“Deus” na visão de um homem comum

Palestra proferida no Centro de Estudos e Pesquisas Psicobiofísicas

“Quando a religião, a ciência e a moral são abaladas (esta pela rude mão de Nietzsche), e quando seus apoios exteriores ameaçam desmoronar, o homem desvia seu olhar das contingências exteriores e volta-o para si mesmo”.

Kandinsky (1866-1944), pintor abstrato russo.

Boa noite a todos os presentes e também a todos os daqui ausentes.

Antes de qualquer menção Àquilo, Àquele ou, sem determinantes preconceitos patriarcais, Àquela sobre que ou quem, hoje, me propus discorrer – ou, dizendo de outro modo, sobre que ou quem os que vieram muito antes de nós designaram “Deus nosso Pai, Criador e Senhor” – devo lhes falar um pouco sobre a origem e influências que, ao longo de quarenta e nove voltas ao redor do Sol, desenvolveram neste planeta minha estatura físico-espiritual e minha personalidade histórico-circunstancial.

Sendo filho-carnal de um livre-pensador de formação cristã, eventualmente niilista em suas reflexões existenciais, tive uma avó paterna de convicção protestante-Adventista. Fui batizado num templo cristão-católico quando se completaram os seis primeiros meses de minhas vivências fora do útero materno. Na infância, freqüentei a escola sabatina da Igreja Adventista até uns oito anos, quando, então, fui batizado como um dos primeiros membros da igreja mórmon que, na década de sessenta, começava a se estabelecer em João Pessoa.

Com o passar dos anos, minhas sensações e convicções me encaminharam ao interesse por outras manifestações do Sagrado nas diferentes culturas dos diferentes povos espalhados pelo planeta ao longo da História, tendo eu, depois, me interessado pela originalidade e diversidade das várias vertentes do pensamento oriental, daquelas culturas que se desenvolveram da Índia às várias partes do ocidente; como o Zen-budismo, com sua forma de espiritualidade sem “Deus”; os adoradores de Krishna, primeira manifestação do divino na literatura metafísico-espiritualista (vide registros na epopéia milenar Mahabharata) e, mais particularmente, o hinduísmo, com sua disposição a aceitação de quaisquer formas de adoração do que considera Sagrado.

Além de leituras à descoberta do Sentido de tudo, atentei para as sensações e expressões daquilo que considerei “a Dimensão-Deus” depois de, aos dezesseis anos, sofrer uma espécie de vertigem determinante quando da sensação de nossa situação espiritual-existencial, de nossa condição “psico-geográfica”, melhor dizendo, a qual nos situa numa corda bamba entre o profundo-abissal de nosso ser essencial desconhecido e o abissal-profundo do espaço infinito que nos cerca a nos provocar dúvidas sobre o Sentido fundamental da Vida monumental, eterna, daquilo a que se chama “Deus”, e o propósito de Suas multifacetadas manifestações no espaço-tempo, entre as quais nos situamos.

Continuando, ainda, do meio pro fim – ou mais justamente do meio para o Princípio – a imensa Vida que ora nos sustenta, e a tudo, me concedeu a responsabilidade de manter vivos, até onde aquele a quem circunstancialmente reconheço “eu mesmo” viver, três de Seus filhos e uma de Suas filhas (já que, afinal, somos todos genuínos filhos da Vida) – entre eles Rafael que, na ocasião, estava conosco somente durante oito breves voltas ao redor do Sol, atualmente com quatorze anos).

Como toda criança, ele também faz perguntas inquietantes para as quais nem sempre nós, adultos, deformados por um estilo de educação excludente, tendenciosa, freqüentemente perversa, dominados por todos os tipos de preconceitos, temos respostas precisas – embora, como exercício do que proporei realizar ao final desta na condição de representante de “Deus”, tenha conseguido respondê-las, bem como a outras perguntas feitas por outras crianças e adultos ainda ludicamente curiosos.

Entre as muitas perguntas que faz Rafael há sempre aquelas relacionadas com nossa natural curiosidade sobre as origens das vidas que povoaram e povoam este e outros planetas; mais ainda, acerca da origem da Vida mesma, mais especificamente sobre a origem daquilo que, como diz a maioria dos livros escritos sobre o assunto, fez-Se surgir como Tudo no infinito vazio tenebroso gélido universal.

Uma observação interessante sobre o infinito vazio fundamental, onde as representações luminosas da Vida estão contidas, é que “os milhares de galáxias constituem apenas minorias isoladas e perdidas numa desordem e num vazio incomensuráveis”. Assim escreveu o festejado filósofo francês Edgar Morin em seu livro "Meus demônios".

CONTINUA