MEIO SEM GRAÇA

texto reeditado

Quando alguma camada - ou massa - polar desloca-se lá das bandas da Argentina resolvendo dar uma passadela aqui pelo Sul, há que se estar preparado: física e psicologicamente, uma vez que ela mexe com o nosso estado de espírito.

Fisicamente, nos obriga a retirar dos armários aquêles agasalhos que imaginávamos usar tão somente no proximo inverno. Sobre os edredons, voltam os cobertores de lã e a quem é dado à exageros, os acolchoados de pena de gansos.Desperta-nos o apetite e começamos, então, a pensar em massas,vinhos,chocolates (quente ou em barras)e outras amenidades do gênero.

Psicologicamente,o frio e o vento, a mim evocam Astor Piazolla...Tangos à "media luz"...

[ Dançam arvoredos, dançam imaginações!... ]

E na magia dêste ritmo vai surgindo uma doce nostalgia...Um desejo de conversar, de falar de nossas emoções, relembrar o passado, enfim...Bate uma saudade, não sabe-se de que ou de quem, mas têm-se a convicção de que é boa, é leve, é uma saudade que faz bem. Aí, você acaba saindo pela rua, os trajes pesados fazendo -te sentir-se elegante - pelo menos no imaginário - vai -se encontrando gente ( que não se conhece ), aquêle ar frio é estimulante e você anda...anda...

[E não topa com ninguém do teu tempo ]

Retorna, meio sem graça mas ainda sob o efeito do bandoneon que lateja em sua cabeça decide encarar mais uma investida:

Hemisfério Sul,08/10/2009

Dezenove horas!...Estamos sob o efeito de uma massa polar. A carranca cinzenta do céu impede-me a visão das estrelas. Da pequena praça no entroncamento das ruas, as palmeiras experimentam a sensualidade de uma dança.

Abraçados, os galhos, se roçam...Entrelaçados lançam sussurros eróticos sobre a minha cabeça...Estou à caminho do supermercado que fica logo ali,à uma quadra de onde moro. Lá, certamente encontrarei alguém para conversar, penso

com meus botões. A espôsa dera-me a lista de compras; Recusei-a!...Ora,vejam !...Não preciso de listas,a memória é boa e não esqueço de nada. Amarroto o papel e o dispenso na lixeira da cozinha. A esta hora ,costumeiramente o supermercado está lotado, porém, hoje são poucos os clientes. Apanho um carrinho e saio girando entre as gôndolas. O tango que trago na cabeça, me faz alegre, aguça-me o desejo de um bate papo. Não vejo ninguém que eu conheça.

O som ambiente não poderia ser melhor!...Marcos,um dos proprietários,costuma sintonizar uma emissôra de rádio,FM local,que só toca música da melhor qualidade.São pouquíssimos comerciais,não existem os conhecidos (des) animadores. A sobriedade e o bom gosto imperam nas 24 horas de programação.

Acaba de tocar "Do fundo do meu coração" com Erasmo Carlos. Entra agora ,triunfal a orquestra de "Franck Pourcel" com o tema do filme "Paris está em chamas". É pouco?...Sinto-me em estado de graça e aproveito para pesquisar os ânimos e os gostos de alguns tantos com quem deparo.Ao rapaz do açouge,aparentemente bem humorado,comento:

_Belíssima música!...Não achas? Depois do ensaio de uma espécie de suspiro,um olhar na balança,me vem a resposta:

_Éh!..."Tem quem goste".

Percebendo não ter agradado, mas sem perder o estímulo, tento uma nova investida.Agora com uma cliente que está na fila e a quem conheço muito bem.

_Esta rádio só toca música de qualidade,não é mesmo? Com a maior cara de desinterêsse ela pergunta-me:

_Que rádio é esta?

Percebo que o terreno é fértil e o assunto poderá render-me um bom papo.respondo-lhe:

_É a FM (tal).O dia todo é assim.Fantástica!...Comento empolgado.

_E você aguenta essa "dormideira" o tempo todo?

Sem saber o que lhe responder,ou melhor,sabendo perfeitamente,mas bloqueado pela educação que trava-me o ímpeto de uma resposta à altura, devolvo-lhe um sorrizinho "amarelo-marcela" e sigo adiante.

Agora no caixa,a música quase terminando,questiono a funcionária:

_Bela música,não?..

Esta,rasgando a bobina da registradora,responde-me:

_"Fazer o quê?"...O patrão decide,escolhe,a gente ouve,né!...

Basta!...Retiro-me.

Acabou o romantismo,ou seremos Marcos e eu os únicos sobreviventes de uma espécie em extinsão?...Penso com meus botões.

Meio sem graça, retorno com minhas sacolas... Piazolla arrasta-se ainda pelos ares. Ponho as compras sobre a mesa e ao conferir percebo estar faltando uma grande parte do que me fora pedido. Deveria ter levado a lista...Broncas virão pela frente!...

Creio que estou envelhecendo, penso comigo...Olho-me no espelho e do outro lado um sujeito grisalho,com um arzinho cínico e sarcástico me diz:

Envelhecendo?...Imagina!...

Você é um velho!...Assuma.