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Causo de Viajante


Para sair de Manaus só  há duas maneiras: Por água ou por ar. De carro só para Roraima, Venezuela e Caribe. Assim, quem quiser visitar os demais estados sem enfrentar dias e noites em cima de embarcação,  terá de voar.
Com o caos aéreo em pleno ápice isso pode tornar-se uma aventura muito interessante. Hoje se viaja em um horário quando o programado foi outro.Já vão muito longe os tempos em que ofereciam descontos para aqueles que se aventuravam em enfrentar os vôos das madrugadas.
Fui a São Paulo, acompanhado de um amigo, num vôo previsto para acontecer a 1;40h. Atrasamos por mais uma hora e meia. Some-se a isso o tempo que devemos estar antes, no aeroporto e teremos consumido cerca de 3 horas, só de espera. Durante esse tempo convidei meu amigo a tomar um chope o que ele negou. Disse que havia uma cerveja especial sendo servida no avião, do tipo que não havia no aeroporto. Concordei com ele e  fui solidário em seu jejum, uma vez que a tal da cerveja Stella ajudaria a passar mais rapidamente as quase quatro horas de viagem.
Finalmente no ar, com o avião estabilizado começou o serviço de bordo.
 -  O senhor aceita um lanche?
-  Quais as opções?
-  Sim ou não!
A comissária de bordo parecia ter cabelos nos dentes, pois não os mostrava de jeito nenhum. Aliás, não sei por que mudaram o nome da aeromoça para comissária de bordo. Talvez porque no caso presente caberia melhor o título de aerovelha, porque, apesar de avançadinha nos anos, não parecia ter a experiência do sorriso no rosto, comportamento tão bonito quanto necessário para tranqüilizar os passageiros.
Estava sentado na poltrona do corredor, meu companheiro no centro e uma desconhecida na janela. Lembrei do meu companheiro e perguntei à aerovelha do sorriso ausente:
- Tem cerveja?
- Não servimos cerveja no café da manhã! -  Disse-me ela, ríspida e com o sorriso mais ausente ainda. Senti-me como o maior dos alcoólatras implorando uma dose numa mesa de bar, para um estranho. Meu companheiro começou a rir de mim. Ele que foi o causador indireto do pedido.
Depois fiquei pensando que ela devia ter razão: 3 horas em Manaus são 5 horas em São Paulo, a noite não terminou em Manaus, mas o dia já estava começando em São Paulo na hora da decolagem.  Resolvi participar da gozação que meu “amigo” fazia comigo e aproveitar o resto da viagem.
Sempre gostei muito de observar o dia amanhecendo de dentro do avião. O mar de nuvens abaixo, o sol mostrando os primeiros raios desde lá de baixo, para em poucas horas estar acima de tudo e de todos.  Preparava-me para observar melhor este espetáculo quando a terceira pessoa, sentada à janela, simplesmente baixo a sanefa obstruindo a claridade e tampando minha visão.
Causos de viagem.  Alguns vêem a viagem como pura perda de tempo. Para estes, o importante é estar no destino.  Haverá outras.

Luiz Lauschner
Enviado por Luiz Lauschner em 25/11/2007
Código do texto: T752252
Classificação de conteúdo: seguro
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Sobre o autor
Luiz Lauschner
Manaus - Amazonas - Brasil, 65 anos
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Luiz Lauschner