REFORMULAÇÃO À CIÊNCIA

Se eu pudesse... Se eu tivesse o poder de mudar... Iria propor uma nova visão quanto ao entendimento da racionalidade dos animais, que seja mais realista, mais condizente com a verdade.

Porque classificar os animais em racionais e irracionais?

Peguem um dicionário e irão encontrar como racional aquele que faz uso da razão e como irracional o não racional, o ilógico. Até mesmo na classificação demonstramos a nossa irracionalidade!

O homem, na ignorância sobre a vida selvagem, talvez tenha achado, na época que a nomenclatura era a mais adequada.

Hoje, com todo conhecimento (que ainda é pouco) adquirido pelos zoólogos, temos a certeza da racionalidade da vida animal. Claro que estou excluindo os homens, chamados racionais, e que de racionais nada têm!

Vamos levar essa discussão um pouco adiante, para o lado prático da vida e analisar alguns clãs de animais.

A maioria dos mamíferos possui uma hierarquia que é respeitada. O chefe é sempre o mais forte, o mais sadio e tem que dar provas constantes de sua superioridade. Mas isso é feito em prol de todo o clã. Para sua sobrevivência. Para melhoria da espécie.

O mamífero homem (aquele dito racional) também baseou sua sociedade, seu clã, em uma hierarquia. Nunca respeitada. Disputada entre conchavos, guerras destrutivas, onde vence sempre o poderio econômico, nunca a força de preservação da espécie. Espécie essa que nunca é respeitada na luta da chefia do “bando”.

O animal, hoje classificado como irracional mata para sua sobrevivência. Nem mesmo nessas lutas de poder eles se matam. Podem ferir-se mortalmente, mas não morrem na frente do grupo. Retiram-se, sabendo-se vencidos pelo tempo.

O animal racional mata toda e qualquer espécie. Inclusive a sua. Não só pelo poder. Mata para exibir fartura em sua mesa (o natal é a maior vitrine dessa comezaina), mata para exibir troféus de caça, mata para fazer das peles tapetes, vestimentas, adornos. Mata como passatempo, esporte, brincadeira. Afinal esses animais são irracionais, eles dizem. Não sentem dor. Não sabem o que é viver ou morrer. São irracionais!

Quem já foi num abatedouro olhar no olho de um animal que está na fila da morte? Quem já ouviu o choro desses animais na hora fatal?

Mas muito já olharam fixamente para aqueles olhinhos artificiais colocados nas peles de animais em extinção pela caça descontrolada e exibidas pelas mulheres da alta sociedade, enrolados em seu pescoço, geralmente ornados também com pedras brilhantes, ofuscantes, que as tornam superiores aos demais.

E sonham em possuir um sapato, um cinto, uma bolsa com pele de jacaré, afinal são caras, dão status! Status para quem? Certamente não para o pobre animal que foi bruscamente tirado do seu habitat.

No que os racionais por certo rebateriam:

- Mas eles são perigosos. Podem até mesmo nos matar!

Irracionais só matam quando acuados. Quando se sentem ameaçados pelo homem. Não sentem prazer com a matança. Não matam pra provar seu poder sobre os homens. Nem mesmo para exibi-los como troféu ou adorno.

Conhecemos tantas histórias de animais que foram adotados por outra espécie (algumas até ditas como inimigas naturais) porque os filhotes perderam seus pais biológicos... E nos comovemos ao ver essas cenas em filmes e reportagens na televisão. São de uma diversidade incontável. Animais selvagens alimentados por outros que fazem parte até de sua cadeia alimentar. Animais domesticáveis que em condições normais seriam inimigos naturais. É a sabedoria da sobrevivência da espécie falando mais alto. É a coerência da vida animal se fazendo notar.

O homem jamais o faz por livre e espontânea vontade. Faz sim, movido pelo troféu do reconhecimento dos mais próximos, por imposição do grupo, desde que isso não comprometa sua individualidade.

E impõe uma serie de condições e restrições para que isso aconteça. É uma visão distorcida? Então vejamos: se pegarem os dados cotidianos dos reality shows, verão que mais de vinte milhões de pessoas pagam uma ligação telefônica para “desclassificar” alguém... Nisso já está demonstrando seu poder de destruição da espécie, sempre querendo ver o outro ir abaixo. Mas quantas instituições de caridade fecham suas portas por falta de doação? Quantos pais são abandonados em asilos precários para que não se perca tempo com seu tratamento que demandam cuidados constantes? Quantas crianças são abandonadas, algumas até jogadas no lixo por falta de tempo e condições de se cuidar (como normalmente é justificado o ato)?

Que ser racional é esse? Onde está a racionalidade de alguém que tira a liberdade de um pássaro aprisionando-o numa pequena gaiola, quando ele tem o mundo para viver? Onde a racionalidade de alguém que priva de liberdade animais selvagens para fazer espetáculos grotescos em circos, sendo maltratados, enjaulados e subjugados em troca de parca alimentação? Onde a racionalidade de seres armados até os dentes se auto destruindo em prol de angariar mais e mais poder financeiro, como se tivessem vida eterna para o usufruir?

O animal, quando luta é sempre com seus próprios dentes e sua força. É leal até na hora de sua própria defesa.

Inúmeros são os motivos que me levam a propor uma nova classificação dos animais, poderia ficar aqui discorrendo eternamente sobre o assunto. Mas acredito que já mostrei motivos suficientes para que mude os ditos irracionais para coerentes e os racionais para incoerentes.

Porque essa é a realidade. Somos animais incoerentes.

Movidos pela ganância, pelo poder transitório que não nos leva a nada. Passamos por cima de tudo e todos que atravessam nosso caminho, até pelos motivos mais fúteis e estapafúrdios que poderíamos admitir.

Um dia eu disse e fui chamada de louca, mas volto a admitir: tenho vergonha de pertencer ao clã dos homens, ditos racionais, mas de verdade os mais incoerentes habitantes deste lindo, devastado e sofrido PLANETA TERRA!