Soneto de Devoção

Vinicius de Moraes

 

Essa mulher que se arremessa, fria

E lúbrica aos meus braços, e nos seios

Me arrebata e me beija e balbucia

Versos, votos de amor e nomes feios.

 

Essa mulher, flor de melancolia

Que se ri dos meus pálidos receios

A única entre todas a quem dei

Os carinhos que nunca a outra daria.

 

Essa mulher que a cada amor proclama

A miséria e a grandeza de quem ama

E guarda a marca dos meus dentes nela.

 

Essa mulher é um mundo! — uma cadela

Talvez... — mas na moldura de uma cama

Nunca mulher nenhuma foi tão bela!

 

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Soneto de Indevoção

Herculano Alencar

 

Essa mulher que é fruto da desgraça,

Que se abateu, sem dó, por sobre mim,

E que me fez sofrer... até que enfim,

Me fez despir, do peito, a carapaça.

 

Essa mulher (meu porre de cachaça)

Me disparou três balas festim:

Uma acertou meu sonho de arlequim,

Duas atravessaram a vidraça...

 

E seguiram, às cegas, o destino.

Essa mulher (meu sonho de menino)

Tornou a minha vida um pesadelo.

 

Mas quando nua, deita-se ao meu lado,

Inventa uma desculpa pro pecado,

E um modo invulgar de cometê-lo.

Herculano Alencar
Enviado por Herculano Alencar em 16/11/2021
Código do texto: T7387098
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