Souvenir

Busco uma lembrança dos lugares em que andamos, em que corremos de mãos dadas, em que paramos para apreciar o nada absoluto (!) Faço uma exclamação de espanto, pelo espanto que me causam tais lembranças, que a bem da verdade não são lembranças, são como fantasias, uma obra de ficção, como um romance que não quis escrever. Poderia ter guardado o lenço com que limpou os lábios após o vinho, ou quem sabe? A própria rolha dourada e metalizada que saiu com estardalhaço ao abrir a garrafa...Ai meu Deus, por que não guardei dela nenhuma lembrança, que pudesse comprovar que estivemos juntos em algum momento de nossas vidas; como fui tolo ao deixar que se perdesse o band-aid que lhe protegia o calo num dos dedos do pé direito; busco uma lembrança dos lugares onde paramos, onde falamos, onde comemos e nos amamos; tenho apenas o som de sua voz adolescente, que insistia em me dizer sempre bonjour como se fosse francesa e hoje é a única coisa que me resta, como um triste souvenir!

Abrantes Junior
Enviado por Abrantes Junior em 10/07/2009
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