Santo de casa

Quem não tem sequer uma mania, que atire a primeira pedra. Imelda Marcos colecionou sapatos, Debora Secco cataloga namorados, Lula tem queda por charutos – o meu fraco são os santos. Tenho uma coleção considerável de imagens, que variam em tamanho, material e habilidade do artesão. Meu santo é forte, não tenho do que me queixar : sinto-me bem entre objetos que evocam o sagrado.

De vez em quando um santo dá baixa do exército guardião. No último sábado, no transporte de uma cama, a imagem de Nossa Senhora do Silêncio foi decapitada. Quase perdi a cabeça. “Devagar com o andor que a santa é de barro”, deveria ter alertado os carregadores, em antecipação à máxima gravitacional “pra baixo todo santo ajuda”. Só não chorei ao coletar os cacos da imagem, presente de uma grande amiga, porque duvidariam da minha sanidade mental.

Nem louca, nem santa: um pouco supersticiosa, admito. Na bolsa, a miniatura em chumbo da imagem de Santo Onofre me protege contra a falta de dinheiro – pena que ela não me lembre de passar no caixa eletrônico para sacar em espécie. Divide espaço com Santo Onofre um terço de pétalas de rosas abençoado por João Paulo II e uma prece de Santo Expedito, o santo militar das causas impossíveis. Conta-se que uma gráfica especializada em santinhos rumava à falência quando seu dono teve uma santa idéia: imprimir cópias da oração de Santo Expedito e deixá-las em igrejas, com a recomendação de se imprimir novo milheiro de cópias a cada graça alcançada, advertindo que o santo da última hora requer presteza no que lhe é prometido (?!). Os negócios prosperaram, a gráfica é hoje uma bem sucedida editora. Quem disse que santo de casa não faz milagres?

Só abandonarei o hábito gregário no dia de São Nuncas: daria trabalho recolher todos os objetos sacros. No criado mudo ao lado da cama descansam a Bíblia, um crucifixo de prata mexicana e a imagem impressa de Maria, adquirida num camelô. No carro, reúno terço franciscano, oração de São Cristóvão e adesivo de Maria. Prudência nunca é exagero: patrão fora, dia santo na loja. Para falar a grandes grupos, traz-me confiança sentir o Tau pendurado no pescoço. Certa vez, a caminho de um hotel fazenda onde conduziria seminário para uma rede de franquias, não hesitei em voltar quase trinta quilômetros sob chuva forte só para resgatar o tal Tau deixado em casa. Se São Francisco julgava excesso de intimidade eu levar seu símbolo mais sagrado no colo, nesse dia ele deve ter se convencido da devoção.

Pelo santo se beija o altar: o costume atingiu outros membros da família. Sabemos a quantas anda a vida sentimental da minha filha mais velha só de observar o seu termômetro amoroso. Nos dias de sol do namoro, a imagem de Santo Antônio repousa incólume no oratório. Em tempo nublado, a imagem fica de castigo, virada para a parede. Já encontrei o santo no banheiro, entre a pia e a louça sanitária: devia ser tempestade brava! Há mulheres ainda mais cruéis ( ou desesperadas) que dependuram o santo de cabeça para baixo, afogam-no na banheira... Indago a mim mesma por que ele ainda se dispõe a encontrar marido para moças que impingem tamanho calvário ao pobrezinho... Deve ser por vingança!

Zelo pelas minhas imagens, não desvisto um santo para vestir outro, mas não exagero no desvelo : quando a esmola é muita, o santo desconfia.

Santa tietagem explícita, Batman! diria o garoto prodígio de Gotham City.

Ledo engano: é que o santo faz o milagre, mas o milagre não faz o santo.

Maria Paula Alvim
Enviado por Maria Paula Alvim em 19/02/2008
Reeditado em 27/06/2008
Código do texto: T866680
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