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A loura e a cadelinha branca


O sino da igreja acaba de chamar para a missa das sete da noite. Há padre novo no pedaço, os paroquianos comparecem em grande número para dar as boas-vindas a frei Alex, que, segundo os fiéis mais abelhudos, vem de muito longe. É só chegar, peregrino.

A dois passos dali, neste cenário de acolhedora cidade interiorana, vai acontecer uma dessas coisas que contando ninguém acredita. Mas meu ofício é contar, não tem jeito.

Bonitas, bem-vestidas e perfumadas, as duas mulheres conversam com animação no mesmo banco da praça em que Pituta e o cronista falamos cristãmente da vida alheia. Freqüentador mais assíduo deste ponto privilegiado de Marechal Hermes, no final do Boulevard dos Tamarindos, o ex-taxista olha na direção das beldades e comenta comigo em voz baixa:

"Moram em Bangu. Estão esperando dois pilantras que trabalham no hospital."

(Não me falou bem assim. Pituta, agora nos seus sessenta e oito de idade, sofreu um derrame há uns dez anos e tem dificuldade em pronunciar certas palavras do seu discurso interior rigorosamente correto. Atento aos gestos e às curiosas paráfrases de que lança mão no intuito de ser entendido, desta vez adivinhei para ele — e o homem vibra de gratidão sempre que eu acerto na mosca, abrindo um sorriso franco e leal — trabalham, hospital e Bangu. Quando o bicho pega e não consigo atinar com este e aquele termo, como aconteceu com pilantras, ele manda às favas o que está contando e muda de assunto; o próprio médico aconselhou-o a não se desgastar com a expectativa ociosa dos outros. Tem uns idiotas por aqui que mesmo sabendo das seqüelas do derrame, que o deixou com esses problemas de articulação, tacham o nosso bom amigo de retardado mental.)

Mas lá estavam no maior papo as duas mulheres bonitas, bem-vestidas e perfumadas, indiferentes ao burburinho no adro da igreja e à estréia de frei Alex no púlpito, quando uma cadelinha branca sai em alvoroçada alegria do meio de uma turma de mendigos, que tomam pinga e jogam mexe-mexe sob a marquise do teatro, e vem postar-se na frente delas, balançando freneticamente o rabo, uma rabiola de nada.

Comovida, a mais loura (eram duas louras legítimas) logo estendeu os braços e apanhou-a por debaixo das patas dianteiras, trazendo-a para junto do seu próprio rosto como se fora sapecar-lhe uma bitoca no focinho. A cadelinha assustou-se, não entendeu nada. Tentou desesperadamente livrar-se dos dedos longos e sensuais da forasteira, debateu-se o quanto pôde, ganindo de aflição. Por fim, como último recurso, guardou a língua nervosa, arreganhou os dentes e deu uma mordida feia no nariz da outra. A mulher deu um grito de dor, e o pequeno animal viu-se subitamente solto no ar, caiu, rolou um instante no chão de pedras desiguais e disparou para um canteiro próximo, de onde, olho febril, ficou de butuca em sua vítima.

O sangue jorrou. A pobre coitada abriu rapidamente a bolsa e pegou lenços de papel que entregou à amiga e que esta, com jeito de bamba em curativos, aplicou sobre o ferimento, pressionando com habilidade e leveza as duas asas daquilo que tinha sido, havia apenas dois minutos, um belo nariz de Cleópatra.

Estancado o sangue com cuspe e lenços de papel, a mulher mordida levantou-se e olhou para si mesma, examinando o colo dos peitos e a roupa que usava. Quase teve um troço.

"A desgraçada sujou o meu vestido novo. Ela me paga. Ela me paga!"

E saiu em disparada atrás da cadelinha, num ímpeto tão desatinado que a praça inteira parou a fim de acompanhar o espetáculo. Quando depois de muitas idas e vindas agarrou o pobre do animal, mordeu-o com vontade no alto da cabeça, arrancando aplausos e vaias dos curiosos. Apavorada, a cadelinha fugiu ganindo para os lados do Fred’s Burger, na rua Gravatá, enquanto a loura raivosa dava a volta pelos fundos do teatro para evitar uma cena com os mendigos. De qualquer modo, os dois pilantras do hospital mencionados por Pituta haviam chegado e trataram de sair de fininho com as namoradas pela rua do Tingüi.

Deram muita sorte. Mais um pouco, e não se livravam a tempo do porrete de chef Alfredo, que não brinca em serviço quando se trata de defender os seus cães sem dono. Quando lhe contei em detalhes o ocorrido, ergueu uma assustadora sobrancelha de indignação e disse apenas:

"Só espero que essa loura esteja vacinada."


[5.2.2008]

Luiz Guerra
Enviado por Luiz Guerra em 05/02/2008
Código do texto: T847149


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Sobre o autor
Luiz Guerra
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 72 anos
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