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MUSA: PROCURA-SE...

 

Perdi minha musa...

Agora, desde que a procurada declarou-se ausente por tempo indeterminado, não consigo escrever uma mísera linha sequer. O papel fica dançando à minha frente, a caneta insiste em ficar estática e, cadê inspiração?...

Para mim, fica bem claro, de cara, que cometi um erro primário, gravíssimo: mitifiquei minha musa...

Transformei-a num ser surreal, intangível, intocável, além da imaginação...

Desperdicei preciosos minutos elogiando os anelados de suas longas melenas e de como eles eram irresistivelmente atraentes e perfumados. Perdi nosso tempo falando da magia e sedução que existia em seus olhos bem como da castanha profundeza enigmática que deles emanava. Insisti em reafirmar mil vezes a lisura da textura de sua perfumada tez e de como seu corpo devia ser macio e agradável ao tato. Desmanchei-me em advérbios rebuscados, suspiros exprimidos aos pés de seus ouvidos, evocativos da atração que seus carnudos e bem desenhados lábios exerciam sobre os meus, declarando-me apaixonados por eles. Enfim, ao longo do tempo fui soprando uma bolha invisível que acabou mantendo-a salva do assédio de minhas esfaimadas mãos...

Resumindo, usei todo o tempo que desfrutava ao seu lado, abusando de uma enfadonha prosopopéia, esquecido (ou desavisado) de que nada disso a interessava, não era isso que precisava para sentir-se amada, para acreditar-se viva, para se entregar...

Minha musa não é uma santa...

Minha musa é uma mulher...

 Agora tenho absoluta certeza de que o que ela menos desejava era estar ao meu lado sendo alvo de uma medíocre catilinária que não atendia seus mais recônditos desejos e só a deixavam mais ansiosa. Agora sei que, em vez de ficar entupindo seus ouvidos com palavras melífluas e melosas devia ter assumido a postura de meu ancestral, homem das cavernas, que sabia como lidar com sua fêmea...

Sim, é isso mesmo. Devia tê-la submetido pelos longos cabelos, mantendo-a presa sob o jugo da força de meus braços e da musculatura de minhas pernas. Devia ter tomado posse de seu corpo com todo o ardor ignorante de minha agressiva masculinidade. Ter somado o cheiro agreste (de flor de campo) de sua jovialidade feminina ao odor envolvente de meu desodorante cítrico de macho carente e suado, enquanto mergulhasse meus olhos no fundo de sua íris e acariciasse com rudeza sua macia pele de jambo, seus eriçados seios, fundindo meu corpo em seu corpo, calando finalmente todos seus pensamentos por falta do oxigênio que roubaria de seus pulmões com o mais despudorado e agressivo de todos os meus beijos...

É verdade. Fui mesmo estúpido. Agora entendo porque ela fugiu. Já sei por que ela se foi. Eu tinha a receita para fazê-la feliz. Tinha o remédio para que ficasse submissa ao meu lado. No entanto, néscio infeliz, de posse de todos os ingredientes, não soube como manipulá-los...

Agora sei definitivamente, finalmente descobri, minha ficha caiu...

Musas não são deusas, não são anjos, não são santas...

Musas são mulheres, são fêmeas, são pecadoras...

Elas não desejam ser rainhas...

Elas preferem ser escravas...

*******

 

BUCHARA
Enviado por BUCHARA em 12/11/2007
Reeditado em 12/11/2007
Código do texto: T734228

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Sobre o autor
BUCHARA
Campo Grande - Mato Grosso do Sul - Brasil
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