não define o modo de viver dos seres humanos em sociedades. A vida humana em sociedades não se repetem infinitamente como acontece nos ciclos repetitivos das sociedades dos lobos. A história humana demonstra justamente o contrário; a vida humana em sociedades estão em constantes mudanças. Não vou entrar no juízo de valor se estas mudanças que acontecem são para melhor ou para pior. Vamos nos concentrar nas mudanças que acontecem nas sociedades humanas através dos tempos pelas ações morais.

A vida da sociedade humana do passado, não é a mesma da sociedade humana de hoje. Por isso, Aristóteles, ao dizer que o ser humano é um animal político, ele precisou afirmar também que somos um animal moral. Pois, a ação política depende de valores morais. Ou seja, quais os valores que devemos ter para vivermos em sociedades? A vida em sociedade política exige que sejamos capazes de criamos valores para nós mesmos e impomos estes valores à vida individual e coletiva. É esta capacidade de criamos valores morais que retira todos nós humanos do estado de obediência repetitiva da natureza. Isso não acontecem com as outras espécies de animais.

Somos um animal moral. Por isso, a sociedade humana se modifica constantemente; uma vez que a moral nos afasta da natureza repetitiva e nos lança em um mundo artificial/construção social. Em vez de obedecermos a nossa natureza passamos a obedecer um mundo moral criado por nós mesmos. Em razão disso, o mundo humano é artificial; uma vez que este mundo é produto de uma construção social e histórica organizado por valores morais.

Nós humanos agimos e nos organizamos a partir de sistemas de valores morais. Este mundo social moralizante é constantemente refletido e modificado. É isso que os filósofos chamam de Ética. E por sermos uma sociedade que vive a partir das ações morais, isso faz da nossa história uma narrativa trágica. A moral na política, a moral na religião e a moral na economia são experiências trágicas no decorrer da história humana.

Aristóteles afirmava que o objetivo da moral era criar um sistema de justiça que fosse capaz de lidar com o lado mais obscuro da nossa natureza humana. Me parece que tanto as instituições políticas, religiosas e econômicas não foram sistemas morais capazes de evitarem as tragédias humanas do decorrer da história. Observando estas instituições morais humanas, elas nos fazem refletir o quanto a vida moral acaba sendo uma narrativa daquilo que desejamos ser, mas nunca o que de fato somos.

A história humana, enquanto organização social moral, não passa de um conto triste de ideais maravilhosos que ninguém consegue por em prática. Por isso mesmo, diz o historiador Harari, a moral é trágica, pois ela é uma narrativa mítica triste, por vezes, hipócrita sobre a vida de qualquer pessoa ou sociedade humana. A sociedade brasileira parece revelar de forma exemplar esta perspectiva no seu presente momento.

Wander Caires
Enviado por Wander Caires em 28/04/2021
Reeditado em 22/09/2023
Código do texto: T7242984
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