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" O jogador de Futebol "

Pobre Naná!
Passei outro dia frente à sua casa. Meu coração retalhou!
Incandesceu a minha piedade, e o raio da razão me induziu a observa-lo com o olhar límpido, absoluto!
Lágrimas induziram meus olhos ao epicentro de comiserada dor!

Aos quarenta anos, ja aparenta bem mais.
Olhos, visceras, pele, nervos e sangue, em petição de miséria!
A idade biológica atravessou a cronológica e fez estragos!
Pelos meus cálculos, está com noventa e sete anos, sete meses e sete dias, que segundo a numerologia praticada pelos Ciganos das Astúrias, o ciclo se completa.
O individuo se torna indiferente aos dissabores e aos sabores.
Está: Para os familiares ajustarem seus pecados!

O sal grosso, a picanha, começam a demolição!
" Com os dentes cavam a propria sepultura " gritava o filósofo Seixanandra, na Capixabópolis! Não ouviu!
O salmoura começa a vazar por entre os dedos: O boi se vinga!
Felizmente começa a vazar e desinchar a perna direita, que demolia os adversários e fazia a festa das arquibancadas.

Às vezes seu célebro consegue relampejar: Teve todas as oportunidades para estudar. Colégio na porta, de boa qualidade. Poderia ter feito cursos. Seus amigos não fizeram, e hoje conseguem viver bem, alguns até endinheirados?
Porque ele apostou todos os sonhos no campo de futebol?

Ou poderia estar trabalhando na fabrica de chocolate, ou como fiscal de prefeitura (só tinha ladrão naquela época, poderia ter feito seu pé de meia), mas sua paixão pelo futebol era devastadora, e a sua única referencia de homem bem sucedido, a única afirmativa nacional, estava com a bola nos pés, ouvindo os uivos das arquibancadas, e a santificação pela massa pensante brasileira: Os comentaristas esportivos!

Não casou com a filha do Santurini, nem com a ruiva semynova, mas casou!

Seu sonho era a camisa l0 do flamengo, ou do nakamura overbunko, depois a gloriosa amarelinha.
Queria ser rei, nem que fosse um rei de araque, com coroa de purpurina!

O destino estava traçado, a sorte tinha sido lançada. O futebol e a glória!

Botou fora a casa para ir embora para o Cipango (Japão ), e entregou a familia para o pai tomar conta!
Queria o nakagima, ou o Hoitakawa Scheranova!
Esteve lá alguns anos, sempre atrás da pelota. Quando voltou, a sua vida era uma micharia!

Tempos atrás, os amigos que tinham escolhido uma vida  mais real, produtiva, sem os lampejos da gloria ilusoria, passavam por lá para rir um pouco, e falar dos benefícios intelectuais do futebol, e sua força espiritual e alavanca moral que sempre alavancou o Brasil (para trás). Risos a parte, o folclore, um pagode e ninguem se preocupou em arranjar um emprego para o Naná.

Pobre Nascimento Benedito de jesus!

O sangue adoçou, a vista embaralha, o joelho borbulha, a esperança definha, a amizade goteja... manhosa...indiferente!

Tem que continuar driblando: O bicho de pé, a topada no prego enferrujado, a frêpa da madeira!
Qualquer descuido e a perna sobe primeiro, aliás, desce primeiro, ja que uma perna só não tem alma. Perna não pensa!

Mesmo com o café margoso e o cigarro de palha, pai joão não quer baixar!
Roda a gira Naná, firma o ponto Naná!

Estão pensando em levá-lo a uma igreja para se render ao Senhor:
Cadê o dízimo Naná? E a oferta Naná?

Ò Naná! Naná! Naná! - Ai de tí Naná!
Quem te protegerá dos dribles da Vida;
Das bolhas de ilusão multicoloridas;
Nos mergulhos constantes da imaginação,
Fugindo do agiota Janjão?

Voce foi vítima da discriminação existencial,
Ou mais uma vitoria da perversidade ambiental?


                 " Da sabedoria dos Romanos antigos,
                   me vem à memória:
        " Nem a relva macia, acaricia os passos do imprudente "


Jose Balbino de Oliveira
Enviado por Jose Balbino de Oliveira em 02/12/2007
Reeditado em 11/12/2007
Código do texto: T761555

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Sobre o autor
Jose Balbino de Oliveira
Vitória - Espírito Santo - Brasil
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