DIVÃ

É um moreno corpulento de dois braços vigorosos que reina recostado à parede da sala. Por muitos anos, sua morenice foi banhada por sóis de verão, outono, inverno e primavera, conferindo um bronzeamento natural que enrijeceu sua pele. Apesar de inanimado, é suscetível à senilidade que já lhe arranca fiapos do crânio acolchoado, evidenciando sua branquice. Sua espuma tem começado a se desintegrar aos poucos em flocos discretos que se espalham pelo chão gelado. Eu, ainda prestando pouco zelo ao rapaz, lhe cobri com um velho edredom floral, conferindo certo charme ao seu engenhoso organismo.

Este sofá, já tendo pelo menos nove anos de vida, acompanha-me nas andanças por diferentes residências, entre repúblicas e moradias a só. Já prestou serventia honrosa a diferentes corpos, desde os mais franzinos, malhados, definidos e mais gordinhos como o meu, em inúmeras sessões de longas séries na Netflix. É letrado e muito intelectual visto que sobre suas cacundas livros das ciências florestais sempre descansavam, abertos ou fechados, por dias a fio. Ali em cima alguns namoricos também foram testemunhados em silêncio e fechados a sete chaves – segredos que ficam trancafiados nas suas longínquas memórias espumosas. Esse sofá não é um sofá comum. Ele já acolheu e aconchegou o bebum estrupiado que entre um soluço e outro resmungava de personagens que sua mente criava ou alguma lembrança embaraçosa que presenciou. Também já foi palco do roçar canino que procurava atenuar a coceira no couro esfregando-se nas beiradas pontudas.

Apesar de ser bastante prestativo aos serviços doméstico, intelectual e de entretenimento, o divã, como chamo o velho sofá, também é um leal ouvinte e um exímio conselheiro. Todos os dias, em algum momento, dou uma repuxada na minha estrutura corporal e de repente já me vejo deitado entre os largos e aconchegantes braços desse moreno. Ali acabo desabafando algumas situações, reflito com ele sobre determinados acontecimentos do dia, filosofo sobre a vida, deixo escapar alguma crônica que tenho em mente e tento providenciar soluções para resolver um entrave científico. Além disso, durante alguns surtos de ansiedade – que raramente acontecem – é com ele que faço minhas sessões de terapia e relaxamento. Já começo a sentir uma certa saudade imaginando que nossa despedida se aproxima pouco a pouco.