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" MOSAICO"

 É cedo. . . muito antes do sol nascer Vicente já está em pé. Arrasta-se lentamente sobre o chão de cimento batido até chegar à pequena pia de ághata amarelada, outrora branca.
Abre a torneira que range com a pressão de sua mão e rende-se num fio de água gelada que escorre por entre os dedos calejados.
Aperta o tubo de creme dental, que para ele é " pasta de dente", pois é homem simples, sem muita frescura como ele mesmo diz.Olha-se no espelho e escova os poucos dentes que lhe restam, depois enxuga o rosto de aparência cansada.
Coloca a camisa um tanto surrada que já demonstra uma certa transparência nos ombros e caminha com a mulher em direção a porta.
Quando ele sai, ela o acompanha com os olhos como se estivesse lhe dando forças para assumir mais esse dia.
E ele vai. . .  anda devagar e na esquina pára e olha para a mulher que acena timidamente. no ponto de ônibus vários madrugadores também aguardam a condução que já aponta no final da rua.
senta-se ao lado da janela e observa os demais passageiros, gente simples trabalhadora. Duas senhoras com filhos nos braços, alguns idosos nos bancos da frente, estudantes e operários.
A maioria nunca trocou uma palavra, mas a rotina faz com que se conheçam. ..  tão intimos e tão estranhos ao mesmo tempo.
O coletivo começa a deixar a periferia. Casas sem reboco e ruas estreitas vão cedendo lugar à avenidas movimentadas que ligam os bairros ao centro da cidade, mesmo tão cedo já se ouve o barulho típico da metrópole que desperta ou talves nem durma.
O sol avisa que não virá esta manhã, uma chuva fina e preguiçosa completa o quadro de uma verdadeira manhã paulistana. Crianças a caminho do colégio, pessoas amontoadas nos abrigos improvisados
para se proteger da chuva, catadores de papel com seus carrinhos compartilham as calçadas já com algumas poças d`água.
Do outro se pode ver o trem que parece disputar uma corrida contra os demais veículos. Vai lotado de gente que se aperta nos vagões pixados de cores variadas.
Após quase dus horas de percurso, Vicente desembarca na praça da Sé, centro da cidade. O cinza predomina e parece ter aumentado diante do céu carregado.Prédios, catedral, monumentos, vidas! tudo parece ter uma só cor.
Pessoas de um lado para outro, passos largos apressadas. todas parecem ter rumo certo, algumas afundam chão a dentro com destino ao metrô e outras são engolidas pelos prédios enormes para mais um dia de trabalho.
Vicente tem a impressão que só ele não tem destino certo. Compra o jornal e fica com a única parte que lhe interessa.
faz um roteiro e percorre a cidade caminhando, pois tempo é o que não lhe falta. A cidade parece um micro universo de gentes e contrastes.
O moderno muitas vezes frente a frente com o antigo, as várias faces da mesma cidade, impossível distinguir quem nasceu aqui ou quem veio para realizar sonhos.
Esse contraste as vezes o faz parar e observar melhor a paisagem fria, cinzenta, que a cada quarteirão faz descobrir algo novo.
O caos implantado de forma organizada, as ruas parecem ser artérias de um organismo vivo e a cidade flui cheia de vida.
máquinas e pessoas movimentando-se num rítmo frenético numa confusão digna de Babel, out doors que simulam a floresta e o mar tão distante dão um consolo aos motorista que ficam presos nos congestionamentos tão comuns quanto os pombos que pousam nos postes  de metal negro.
Mas as pessoas não se olham nos olhos, não se comovem. São indiferentes a tudo o que não lhes interessa. São tão geladas quanto aquela manhã de maio.
Mas algo nesse turbilhão de cores pesadas ainda cativa Vicente. O movimento dos carros, os prédios imponentes, a vida que flui a cada sinal verde o deixa fascinado e um sentimento de impotência de saber que é apenas mais um pedacinho daquele universo chamado São Paulo.
E assim o dia passa. Já está escurecendo e a multidão de gente agora
segue em destino contrário como se fosse uma maré alta voltando para o mar.
sentado no ônibus, Vicente encosta a cabeça no vidro da janela e usa a folha de jornal como travesseiro. Mais uma vez procurou a chance que não lhe foi concedida.
As luzes da cidade acendem pois já é noite em São Paulo, os faróis acessosembelezam as marginais onde todos só querem chegar em casa após mais um dia.
Vicente acomoda-se melhor no banco de fibra, o pensamento longe, os olhos molhados refletindo o brilho da cidade.
Não sabe o que é pior. . . a saída de casa pela manhã ou a chegada de noite sem algo novo pra contar.
beto poeta
Enviado por beto poeta em 04/12/2007
Código do texto: T764363

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Sobre o autor
beto poeta
Guarujá - São Paulo - Brasil, 48 anos
49 textos (4036 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 15/12/17 02:54)
beto poeta