UM DEDO DE PROSA


            De volta, às voltas com a prosa. Depois de uma imersão nunca antes ousada na poesia. Eis me em atraso com um grande amigo. Hoje é quarta. Quase uma semana. Uma semana faz que recebi o convite. Ando envolvida demais com a palavra. Ela não me deixa em paz. Que ela não me leve a sério demais, mas parece a visita que vem para passar um dia e resolve passar as férias inteiras conosco. Mas faz isso a seu modo, não ao meu. Pois mesmo estando aqui, comendo e bebendo a minha alma, não fornecia os bebezinhos para a crônica prometida. Só poesia. Hoje porém, dei-lhe um basta. Hoje é dia de prosa. Prosa importante. Fundamental. A respeito de um encontro, sexta-feira passada.

            Com uma naturalidade essencial, fui informada pelo Fiore (Carlos Alberto) de um encontro em Limeira, cidade onde ele reside. Haveria uma palestra para membros da Academia Limeirense de Letras a ser proferida por uma pessoa de Campinas, cidade onde vivo eu, atualmente. Ele ainda não sabia o nome do palestrante. Interessei-me porque já havia dito que gostaria de conhecê-lo (ao Carlos Alberto). Será que se eu não tivesse colocado a explicação entre parênteses, teria ficado claro? Ainda chamo essas palavras para uma conversa à parte...

            Tenho toda a família em São Paulo, bem como muitos amigos e interesses. Já houve um tempo em que ia até lá cerca de duas vezes por semana e costumo dizer que São Paulo é “ali”. São cerca de cem quilômetros de uma boa estrada, da qual conheço todos os detalhes, com uma bela paisagem, em completo isolamento, ouvindo boa música... Uma verdadeira terapia. Pode-se dizer a mesma coisa de Limeira. Houve um tempo em que eu ia até lá uma vez por mês, a trabalho. A distância é quase a mesma, mas indo para o interior. O fluxo de trânsito é um pouco menor, não conheço a estrada tão bem, mas mesmo assim, a conclusão é a mesma: Limeira é “ali”.

            Quando Fiore novamente fez contato, descobri que a palestrante seria a Arita (Damasceno Pettená), amiga de longa data e presidente do Clube dos Poetas de Campinas. Confirmei que iria. Apesar de estar às voltas com o acompanhamento de um familiar hospitalizado, ele também confirmou.

            Na sexta-feira, encontrei meu grupo no final de sua reunião na Academia Campinense de Letras. Iriam também, Rubem Costa, Agostinho Tavolaro e Duílio Batistone. Arita foi comigo e os senhores viajaram em outro carro, com motorista. Esse é um capítulo à parte nessa história. Seis da tarde, trânsito pesado e uma decisão de irmos juntos (eu atrás), fez com que me valesse de toda habilidade desenvolvida ao longo de muitos anos ao volante... Não sou o “ás” que aquele motorista pensou que fosse.
Ele alinhavava o trânsito no escuro, um prático alfaiate, com sua linha curta, enquanto eu....só ouvia gritinhos da Arita... Mas chegamos bem. Ilesos e felizes.

            Fomos recebidos à porta por João Augusto Cardoso, presidente da Academia Limeirense de Letras e por Fiore, tão simpático quanto eu esperava que fosse, com um belo sorriso, apesar do dia difícil que tivera, pois ocorrera um falecimento na família.

            Quando manifestei a vontade de tirar fotos do belo casarão onde funciona a Secretaria de Cultura, prontamente indicou-me o melhor ângulo e me acompanhou até o outro lado da rua. Mas não foi apenas isso o que ocorreu. No domingo, recebi um e-mail que dizia:

            “Ontem, passei pelo Palacete onde fizemos a reunião, só para olhar a data do prédio.
            No topo da construção consta a data de1881.
            Não tenho certeza, mas creio ser o Palacete, a segunda mais antiga construção da área urbana de Limeira. (Não sei a data de construção da estação ferroviária).
            Perde para a igreja N.S. da Boa Morte e Assumpção, que é de 1856. A igreja que está localizada em frente ao Palacete.”

            O público era pequeno, menor do que o esperado. No mesmo dia havia outros eventos na cidade. A reunião fugiu um pouco aos padrões convencionais. Formamos um círculo, nos apresentamos, lá estavam também Loide Rita Pizani da Silva, Camilo Martins Neto (presidente da Academia Nogueirense de Letras (Artur Nogueira), envolvido em projetos com a Holambra e Francisco Alves da Silva, outro acadêmico no Recanto das Letras. Conheci dois num só dia!!! Francisco, pesoa muito simpática que espero conhecer melhor.

           Rubem Costa, entre outras coisas interessantes, falou sobre a função de uma Academia de Letras dentro da sociedade. Apresentou a visão de que não deve ser como uma casa que o caramujo carrega nas costas. Segundo ele, uma Academia não deve ter paredes, deve ser aberta e “ensolarada”, incluir palestras de alto nível cultural, mas que sejam entremeadas por outras de maior acessibilidade, atraindo público variado. De sua programação deve constar arte, música, atividades para crianças, com foco na Literatura Infantil e, brincou, a indispensável parte gastronômica. Visão aberta e apreciável lucidez de um homem perto de seus cem anos de vida.

            Arita desistiu de falar sobre o papel da mulher na Literatura. Fiore achou que falara pouco. Creio que todos participaram equilibradamente. Minha opinião foi que a prosa estava muito boa. Nível alto (apenas a minha pessoa não faz parte de uma Academia). 

            Carlos Alberto Fiore faz parte da Academia Limeirense de Letras. É conciso ao falar de si mesmo, mas tem uma carreira sólida, construída, pelo que entendo, com seu próprio esforço. Abaixa a voz quando diz que já publicou dezesseis livros individualmente, além de ter participado de coletâneas. Conhecido, admirado e bem quisto por seus pares, é modesto ao falar de seus méritos. Prefere calar ou dizer o essencial. Enquanto pessoa, esbanja amabilidade, simpatia, boa educação, cortesia... Vestia uma camisa azul e calça jeans, para uma cerimônia informal, que lhe caíam muito bem. Não consigo imaginá-lo usando um terno nas cerimônias de gala. Por ser despojado, o informal cai-lhe muito bem. Ele e Francisco Alves dos Santos que também tive o prazer de conhecer, estão inteiramente engajados no processo cultural de sua cidade. Antevejo boas realizações para esse grupo.

            Em aberto, a possibilidade de novos encontros. Obrigada, Carlos Alberto Fiore, por ter lembrado de mim. Foi uma grande honra conhecê-lo. Espero que por esses dedos juntemos as mãos. Que com elas possamos construir com a prosa e a poesia, uma bela ponte!


Em Campinas, aos dois de abril de 2008.