O centenário de Brizola

 

O que escrever nos 100 anos de uma pessoa tão superlativa, que até o próprio nome escolheu? O nascido Itagiba - por escolha da mãe - e que se tornou Leonel por vontade própria, saiu literalmente dos cafundós de Carazinho, no Rio Grande do Sul, para se tornar uma personalidade ímpar do Brasil e do mundo no século XX. Mas isso muitos vão falar e escrever amanhã, na data de seu aniversário. O que posso dizer de diferente sobre isso, numa crônica? A minha ótica sobre ele, já que fui contemporâneo de parte de sua passagem pela história.

 

Vou começar falando de algo que pode parecer provocação, mas não é, como vocês perceberão. Era 1978, recém nos mudáramos para a Cohab, em Charqueadas, e ganhamos um cachorro. De tanto ouvir falar de um tal de Brizola e achar o nome bonito, coloquei-o no bicho. Meu pai, brigadiano, disse-me: - Não, escolhe outro nome, esse pode me complicar. - Porque, pai? - Ah, tu é muito novo ainda pra entender o motivo. O nome do cão ficou Javali. Eis o início.

 

Não demorou muito pra mim entender as reservas paternas. Brizola era um perseguido pela Ditadura Militar por motivos políticos. Quando retornou ao Brasil com a Anistia, em 1979, foi aquele estardalhaço do qual recordo muito vivamente. Lembro também da disputa pela sigla do PTB com Ivete Vargas, que geraria o PDT, pois desde muito novo me interessei por política e acompanhava as notícias. Já dez anos depois, em 1989, na primeira eleição presidencial da Nova República no pós ditadura, votei no Lula para presidente. No segundo turno, assisti Brizola apoiar o "sapo barbudo" e transferir massivamente seu eleitorado gaúcho e carioca para o mesmo. Fiquei impressionado com sua liderança e visão política e isso influenciou minha formação política, minha forma de ver a política em termos práticos. Assim, reformulei meus conceitos sobre a aliança do PDT com o PDS no Rio Grande do Sul em 1986, passando a vê-la, de incoerente, como consequente. Pelo mesmo motivo, apoiei e votei no pedetista Alceu Collares para governador em 1990, no segundo turno. A gente aprende a pensar grande na grande política vendo o exemplo dos grandes, que enxergam longe, como Brizola.

 

Nunca fui brizolista, pois os jovens de esquerda do meu tempo foram, a maioria, cativados pelo socialismo democrático petista, não pelo trabalhismo de orígem getulista que, na versão brizolista, ficou conhecido como "socialismo moreno". Todavia, Brizola sempre foi uma grande referência dentro do espectro da esquerda democrática para todos que por ela se guiavam. Só votei nele uma vez: em 2008, quando foi vice de Lula, numa aliança há bastante tempo desejada por muitos "canhotos". Volto um pouco mais na memória, para 1990, quando presenciei Brizola e Luis Carlos Prestes desfilando em carro aberto pela Rua da Praia, em Porto Alegre. Fiquei embasbacado em ver a história passando ante meus olhos, ali corporificada naquelas duas icônicas e ilustríssimas figuras. Não esqueço.

 

O legado político e administrativo de Brizola é gigante e atual, nesses tempos onde grassa, de um lado, a sanha aintidemocrática, autoritária e negacionista da extrema-direita e, de outro lado, o engodo da agenda liberal e suas reformas. O ex-governador gaúcho e carioca, por sua biografia, combateria os dois. Se desde os tempos do governo FHC se tenta "superar" as políticas implantadas na Era Vargas, após o golpeachment na presidenta Dilma, nos governos Temer e Bolsonaro, ela foi totalmente arrasada com a terceirização, a PEC do Congelamento (de investimentos na Saúde e na Educação) e as reformas trabalhista e previdenciária. No Rio Grande do Sul, acentuadamente nos governos Sartori e Leite, o modelo de estado estabelecido por Brizola ainda nos anos 1960 está sendo desmantelado com as privatizações feitas e à caminho: CRT (governo Britto), Corsan, CEEE, Banrisul, etc. E o atual governador, em campanha, disse que não as faria, repetindo Antônio Britto em 1994...

 

O fato é que as reformas da agenda liberal no Brasil e no Rio Grande, ao contrário do discurso, não trouxeram benefícios práticos para a população, mas somente para o grande capital. O desemprego crescente, o arrocho de salários, a ampliação da desigualdade social, a perda de direitos e o aumento de preços e de tarifas estão aí para mostrar que tudo não passava de falácia ideológica, longe do que seria um modelo econômico visando o bem-estar de quem vive de salário, à moda social-democracia européia, referência do trabalhismo. E, nesse sentido, o legado brizolista é atualíssimo, eis que demonstra, na comparação, hoje, claramente qual modelo é o melhor para o povão do andar de baixo e da escala média da pirâmide social.

 

Em outubro de 2016 estive em Carazinho, a fim de participar de um encontro regional de colecionadores do gibi Tex Willer, e conheci a estátua de Brizola lá em sua cidade natal (foto acima). Em junho do ano passado fiz um texto para o Portal e para o Recanto sobre os 17 anos da morte de Brizola e disse que, se a pandemia permitisse, iria a Carazinho no seu centenário de nascimento. Já me via num sabadão de sol de verão visitando a praça Albino Hillebrandt e comendo um galeto com massa - especialidade gastronômica da cidade. Não deu. Todavia, fica feito o registro do centenário desse grande vulto da nossa história, cuja vida pública ainda é um norte para os brasileiros.