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Criança peste- dois

O garoto era da cidade, Porto Alegre disseram....Capital!

Grande coisa também já tinha morado lá! Bem na verdade era grande Porto Alegre, mas quem iria saber, era tudo pertinho mesmo, e a gurizada que brincava no potreiro correndo atrás dos cavalos e escorregando na grama até cair de boca na vertente logo abaixo, se refestelando com a água geladinha nunca tinha ido para lá mesmo então não iria saber mesmo a diferença...

Na época nem eu sabia a diferença, tinha quantos anos? Sete talvez, sempre suja de terra, toda arranhada, esfolada de tanto trepar nas árvores para comer a fruta direto do pé, formávamos uma gangue da pesada, eu minha irmã mais uma amiga, que era tão branquela quanto uma criança albina. Eu claro era a mais tinhosa, queria executar todas as espécies de arte que minha cabecinha sempre fértil arquitetava, e as outras iam na onda, quase sempre resultava em uma surra de vara, ou muitos arranhões e curativos.

Teve uma vez então, que este garoto , nem me lembro o nome dele, lembro que era todo metidinho o coitado! Cabelo bem arrumadinho, unhas bem limpas e roupas passadas a ferro, chegou para visitar alguém . De cara não gostamos do coitado, era sempre unânime nossos gostos, uma não gostava, então a outra odiava, logo queríamos aprontar alguma com o rapazinho.

Os pais , como sempre empurrando os filhos para que sejam amigos, educados, bons anfitriões e bla bla bla, só contribuíram apresentando para nós a opurtunidade, quando minha mãe deu a idéia de irmos brincar na vertente. Imaginem um gramado lindo no meio do campo, a limpo de espinhos , perfeito para correr , rolar, jogar bola, tinha uma inclinação de onde podíamos deslizar, sentados em papelotes bem no alto , e depois com um impulso íamos escorregando até chegar em uma vertente,  limpa, com uma camada fina de areia no fundo, uma delícia. Nos dias de calor passávamos a tarde toda ali brincando, quando dava fome era só subir na árvore mais próxima e comer uma fruta bem doce. Tinha ameixa,laranja,caqui,goiaba,pera,maça...

Bom a vertente funcionava como uma piscina , e para que a água possa ficar sempre limpa sem resíduos de folhas, e limo no fundo, foi necessário construir um tanque, era grande, neste tanque a água é praticamente filtrada, ali no fundo ficam resto de folhas, pequenos bichinhos, como caranguejo.

 É tinha vários deles ali, então brincando com o raio do menino que corria para lá e para cá, sem se sujar, e sem se despentear, por mais que nos fizéssemos estripulias o pirralho permanecia impecável, até quando se molhava, mantinha a pose de bonito, se fazendo de machão, pois de jeito nem um ele ia querer perder para as meninas caipiras e psicopatas diga-se de passagem, pois já tínhamos decidido que naquele dia ele ia perecer nas nossas mãos..

Então provocando e mexendo com seus brios masculinos fizemos com que ele entrasse no tanque, o pirralho estava apavorado, olhos bem abertos, sentado na borda, o tanque era bem diferente da vertente, era escuro e sujo pois a água ficava estagnada ali, tinha um cheiro forte, folhas boiando e muito musgo em suas bordas, nós todas sentadas muito atentas a volta, tinhámos que admitir que ele estava sendo corajoso . Pois apesar de tudo ele estava ali com as pernas metidas na água escura, só que o raio do pirralho não descia.

Eu impaciente me atirei para cima dele a fim de derruba-lo, ele pressentindo o meu bote desviou para o lado , não conseguiu evitar o mergulho mas com isso me levou junto, era difícil ficar ali de pé o fundo era escorregadio, cheio de sei lá o que, começamos a gritar todos juntos, as meninas do lado de fora correndo em volta do tanque feito baratas tontas e eu e o pirralho agarrados dentro do tanque se segurando um no outro para não escorregar, e os caranguejos? Acho que não tinha nenhum ,ou então fomos tão rápidos para sair que nem demos oportunidade para que eles nos pegassem!!!

Bem depois disso o menino havia provado que estava a altura de ser nosso amigo e o aceitamos como se ele fosse um autêntico caipira e passamos a dividir o território com ele de bom grado, descobrimos até que ele era bem bonitinho e contribuía bastante para tornar nossas tardes bem agitadas enquanto esteve lá, e perto das férias já o esperávamos bem ansiosas para fazer estripulias, pena que crescemos e como era de se esperar cada um tomou seu rumo...


Ps: Estava mentindo quando disse que não lembrava o nome dele, eu lembro sim era Marcos, afinal ele acabou se tornando motivo de algumas brigas e muitos catiripapos entre as caipiras do sítio hehehe

Simone Mottola
Enviado por Simone Mottola em 22/11/2007
Reeditado em 23/11/2007
Código do texto: T747992

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Sobre a autora
Simone Mottola
Porto Alegre - Rio Grande do Sul - Brasil, 47 anos
193 textos (21056 leituras)
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Simone Mottola