Papo furado com madame Fulô

Num dia desses de verão, em meio as férias, observávamos aquela gente toda se esbaldando na praia, o agito típico, os caras e as caras do picolé, do milho, do queijo coalho assado, das bugigangas todas e mais um pouco. Eu papeava com Fulô, lado a lado recostados, tomando o tal banho de sol, na areia morna sentíamos a brisa que vinha do mar, no céu as nuvens de algodão flutuando e ancorada na linha do horizonte a ilha do Mar Virado. Como parceiro na resenha que traçávamos, o livro “as 100 melhores crônicas brasileiras”, reunidas no livro de Joaquim Ferreira dos Santos. Tínhamos a companhia de Machado de Assis, João do Rio, Rachel de Queiroz, Paulo Mendes Campos, Millôr Fernandes, dentre tantos outros escritores.

 

Entre a leitura de uma crônica ou outra, gastávamos o tempo fazendo fotossíntese, observando a paisagem e as pessoas. É incrível como nesses momentos de descompromisso as ideias fluem soltas e resvala em filosofia poética que emana de cabeças despreocupadas.

 

A resenha corria sem pressa ou destino:

 

- Pois é Fulô, devo concordar, a vida é interminável sob a perspectiva de que somos espíritos em essência.

 

- Eu gosto de ver os corpos, gosto de apreciar as marchas, o modo de caminhar diz muito sobre cada um.

 

- Sim... olha só essa crônica aqui, acho que vou machadiar um pouco nas minhas próximas escritas, se bem que eu escrevo por psicografia!

 

- Qual é agora, é mais uma do Machado de Assis?

 

- Agora não, João do Rio conta sobre um mendigo original, vamos à leitura.

 

- Realmente, quanta originalidade, tem muita gente no mundo que de uma hora pra outra larga tudo e muda radicalmente a forma de viver.

 

- Olha essa queridíssima, é bem interessante, Millôr escreveu sobre ficar velho!

 

- Muito boa mesmo essa aí rsrsrs ... “ser gagá”, vou mandar para o Sebastião ler.

 

- Há sim, pois faça isso. Olha que enigmática a linha que marca o encontro do céu com o mar, dá a impressão de infinitude...!

 

- Uma belezura...e olha que corpo perfeito aquela menina tem, um violão perfeito.

 

- Vê-se que as mulheres são mais vaidosas, mas dentre os homens o formato maçã predomina na cena.

 

- É, mas eu prefiro olhar o que é belo...

 

Deixemos que o diálogo siga ancorado no pretérito e por este parágrafo dou sequência nessa pretensa crônica que hora labuto. De certa forma, para dar continuidade, penso que devemos considerar e oferecer atenção a um órgão que tem vida muito própria, o coração. Sem grandes pretensões pois quem entende disso são nossos caros médicos cardiologistas, cartomantes e por vezes os poetas.

 

Mas, nessas linhas há o que se considerar cardiologicamente falando. Pois do cérebro estou requisitando pouco para escrever. Se é o coração que acusa as emoções então vamos lá, o meu por este momento transita entre treme-terra de bateria de escola de samba, e bandolim. O tum tum potente cadenciando o ritmo da batucada e o som choroso e calmo das delicadas cordas duplas a requisitar calmaria. Oras, quem nunca, motivado por emoção especial, jamais sentiu o coração tentando escapar pela boca após escalar a goela? Esse negócio de escrever com emoção não provem dos neurônios.

 

Sigamos, deixemos em segundo plano, por momento, esse guerreiro habitante do peito e tantas elucubrações desnecessárias. E por decisão, deixo Fulô anônima e sei que isso, tende a instigar a curiosidade do caro leitor (o que dia o velho Machado!?). Bom, por honestidade, aconselho que não se tente decifrar o papo furado presente nos diálogos postos, porque racionalizar “despretenciosismos” não é boa medida e é por demais desnecessário.

 

Vamos lá, miro por agora mais uma dessas cenas muito corriqueiras no verão. Gente na praia, ocupando a faixa de areia com seus corpos estendidos em espreguiçadeiras, dessas que deitam e mesmo chegam a resvalar o chão. Outro tanto de gente segue nesse verdadeiro paradigma com seus corpos jogados sobre cangas decoradas, perfeitamente instaladas sobre a areia onde a maré não alcança. Desse cenário típico, enquanto líamos as crônicas, eu e Fulô esbaldávamos em considerações.

 

A cena composta por mar, sol, céu azul e corpos cheios de bronze tem perfeito viés poético. Especialmente, referente a um movimento típico que aflora de forma insistente, a figura recorrente de belas moças a requisitarem do binômio sol/melanina o bronzeamento na medida para os seus belos corpos. Quanta elegância emana dessas meninas, moças, mulheres, todas decididamente donas de seus corpos e almas.

 

Por muito tempo tenho reparado num gesto típico e que é marca registrada no ambiente descrito acima. Invariavelmente, nessas belas praias com o sol a pino de verão, lá está ela. A beldade típica, trajes mínimos, preguiçosamente instalada na paisagem, mar azul, céu azul, sol no teto e aquelas aves planando, leves, fluídas e despropositadas. Sem querer ser científico e metódico, pois não se trata de estudos sociólogos, comportamentais ou antropológicos. Sigo por aqui imbuído apenas de observação curiosa de quem não tem lá muito o que fazer, e sim, apenas apreciar a paisagem.

 

Pois do que se trata então esse tanto de proselitismo? O que advém dessas olhanças à beira mar para além da beleza intrínseca da paisagem, o que se vê além de tudo? Pois sim, as belas moças com seus corpos em estado de preguiça. Imbuídas de um gestual típico, elas, de vez em quando, se erguem do sono letárgico, conferem a posição do biquíni e em passos delicados vão ao mar molhar seus umbigos belamente instalados no abdome. Salteiam a marola, sorriem, embebedam seus corpos com mar, jogam para trás a cabeleira e retornam tal como modelo em passarela ao ponto de origem na areia.

 

Seguíamos naquela prosa em banho solar e mergulhamos em uma pausa cognitiva, que belo mar, Fulô fez repetir aquele gesto que há pouco descrevi sobre as belas moças. Ergueu-se da espreguiçadeira sem pressa, bocejou, sorveu o horizonte com aqueles olhos contemplativos, percorreu com passos suaves o caminho pela areia morna até que pés na água, em minutos a espuma da marola lhe cobriu o belo ventre.

 

Não tardou lá estava ela em comunhão com o mar e certamente com o universo todo. flutuava sobre a água salobra como se estivesse numa bolha de algodão. Em tempos de extremos talvez o bom seja realmente pensar com o miocárdio, átrios e ventrículos ditando o ritmo. O homem no mundo anda muito acelerado e a história dá mostras de que o epilogo se aproxima.

 

Naquele lapso de tempo, durante o caminhar de Fulô, meu peito ganhou status de escola de samba, com passistas, ritimistas, ala das baianas e tudo o mais. E por que? Porque, mais que nunca, sobretudo em momentos ímpares, é assim que é quando quem manda no corpo e mente é o coração.