Penumbra

Deixo a paisagem por conta de quem a queira e paro aqui. Importa nada como estou, como venho, para onde quero ir. Faz sol, mas está frio. Talvez seja inverno nesta quietude onde cabemos a brisa e eu, assim sem norte que se saiba, sem que eu próprio conclua o que haverá para concluir.

Lentas, uma a uma, vêm todas as palavras solteiras. Chegam e ficam, a borbulhar-me por dentro, desalinhadas, em gritos engolidos. Poderiam ser vozes, são vozes que chegam para não dizer. Leio-as pelo tom, pela força ou fragilidade, pela tentativa de resposta ao que ninguém quer saber. Apenas uma se suaviza e essa, igualmente calada de sentido, troca de letras e pronuncia o meu nome como se não fosse o meu. Ainda assim respondo e vou atrás do chamado. Como se quisesse ir, como se, indo, pudesse perceber-me, ver o que não vi, colocar luz na estrada e seguir como se achasse a razão.

Depois de iniciado o andamento, a voz fugia e eu corria para a ouvir como se tivesse pernas.

Edgardo Xavier
Enviado por Edgardo Xavier em 26/12/2021
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