NUM TEMPO DE ESCOLA

Nos meus primeiros dias de aula, era vó Maria quem me levava à escola.Apesar d e tantos anos - já estou no bico do corvo , como se diz no popular - guardo nítidas na memória as lembranças daqueles dias.

Fecho os olhos e vou recriando o cenário:

O carreirinho em meio ao vassoural, uma estrada de chão que levava à capelinha e , mais adiante, um bangalô cor de rosa onde residia um animado casal de italianos.

Dois cinamomos gigantes beirando a cerca de ripas, junquilhos no jardim, cones de feno dispersos pelo potreiro.

O gado ruminando preguiça pela estradinha de chão, solenes, se quer levantavam-se.

Era preciso desvia-los.

Das mãos de vó Maria emanava um calor e maciez inesquecíveis quando tocavam as minhas.

Depois, o burburinho da escola e a criançada aglomerada no pavilhão que dividia as duas salas.

Assim que cruzávamos o portão, éramos recebidos por dona Avani, minha primeira professora, à quem vovó recomendava:

-Se ele não se comportar, desça-lhe o sarrafo ! Eu fingia não ver o risinho irônico de ambas, mas confesso que em algumas situações bem que o "sarrafo" seria merecido.

As tardes me pareciam intermináveis e aquelas soletrações e tabuadas eram de uma monotonia...

Havia um arbusto de grande porte num dos cantos do pátio.Era um pé de magnólias brancas com flores gigantes e perfumadíssimas.

Os meninos mais crescidos subiam na árvore e colhiam dezenas daquelas flores que eram espalhadas em vasos na sala de aula.

Aquele aroma entorpecia. Era um convite a viagens por mundos do imaginário.Assim, eu mergulhava a pena no tinteiro e borrava os cadernos enquanto espiava pela janela a olaria a pouca distância. O vai e vem das carriolas carregadas de telhas, as caçambas lotadas de argila, o ruído dos elevadores conduzindo arapucas e as lavadeiras num trecho do riacho.

Aquelas roupas batidas no lajeado de pedras , erguiam-se no espaço feito revoadas de pombas.

De quando em quando, ainda que distanciado, podia-se ouvir o som das gargalhadas do grupo de lavadeiras.

Aquelas paredes me prendiam - ainda que pese o imenso carinho da mestra - eu preferia a liberdade verdejante das campinas, o murmurio do riacho, as pescarias, os causos das batedoras de roupas.

Apesar de tudo, ainda me dedicava e tive sempre um bom desempenho.

Quando o apito da olaria berrava dezesete horas, era um tempo de ir e o aconchego da casa punha-se à nossa espera.

Reconheço que isso tudo é puro saudosismo, pieguiçe de minha parte, que ocorreram em função da música que encontrei no you tube.

Era ela que ouvíamos na hora do recreio, no rádio portátil de uma das professoras.

Sucesso da época, esparramados pela grama,cantarolávamos juntos num espanhol feito a machado e...

Éramos tão ingenuamente felizes !

Cantarolando “Adelita” com Nat King Cole

IRATIENSE THUTO TEIXEIRA
Enviado por IRATIENSE THUTO TEIXEIRA em 24/05/2021
Código do texto: T7262713
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