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A ARTE DE COMUNICAR

OU «DOS SINAIS DE FOGO À INTERNET»

Por
Frassino Machado

Uma das grandes faculdades que a inteligência humana mais e melhor utilizou nas relações com a Natureza e consigo própria foi a sua capacidade de Comunicação. De facto, ao longo de vários milhões de anos esta faculdade tem-se vindo a aperfeiçoar como resultante de dois factores primordiais: a melhoria dos instrumentos e domínio do fogo e, mais que isso, o evoluir da sua própria identidade. O primeiro destes factores conduziu-o à Técnica e o segundo ao mundo da Ciência e do Progresso.
Nos primórdios da sua existência, como ser vivo constituído, o primeiro dos hominídeos a ter necessidade de se comunicar com outros terá sido o homo faber. Este, na sua fase de vida primitiva – segundo testemunho científico de antropólogos, especializados em investigações paleolíticas – vivendo já enfeudado a uma hierarquia de clã e por imperativo de demarcação da fronteira do seu habitat, teria usado de uma espécie de jogo de rituais sonoros para assinalar a sua presença. Assim, quer através de grunhidos em distâncias curtas, ou através de sonoridades retiradas da fricção de pedaços de sílex ou mesmo de madeira, em distâncias mais alargadas, procurava comunicar com os seus pares os locais mais apropriados para procurar alimentos ou, então, avisar a presença na zona de animais indesejáveis. E, quanto mais estes rituais se tornavam rotineiros, mais o uso de instrumentos aperfeiçoados passou a ser determinante.
Mas irá ser por alturas da passagem do Paleolítico Médio para o Superior – por volta aproximadamente dos 150.000 anos antes da nossa era – que este hominídeo irá ser o protagonista da primeira revolução da Comunicação. O seu agente criador, no nosso entender, foi nada mais nada menos que o homo erectus. O que nos leva a formular esta tese assenta em dois factores que nos parecem óbvios. Em primeiro lugar, vendo-se confrontado na sua verticalidade – o que fez com que qualquer deslocação se tornasse mais eficiente e realizada em distâncias de grande dimensão – este hominídeo terá mesmo necessidade de utilizar uma sinalética adulta, de certo modo já inteligente, para sua sobrevivência e segurança. Ao tornar-se caçador de animais corpulentos e alimentícios ele necessitava de percorrer grandes distâncias. Tirando partido da sua bipedia e ao ver-se possuidor de um ângulo de visão mais alargado, passa não só a conhecer melhor a natureza que o rodeia como também melhora o seu sentido de orientação. A própria oponência do polegar da mão dos outros dedos vai-lhe permitir o manuseamento dos instrumentos mais rudimentares começando por descobrir neles uma forma prática de se fazer entender com os seus companheiros da mesma espécie. Assim, a visão mais o manuseamento vão acrescentar à voz humana uma amplitude consistente. Datam desta altura os primeiros instrumentos de som e de sopro de que há memória ( chifres e trombas de animais ) e, por analogia com estes, os primeiros instrumentos de percussão para os quais contribuíram não só o uso das peles dos animais caçados, como também o reparo de troncos de árvores carcomidas sobre os quais aplicavam as ditas peles. Todavia, ainda não será esta a verdadeira revolução na técnica e na arte de Comunicação. Na verdade, com o dealbar das grandes deslocações dos velhos bandos de hominídeos – os primeiros seres viventes intercontinentais, entre os 100.000 e os 40.000 anos – ir-se-á dar a grande revolução da arte de comunicar.
