MARIELLE FRANCO

QUEM MANDOU MATAR MARIELLE FRANCO?

Nelson Marzullo Tangerini

Na manhã da última sexta-feira, 16.9.2022, depois de resolver problemas pessoais, em Madureira, subúrbio do Rio, resolvi dar um giro no Shopping do bairro, onde fiz um lanche ligeiro. Como de costume, acabei numa banca onde livros são vendidos a preços populares.

Ali, depois de farejar alguns livros que poderiam ser interessantes, encontrei a biografia “Mataram Marielle –como o assassinato de Marielle e Anderson Gomes escancarou o submundo do crime carioca”, de Chico Otavio e Vera Araújo, da Editora Intrínseca. O referido livro, que custou apenas 11 Reais, tem fotos de Marielle, de seus familiares, de seus amigos e de seus inimigos – suspeitos prováveis de assassinarem ou de mandarem assassinar a vereadora e seu motorista Anderson Gomes.

Já ouvi - e todos já ouviram - inúmeras barbaridades a respeito da moça: maldades, como discursos homofóbicos, que são difíceis de ficar fora desta crônica. Enfim, um festival de raivosos fakenews vindos do Gabinete do Ódio.

Quando Verônica e eu morávamos em Irajá, por exemplo, cheguei a bater boca com um vizinho bolsonarista que se declarou cristão e disse que não tinha pena da vereadora “que encontrou aquilo que procurava”, pois, segundo ele, “era lésbica” e “amiga de traficantes”.

Outro imbecil do bairro declarou que “se ela foi assassinada, foi porque havia feito alguma errada”

Poderia perguntar a essas pessoas – do bem - se está correto os milicianos se enriquecerem impune e ilicitamente e decidirem a sorte de quem os incomoda em suas trajetórias pelo caminho da corrupção fácil com a conivência de quem se apresenta como um defensor da ordem pública. Não o fiz por ter sido interpelado de forma deselegante, grosseira, agressiva – com xingamentos e palavras de baixo calão - e beirando a violência física.

Mas a pérola do dia é indescritível. A um amigo que encontrei na rua, mostrei-lhe a biografia de Marielle comprada no shopping, e este me disse acreditar que o livro devia ser interessante. O cidadão, que estava a seu lado, evangélico, me pediu para ver o livro que carregava nas mãos. Ao ver que se tratava de uma biografia, saiu com essa: “- Quem mandou matar Marielle foi o Freixo!”. Não me contive e ri. E lhe disse: “- Quem mandou matar Marielle talvez tenha sido um evangélico”. E ele, irado, prosseguiu: “- Por que um evangélico, um cidadão do bem, seguidor de Jesus, iria mandar matar Marielle?” Respondi-lhe que era possível, sim, porque muitos evangélicos se juntaram a milicianos para apoiar o presidente e o governador. O primeiro cidadão riu e saiu de fininho. Eu também saí, satisfeito com a chacota, embora saiba que muitos evangélicos - inclusive, amigos meus - acreditem que o presidente, empedernido de ódio e defensor da corrida armamentista, não seja cristão e não haja como tal. Tampouco acham que é um Messias ou mito. No máximo, mais um falso profeta.

O assassinato de Mariele Franco e Anderson chocou o Brasil e o mundo. E de tal forma, que muitos poetas dedicaram poemas memoráveis à vereadora, como foi o caso da poeta Verônica Marzullo de Brito, que escreveu o belo poema, uma redondilha maior, que publicamos abaixo:

“QUE TE MATEM NO ESTÁCIO!

Marielle, Marielle...

De qual favela tu vens?

Qual é a cor da tua pele?

Não contes com parabéns.

...

Deixa de ser enxerida!

Não demonstres teu querer!

Não é nossa essa ferida.

Sossega o facho, mulher!

...

Queres chamar a atenção

aos problemas sociais?

Se prossegues, vais ao chão!

Veja: Não somos iguais!

...

Marielle, Marielle...

Não toques no meu vespeiro!

Tua luta me compele;

desperta, em mim, o açougueiro.

...

Não me ouves? Não te calas?

Prepara teu epitáfio!

Morrerás ao som de balas:

Que alguém te mate no Estácio”.

O racismo e a homofobia estão fora de controle. Ninguém podia imaginar que coubesse tanta gente no armário. Esses seres desprezíveis amedrontam aqueles acreditam na vida, impendentes de posições e definições. Estamos cansados de tanta impunidade. E de perguntar, todos os dias: “Quem matou e quem mandou matar Marielle Franco e Anderson Gomes, assassinados covardemente no “Estácio, holly Estácio”?

Nelson Marzullo Tangerini
Enviado por Nelson Marzullo Tangerini em 17/09/2022
Código do texto: T7607820
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