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Tratamento de choque

           Todos os dias convivemos com pessoas dos mais diferentes tipos, em diferentes circunstâncias; e de longe sequer conseguimos imaginar o que se passa em seus corações, no cantinho mais escondido de suas almas. O que vemos é o que conhecemos e muitas vezes nos deparamos com pessoas tão alegres, extrovertidas; no entanto, não sabemos que dores carregam, que traumas e angústias assolam suas almas.
Eu, particularmente, também sou assim; muito pouco transparente aos que pensam que conseguem me enxergar. Acho que nasci com uma dor congênita, incurável, mas não genética. Passo noites a fio, mergulhada em um profundo pesar, que traz como desculpas diferentes causas; desculpas, sim, porque nem sempre é preciso haver uma causa para que a dor assole o meu coração. Após anos de madrugadas solitárias, amadureci com esse estado e sei que ele será o meu eterno companheiro.
Acho que existem muitas pessoas que também se sentem assim; talvez algumas precisem de uma desculpa para justificar esse sentimento de dor; outros podem tentar sublimá-lo em algum tipo de arte ou quem sabe perder as rédeas de si mesmo. Eu atualmente encaro tudo isso como um tratamento de choque; tratamento que me mantém lúcida, que descerra o véu que encobre a dura e crua realidade da vida. Esse tratamento de choque mantém-me perigosamente lúcida e cada vez mais solitária, caminhando sempre à beira de um precipício. Difícil explicar, traduzir em palavras sentimentos intraduzíveis, pois as palavras são vazias dos significados que sentimos.
Hoje, chego a entender um pouco a insanidade de Van Gogh, o suicídio de muitos poetas, mal de tantos. Quando somos acometidos de dores de lucidez, podemos ficar loucos, insanos, sem juízo. A lucidez é um dos piores males, pois torna as noites intermináveis, a vida insípida e o agora eterno. Quando vago noites a fio, espero veementemente os primeiros raios de luz e tento neles agarrar mais uma chance de me tornar ‘normal’, de viver, simplesmente, como se isso fosse possível.
Então o que fazer, se não me conformar com essa herança adquirida no primeiro sopro de vida, única e minha, unicamente minha. Gerar no ventre da minha alma palavras, frases, parágrafos que possam ou não fazer sentido; não soluciona a dor que fervilha por todo o meu corpo, que esfria o meu sangue e corrói as minhas articulações. Ameniza, decerto, suaviza o que parece perder o sentido quando o dia amanhece e desperta-me do meu estado de lucidez, do meu tratamento de choque.
A rotina, o trabalho, as banalidades de todo o cotidiano me anestesiam para que possa suportar as noites seguintes dessa minha existência. Eu e meu tratamento de choque. Espero que você não o tenha experimentado.




























Elizabeth F de Oliveira
Enviado por Elizabeth F de Oliveira em 14/11/2007
Código do texto: T737241

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Sobre a autora
Elizabeth F de Oliveira
São Luís - Maranhão - Brasil
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Elizabeth F de Oliveira