Será o aparecimento decisivo do fogo e do seu génio que irá facultar a grande mudança no evoluído género humano. Uso já esta expressão dado que o hominídeo responsável por esta revolução demonstra efectivamente uma elevada dose de inteligência : é na dominância do homo sapiens , aquele que tem já a faculdade do pensar, que se estabelece o verdadeiro fenómeno da Comunicação. Desde esta altura, o homo neanderthalensis, o mais aperfeiçoado dos seres vivos de então – quer através de sinais de fogo nocturnos quer através de sinais de fumo diurnos – irá desenvolver toda uma complexidade de sinaléticas que, estando longe, o aproxima cada vez mais. Simultaneamente o génio do fogo vai alcandorá-lo não só ao próprio domínio dos metais, ficando conhecedor das imensas possibilidades da arte do som, como permitirá elevá-lo, através de rituais mágicos, às primeiras manifestações e crenças religiosas. Esta segunda dimensão potencial, ligada aos mistérios da revelação do espírito, e do próprio desenvolvimento do cérebro humano, faz com que da Pre-história o género humano avance para a História.
E será, a partir desta altura, descoberta a magia e a arte de se fazer entender, quer por gestos quer por traços combinados e associados, que o homem entra na segunda fase da Comunicação: a Escrita. Entendamos escrita como forma de transmissão de ideias e de conceitos. Neste contexto, mais uma vez vão ser decisivos não só a função da mão e de um instrumento, mas também passa a assumir importância os materiais que vão sendo descobertos para corporizar, na prática, as possibilidades formais de comunicar: o uso da argila, a invenção do estilete, o papiro e o câlamo, etc. Todos estes elementos associados ( as técnicas ) e a invenção de códigos de entendimento ( resultante da maturação do cérebro e da mente consolidados ) consubstanciarão a possibilidade da transmissão da fala.
Com certeza que a fala do homem, aperfeiçoada, associada e personificada pela escrita, será o primeiro grande sucesso para vencer distâncias. O homem já não precisa de se deslocar. Quem passará a deslocar-se será a sua fala, através da mensagem. Aqui, os caminhos que se lhe deparam são variadíssimos. Desde os primitivos estafetas, a pé ou a cavalo, até aos animais voadores treinados para conduzirem pequenas mensagens, passando pelas primeiras carruagens de diligência, pela invenção das velas e aperfeiçoamento da arte de navegar, meios estes que lhe facultaram possibilidades até aí consideradas incontornáveis. O homem passou a ter assim a faculdade de comunicação cada vez mais aperfeiçoada.
Claro que, quanto mais o homem se foi tornando possuidor de técnicas e de instrumentos aperfeiçoados essa comunicação avançada foi-se tornando também cada vez mais uma realidade. Os próprios modelos de escrita – aperfeiçoamento dos símbolos, quer sob a forma de imagens, quer sob a forma de ideias ou até mesmo representação de sons – constituirão na sua essência a diferenciação histórica das primitivas culturas civilizacionais.
É evidente que, sem as grandes invenções como: a imprensa, as lunetas e o telescópio, o alfabeto morse e o telégrafo, os telefones e os microscópios, a rádio e a televisão, todas as artes imagéticas e os primeiros computadores e satélites, jamais teria o homem chegado à Internet que, em si mesma, constitui hoje em dia por excelência a verdadeira globalização da Comunicação.
Numa só afirmação poderemos sintetizar que o homem nunca esteve tão longe e tão perto, em simultâneo, e por isso mesmo a Arte de Comunicação é presentemente o verdadeiro campo de ensaio de qualquer aprendizagem e adestramento. Será pela Arte de Comunicar que o homem se tornará mais ele mesmo, naquilo que ele tem de virtualidade mas, também, não tenhamos a menor dúvida, poderá estar aí o início da sua própria destruição. Por isso mesmo, quanto a nós, só lhe resta um caminho: manter sempre vivo o aperfeiçoar da sua inteligência para que possa construir a cada passo os antídotos da sua sobrevivência mesma. Tal como na Pre-História !


Frassino Machado
Comunicação :
Na Biblioteca Municipal Camões
Maio de 2004
FRASSINO MACHADO
Enviado por FRASSINO MACHADO em 01/12/2006
Código do texto: T306987
Classificação de conteúdo: seguro
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Sobre o autor
FRASSINO MACHADO
Odivelas - Lisboa - Portugal
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