É... Lá vem ele! Na verdade, vamos nós, ao encontro dele. De longe parece um bom partido. Bem vestido, animado e cheio de esperança.

Confesso que não sou fã número 1 dessa felicidade urgente que mora entre o dezembro e o janeiro. 

É tanta celebração, solidariedade, amizade e cumplicidade. Tanto amor embutido em presentes e, por vezes, recheado de presença. Mas, morre na primeira quinzena de janeiro, quando voltando à rotina, nos esquivamos do saguão de entrada do prédio, apenas para não prestar contas ao porteiro, sobre nossas festas e alegrias; 

morre na ausência de compaixão com aqueles que fazem de suas casas, os viadutos, as pontes, as favelas, e as mansões solitárias; 

morre quando ignoramos a palavra trêmula de nossos ascendentes porque os males da idade os tomam e nos esquecemos que o tempo que nos leva até lá é bem curto e certo (se não tropeçar na morte no intervalo); 

morre na ausência institucionalizada pelo capitalismo que tira os pais de casa e da casa e transferem a responsabilidade para a escola de educá-los e não de ofertar conhecimento, trabalhar as emoções; 

morre na pressão mental, na cobrança pessoal e no feito às pressas, sem o cuidado e a atenção devidos, sob a égide da distração que hoje sufoca, asfixia, tira a vida em carros, ônibus e trens; 

morre nos abraços sem perdão, no perdão sem amor e no amor mundano, com casca, sem sabor;

morre no preconceito disfarçado de dogmas que faz dá cor, da preferência sexual, do credo e da vida um crime cujo castigo é a sentença de morte ou de exclusão;

morre nas regalias dos políticos e na ausência de pena para conter a corrupção;

morre quando a vida é apenas um impecilho exterminado pela violência e pela busca incessante do Ter.

 

Preferiria que os nossos dezembros fossem cheios de conflitos, mas que os outros meses (onze talvez), ah estes, fossem dezembros... Sem fim! Sinceramente, seria um bom começo... De ano!

Mônica Cordeiro
Enviado por Mônica Cordeiro em 30/12/2022
Código do texto: T7683420
Classificação de conteúdo: seguro
Copyright © 2022. Todos os direitos reservados.
Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do autor.