Homens de (muita) fé

 

Uma fé imensa na arte que produziam, eis o que possuíam em comum o pintor holandês Vincent Van Gogh (1853 - 1890, o primeiro acima, em um de seus autorretratos) e o poeta português Fernando Pessoa (1888 - 1935, acima, pintado por Daniel Lannes), além dos espíritos ensimesmados. O primeiro vendeu apenas um quadro em vida e o segundo publicou apenas um livro em português, contudo ambos se tornaram artistas emblemáticos de seu tempo e imortalizados por suas criações na pintura e na literatura.

 

Dois gênios incompreendidos: Van Gogh - exceto pelo irmão Theo - foi totalmente ignorado; já Pessoa era, pelo menos, reconhecido por seus pares, mesmo desconhecido pelo grande público que, quando de sua morte aos 47 anos, em 1935, ignorava completamente ter partilhado seu tempo com o maior poeta luso e da literatura em língua portuguesa do século XX. O mesmo ocorreu com Van Gogh, que ao morrer não tinha o mínimo reconhecimento de público e de crítica acerca da genialidade e originalidade de sua pintura, que faria escola, influenciaria outros artistas e seria apreciada pelos séculos seguintes.

 

Todavia, foram resilientes enquanto criadores: o holandês aprimorando, à custa da saúde física, dos nervos e da sanidade, as visões originais que brotavam do seu pincel e paleta de cores; o português cultivando seus heterônimos, cada um uma persona literária diferente dos outros e todos distintos do criador. Os quadros de um amontoados nos depósitos, os papeis do segundo trancados num baú em sua casa. A posteridade lhes reconheceu o talento, divulgou e apreciou seus trabalhos e agradecemos até hoje pela fé, convicção e persistência que tiveram.

 

Se você está criando algo com convicção em qualquer área, mas não obtém o reconhecimento desejado e que julga merecido, lembre-se de Van Gogh e de Fernando Pessoa, que eram gênios e não obtiveram reconhecimento em vida. No período em que viveram, outros artistas fizeram grande sucesso e venderam muitos quadros e livros, entretanto hoje jazem no completo desconhecimento e tu nunca ouviu ou leu sobre eles. Eram populares, mas não originais, inovadores ou revolucionários. Não esqueça destes também - investigue e descubra-os, vais te impressionar -, se estás se achando "O" cara no momento, rodeado de uma porção de gente te bajulando e puxando o teu saco.

 

Uma das verdades da vida é que o que está muito além do seu tempo geralmente não é compreendido, mas sim ignorado: a mestria da concepção do gênio não é de fácil entendimento, ao contrário, a inovação que propõe causa estranhamento e preconceito.

 

PS - Esse não deixa de ser, também, o caso de Emily Brontë, artista anterior a Van Gogh e Pessoa. Viveu no interior rural da Inglaterra e publicou, em 1847, O Morro dos Ventos Uivantes, seu primeiro e único livro, cujo enorme sucesso não viu, eis que morreu tuberculosa aos 30 anos. Emily também possuía fé na sua literatura e a produziu sob condições adversas e pouco prováveis, mas, assim mesmo, talentosa, fez da adversidade seu maior trunfo, retratando-o em seu icônico romance. Hoje o debateremos no Clube do Livro de Charqueadas (divulgação abaixo).