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Valei-me, Meu Santo Antônio !

...e riu gostosamente !
 
Também, pudera !
 
Não esperava receber aquele presente de sua irmã, que dissera ser batata. O mimo já havia pertencido à mais velha que, obtendo o resultado esperado, o passara à irmã mais nova; esta, por sua vez, depois de conquistado o objetivo, o presenteara. Era uma pequena imagem de Santo Antônio, que trazia no colo o menino - que saía à parte. Rezava a lenda que, uma vez presenteada/subtraída a imagem, dever-se-ia retirar o pequeno do colo do santo (coitado!), e só devolvê-lo após encontrada a cara-metade. Era algo bem inusitado. Concluiu zombeteiro que de duas possibilidades, uma se concretizaria: ou bem encontraria a amada, ou então ganharia um par de algemas: aquilo era seqüestro com exigências de resgate (só devolver após o resultado).
 
Não fez protestos, nem o renegou. Seguiu as instruções, guardou o pequeno e pôs o santo em sua escrivaninha.
 
Era bem verdade que sentia a falta de uma companhia. Tivera poucos relacionamentos, dificilmente se relacionava sem compromisso; só mesmo quando tinha a certeza, é que abria seu coração  (se é que existia esta possibilidade) - não sem antes ocorrer a contemplação platônica, a mente a divagar sobre todas as respostas e situações imagináveis.
 
Ultimamente até freqüentava baladas e boliches com os amigos - quiçá poderia aparecer algo novo (leia-se alguém), uma fortuita novidade para o seu solitário coração. "Será que escolho muito?", pensava. Não estava preocupado por ainda não a ter encontrado. Nem era de aventuras efêmeras, que se dissipavam ao amanhecer, com a névoa. Nada disso. Sabia que no tempo certo, seu jardim voltaria a formar a primavera desejada.
 
Seguia a vida normalmente, do trabalho para casa e vice-versa. Até que, num daqueles diálogos triviais com os colegas de trabalho, deteve-se um pouco mais sobre aquela mulher, com quem também conversava habitualmente. Contornos delicados, rosto macio, olhar feminino, temperamento calmo, observadora - notava como ela inegavelmente mexia com o seu interior. Adorava ficar por ali, a conversar amenidades, enquanto a admirava, como um visitante do Louvre se maravilhava diante de um Da Vinci.
 
Decidira, sem despertar desconfiança, perguntar se a bela tinha seu coração disponível. A resposta foi positiva. "Um convite para sair seria ótimo", avaliou. Sairiam juntos dali a duas semanas, por conta de compromissos já agendados de ambos. Seu coração o impulsionava com mais força. No decorrer dos dias, sentira que o tempo rastejava até chegar àquela tão almejada data. Lembrara-se de suas promessas de ano novo, meditadas em seu íntimo enquanto via a queima de fogos da sacada de sua casa, querendo que aqueles desejos viessem a materializar-se, como numa explosão colorida e verdadeira, tais como via diante de suas retinas.
 
Pediu a ela o número do celular, e mandava torpedos de saudações, ao que a pretendida respondia, agradecendo polidamente a cada um deles. Sentia que poderia lograr êxito, que seu coração finalmente teria uma nova proprietária, e que esta seria muito feliz com o tesouro que ali dentro remanescia.
 
E o dia havia chegado. Uma quinta-feira comum, dia nublado, plena primavera. Era aquele dia mesmo. Só que ambos não sabiam o que os aguardava. Neste dia, havia a celebração de uma missa muito conhecida na cidade, que aliás ambos planejavam há algum tempo irem juntos. Eram cinco horas da tarde. Ela enviou uma mensagem perguntando se ele gostaria de ir naquele dia, pois era missa de São Judas Tadeu. "O Santo das Causas Impossíveis", lembrou-se. Avaliou por alguns instantes a situação. Sentia um  leve tremor de  mãos, rosto afogueado, coração em descompasso - todos os sintomas que ele adorava/odiava ao mesmo tempo, já que se sentia desconfortável  numa situação que não lhe permitia ser dono de suas reações. "O que vale na vida, é viver o momento", concluiu. Nada de deixar para depois. O amor chamava sua senha naquele instante. Mandou outro torpedo, confirmando a ida com ela. O frio na barriga aumentava. Ficou de pegá-la no caminho para irem juntos. Ao vê-la, deixou seu coração ser o controlador de vôo, diante de tamanha turbulência que sentia no peito, ante as possibilidades. Ao chegar ao local, foram caminhando, ele estendeu sua mão direita, o que ela instintivamente a segurou, e lá se foram, de mãos dadas. Ao entrarem, ele deteve-se, segurou o braço dela, e puxando-a carinhosamente para junto de si, olhando em seus olhos, abriu seu coração. Dissera o quanto ela era importante e o que já representava para si, e que na verdade, o que ele queria era partilhar a felicidade junto com a amada. Ela deu um leve sorriso, enquanto ambos deixavam-se enlevar pela magia daquele instante. E aconteceu o beijo. Aquele que era esperado para dali a doze dias, se antecipara, para alegria de ambos." É pra valer?", ela indagava. "Sim, querida...é pra valer!", e beijaram-se como se quisessem desbravar todas as nuances do amor, ali mesmo.
Após  a missa, ele a levou para a estação, e ali ele a deixou, já com o coração cheio de saudades.
 
Ao chegar em casa, rosto leve e sorridente, ele se lembrou do presente. Foi até sua gaveta, vasculhou o local onde deixara o menino. Encontrou-o ali, e tomando-o pelos dedos, acomodou-o de volta ao colo do santo.
 
"Santo Antônio, muito obrigado! Cá está. Você mereceu."
 
E assim, radiante e ainda a sentir o suave sabor dos lábios desejados, adormeceu por entre os doces momentos de há pouco, que deliciosamente rondavam sua mente e o seu coração.
 
Marcio Roque
Enviado por Marcio Roque em 06/11/2007
Código do texto: T726395
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Sobre o autor
Marcio Roque
São Paulo - São Paulo - Brasil
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Marcio Roque