MEMÓRIA OLFATIVA

Dia desses, imerso na manhã gelada,no melhor estilo "chutando latinhas de cerveja", seguia eu para o trabalho.

Pessoas cruzavam por mim, é claro.

De repente, uma jovem toda encazacada, cabelos longos é uma destas a cruzar o meu caminho.

Alta, esguia, elegante...Deixa no ar uma combinação de frutas, tão doce que remonta àqueles chicletes de tuti fruti de nossa infância.

É um perfume de qualidade,não há como negar, mas...Cheira a chicletes.

Outros encontros, alguns neutros em odores e mais umas tres figuras femininas exalando aquele mesmo cheiro meio nauzeabundo de...Chicletes.

É a moda dos dias de hoje, véio chato, alertam-me os enxeridos botões de minha jaqueta.

Não lhes perdoo e...

Ponho em ação a minha memória olfativa , vou revivendo odores memoráveis que este meu narigão desengonçado já aspirou ao longo dos tempos.

Como num filme, retomo o cheiro de minha amada. Tão nostálgico, encabulado, capaz de por de joelhos um sonhador feito eu.

Era sua marca registrada nos anos 70, lhe acompanhava, demarcando um território que lhe pertencia.

Vêm-me à lembrança...

Um globo de luz salpicando pequenos retalhos coloridos sobre o salão lotado.Clube "Polonês" ! Um ponto sofisticado da cidade.Canções românticos executadas pela banda - Naquele tempo denominava-se "conjunto" e nós,enamorados , ali, de rostos colados murmurando coisas que só a nós cabiam.

Ela em seus vestidos longos, eu (num tempo de cinturas) todo elegante - pelo menos achava-me - de paletó e gravata deslisando em suave pelo salão.

O inocente aroma de "Unforgetable" da Avon, modismo de então, a envolver-lhe o corpo esguio, cheiroso e...gostoso.

Nada a ver com os chicletismos de hoje.

Fim dos anos 70. Clínica Santa Brígida em Curitiba. Nós, agora

já casados, apreensivos à espera de um certo exame pelo qual ela iria passar.

Uma jovem médica, muito bonita, ia e vinha subindo uma pequena escadaria que dava para o segundo piso.

No ar ficavam resquícios do extraordinário "Caléche" de Hérmes. Impossível não reter na memória aquelas notas fíníssimas, sofisticadas, de fundo almiscarado.

[ Não é atoa que era o perfume de Lady Diana ]

Começo dos anos 80.

Todo simplório, como o são os matutos, fazendo companhoa à minha saudosa mãe, adentramos em um consultório chiquérrimo na região do Batel, se não estou enganado.

Desculpem o termo, mas quase uma dezena de peruas, sofisticádissimas, esparramadas naqueles sofás que dão a impressão de nos sugar quando neles depositamos a região glútea.

- Bom dia ! Disse este interiorano confundido entre os hábitos de Irati e capital.

Não lembro de ter havido alguma reciprocidade, mas amparei minha mãe para que sentasse e lhe alcançei a inseparável "cestinha de crochês" - Que sina !

Silêncio de templos, pernas bem torneadas cruzando-se,cabelos bem tratados e , das mudas, exalava "Poison" de Dior, que era o must do momento.

Aquele cheiro, que parecia misturar jasmim e mel, incensava a sala repleta de quadros magnificos pelas paredes.

O aroma inconfundível da criação fabulosa do velhinho francês, perdoava a arrogância daquelas madames que, depois de um certo tempo, renderam-se às amostrinhas dos crochês de dona Dida e até puxaram das bolsas, algumas agendas para anotar receitas de doces, incluindo o de laranja, que juraram repassar às suas serviçais.

Era dona Dida, cheirando à Mistral e leite de rosas, pondo no bolso a granfinada que foram aos poucos se despedindo - algumas até com beijinhos - daquela cuja consulta estava programada para o final da manhã.

Manhã cheirosa da capital mais linda do Brasil ! Manhã com acordes de Poison, que levemente doce, tinha nada destas chicletiçes de hoje em dia.

Enfim, como domino um pouco desta arte, por força de trabalhar na área há muito tempo atrás, atrevo-me a dizer que adoro os ultrapassados "Opium, Fleurs de Rocaile e

Calandre de Paco Rabane".

Não poderia deixar de citar o refinamento de uma saudosa tia que residia em Ponta Grossa, em cuja penteadeira havia sempre um frasco encantador de "Heure Blue" de Guerlain, com quem era presenteada por outra sua tia rica quando de suas viagens à cidade luz.

Era titia singrando as ruas da Princesa dos Campos, besuntada a esfregadelas daquela tampa de vidro lapidado com a envolvente fragrância.

Hoje, minha eterna namorada, faz opção por um certo perfume denominado "Revelar". Gosto ! Mas juro que preferiria a magia de "Unforgetable", caso ele ainda existisse.

Quanto à mim...Preparo as minhas poções.Tenho contacto com alguém da área de essências de boa qualidade e me auto administro - em litros - a leveza de Lavanda Inglesa e algum amadeirado para os dias frios.

A crônica de hoje - coisa de quem não tem assunto - é um convite à quem se dispuser a descer-me o sarrafo ou interagir, falando dos aromas de sua preferência.

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