Falta de objetivo, um problema?

Frequentemente passo algumas horas do dia conversando com meu irmão, pessoa de pensamentos elaborados que não se contenta com a mesmice, e ontem não foi diferente. Conversamos sobre vários assuntos, todos influenciados por uma passagem de um livro que pedi que lesse. A certa altura da conversa, que rumava pelo âmbito dos relacionamentos ele me disse algo assim: “falei com minha namorada uma coisa, que ela não gostou muito, mas teve que concordar. Passamos muito tempo no telefone e por essa necessidade de ficarmos falando, mesmo sem assunto definido, acabamos achando alguma coisa que sempre termina em uma discussão (aqui no sentido de briga da coisa).” O que teve a ver com uma pergunta fundamental que ele me fez no começo da conversa: “você acha que é bom ter foco nas coisas que se faz?”

Aquilo ficou remoendo dentro da minha mente e quase doze horas depois, lendo o resto do livro que lhe dei um trecho para ler, caiu-me uma idéia analógica ao que ele disse. Ao passar muito tempo sem foco, ou sem ter realmente o que fazer, acabamos encontrando coisas desnecessárias, com as quais acabamos brigando, ou entrando em conflito.

Nada mais perto da nossa vida, de nosso tempo.

Explico-me.

Como lido no livro, recente, de Zygmunt Bauman, Medo Líquido: "Todas as culturas humanas podem ser decodificadas como mecanismos engenhosos calculados para tornar suportável a vida com consciência da morte.” O que pode ser visto, engenhosamente, pelo prisma da analogia citada acima. Todos nascemos, e por isso devemos viver, ou sobreviver, e nossas vidas se resumem a passar o tempo que temos aqui nessa existência. Aqui não cabe discutir se há outras existências ou se essa se perpetua, mas que o tempo que temos aqui.

Vivemos nossas vidas do jeito que dá. Isso é certo. Cada um vive do jeito que pode com as ferramentas que tem. Infelizmente em nossos tempos da imagem, do espetáculo e da superficialidade, os valores se esvaem, a crítica dos valores antigos é enorme e nenhuma solução é dada. Novamente parafraseando meu irmão: “você critica isso, ou aquilo, para eu aceitar a sua crítica lhe faço uma pergunta, então o que deve ser feito?”

As pessoas passam tempo demais sem ter o que fazer, efetivamente, internamente. Elas fazem o que tem que fazer para viver, ou sobreviver, mas mais nada além disso. Se você salientar que a parte de “diversão” se inclui necessariamente nas coisas que você faz para conseguir viver, ou sobreviver. Logicamente muito mais viver, já que sobreviver é um estado em que somente as coisas mais básicas e elementares é necessário.

Mas efetivamente as pessoas não têm esse foco primordial, que vejo como o único necessário e possível para a vida, se desenvolver. Se desenvolver como pessoa, como ser humano, como cidadão, como criador de valores e perpetuador desses. Pelo apresentado as pessoas passam tempo demais fazendo coisas que são impostas e por isso mesmo terminam por arranjarem motivo para brigarem, se estressarem, discutirem, enfim, o tempo imposto fazendo coisas não desejadas realmente, termina por ser nocivo à vida.

Essa falta de sentido em si para a própria vida é algo que aflora em todos os âmbitos da vida das pessoas. Esse projeto além das coisas parece não existir e se uma pessoa estuda para se formar, ter um emprego, ganhar dinheiro e ter uma vida confortável isso não diz nada além de que essa pessoa faz o necessário, básico, para conseguir viver ou sobreviver. Cada vez mais o ócio aparece como vilão da vida, em que se deve melhorar em todos os quesitos como se profissionalizasse em todos os âmbitos da própria vida. Mas se esquecemos que trabalhamos, melhoramos profissionalmente e tentamos ganhar dinheiro para viver. E é exatamente dessa vida que passamos a vida toda fugindo.

A vida não é mais que para ser vivida, e se trabalhamos e ganhamos dinheiro para viver, é um contrasenso que deixemos de viver para trabalhar, ou melhorar no trabalho. Logicamente que existe aquele pensamento em que o cidadão escolhe o trabalho como forma engrandecedora da vida, como objetivo para melhorar profissionalmente e também como pessoa, mas não creio que é o normal.

As pessoas passam tempo demais fazendo algo que são obrigadas as fazer, e por isso mesmo arranjam sarna para se coçar. Se estressam com isso ou aquilo, ficam nervosas e tensas com essa ou aquela situação, não conseguem relaxar, descontrair, ou o principal, não conseguem se achar no meio do turbilhão para crescerem e conquistarem seus objetivos. Pois, pelo bom senso, se o objetivo de vida de alguém é trabalhar e ter dinheiro, não é muito difícil que essa pessoa conquiste esse objetivo, esclarecendo para si mesma a falta de substância que há nessa escolha, pois carece do lado humano.

Decorre daí que além de trabalhar e ganhar dinheiro a maioria das pessoas constitui família, mas de novo vejo poucas pessoas que se planejam, pensam sobre isso e escolhem realmente constituir família como um objetivo de vida. Como a família fosse apenas uma obrigação natural da vida e acabasse se vendo enrolada nesse meio. Lógico que uma família traz crescimento para uma pessoa, mas se vemos tantas pessoas se separando e buscando novos rumos para suas vidas, há de pensar que nenhuma delas pensou no que estaria fazendo, se planejou ou desejou realmente isso. A família como valor cai por água abaixo quando ela se insere nas obrigações, tais como trabalhar e ganhar dinheiro.

E se a última coisa que sobra é a diversão, nesses raros momentos de lazer que se possui, sem querer ser pessimista, essas diversões se inserem em âmbitos quase obrigatórios, quando vemos a maioria das pessoas se “divertindo” apenas em ocasiões que pedem essa diversão, como em feriados, festividades e datas especiais. Somo preparados para nos divertir nessas datas necessariamente, e a busca obrigatória da diversão põe por água abaixo o próprio conceito de diversão, que seria uma atividade descompromissada e gratuita.

Enfim, onde está nisso tudo o sentido? Se no inicio do texto falei da crítica que não teria sentido quando desprovida de um rumo conclusivo, deixo aqui o parecer que me figura como o principal motivo dessa falta de objetividade subjetiva na vida como um todo. As pessoas não tem objetivos próprios como seres humanos sozinhos. Não há uma preocupação consigo mesmo como pessoa pensante. Deixando como conselho, talvez para quem aceite minimamente o que digo por aqui, buscar objetivos próprios, como o auto conhecimento, o porque de fazer isso ou aquilo, ou até o sentido da vida que leva. Pois deixo um exemplo, no mínimo triste, que ocorreu com minha psicóloga e foi-me passado.

Estava ela subindo o elevador do prédio em que ministra suas consultas, e juntamente com ela no elevador estava uma senhora, bastante idosa, por volta dos 70 anos, e o papo que surgiu foi mais ou menos o seguinte:

- Nossa já são quase seis horas da tarde, o tempo passa a gente nem percebe – puxou a minha psicóloga que diz adorar começar conversas.

No que prontamente a velha respondeu de modo incisivo:

- É minha filha, o tempo passa a gente nem percebe, estou com setenta e dois anos e o tempo passou e eu nem percebi, quando fui dar por mim, já estava assim.

leandroDiniz
Enviado por leandroDiniz em 01/04/2008
Reeditado em 01/04/2008
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