O CIRCO CHEGOU - SE MULHER NÃO PAGA, EU VOU DE VESTIDO

“Respeitável público, o circo chegou". Essa era a frase de divulgação, propaganda do carro de som quando o circo percorria a avenida da cidade interiorana. “Não percam palhaços, trapezistas, malabaristas, equilibristas na corda bamba, domadores de animais, engolidores de fogo, globo da morte e muitas outras atrações”. “Estréia na sexta-feira, não percam". A chegada do circo provocava uma verdadeira excitação nas pessoas, sobretudo nas crianças.

Meus pais deixavam eu e meus quatro irmãos irmos ao circo, no entanto, para meu irmão “Cáu” só uma vez não o satisfazia, ele queria ir outras vezes, dizia que gostava muito do trapézio e dos domadores. Ele era um piá gordinho de dez anos muito travesso, e para resolver o seu problema, ir mais uma vez ao circo, certa vez pediu para os meus pais o deixarem dormir na casa dos nossos avôs maternos. Lá chegando, já de plano arquitetado, passou o dia todo perturbando, chateando a dona “Bé”, uma senhora que contribuía com meus avôs nos afazeres domésticos, desejava que ela o levasse ao circo, argumentava que naquele dia mulher não pagava para entrar. Dona “Bé” então já cansada de sua insistência então lhe disse: “Meu 'fio, se mulher não paga eu vou, mas você só vai se colocar um vestido para também não pagar”. Meu irmão de pronto lhe disse: “Está bom, se é assim e mulher não paga, eu vou de vestido”.

Após os preparativos, base no rosto, lenço na cabeça e de vestido, os dois se dirigiram para o circo, ou melhor, as “duas”. Ao entrarem na portaria, o porteiro, meio desconfiado pegou no queixo de meu irmão Cáu e disse: “Que gordinha fofinha, bonitinha”. Dona Bé disse que meu irmão já olhou o porteiro com o canto do olho e com a cara enfezada. Ele era um gordinho invocado, estava sempre envolvido em brigas de piá. Após subirem na arquibancada, a dona Bé recomendou ao Cáu: "não abra as pernas, fique com ela juntas como mulher para ninguém desconfiar". O Espetáculo começou, quando veio a apresentação do trapézio o meu irmão se entusiasmou, nessa altura já estava com as pernas abertas como um piá, literalmente quase fazendo as acrobacias do trapézio na arquibancada. Um piá sentado logo abaixo começou a olhar para cima e disse aos outros que estavam ao seu lado: “Olha que pernas a gordinha têm, ela é bem gostosona”. A dona Bé falou que a sorte foi que o espetáculo estava no fim e logo terminou, meu irmão havia lhe confidenciado que estava a fim de bater no piá que falou de suas pernas.

Acontece que meu irmão conhecia o piá que o chamou de “gostosona”. Na saída do circo ele não aquentou, se aproximou bem perto dele e em voz baixa disse: “Amanhã no campinho, no futebol, nós nos encontramos e você vai ver quem é “gostosona”.

Atualmente quando a família se encontra e a história do circo entra em pauta, peço ao meu irmão. E daí, lá no campinho, você surrou ou não o piá? Ele responde: “Não! Chegando ao campinho ele se adiantou e pediu desculpas, ainda me escolheu para seu time de futebol e disse que eu poderia bater todos os pênaltis e todas as faltas que viessem a ocorrer durante o jogo. Assim, diante aqueles privilégios, ficou tudo em paz, rsrsrs...".

Bem, agora foi, contei a história, se meu irmão ficar bravo pela publicação, só me resta convidá-lo para uma pescaria dizendo para deixar a cerveja por minha conta e que ainda vai estar bem gelada, rsrsrs. Boas lembranças!

“A vida às vezes precisa ser como o circo, alegre e divertida" - Fernanda Poubel.