Na Canalha Solitário - V

Escutei um grito na noite, talvez fosse até minha consciência pedindo perdão, socorro talvez.

Escutei uma nota dissonante, parecia Guns N'Roses, ou outra banda, não sei. Olhei pra fumaça que pairava na vidraça & não imaginei que fosse o meu cigarro. Deve ser fruto da minha imaginação, solidão talvez. Vi meu próximo emprego, bem perto das mãos, ainda difícil de alcançar.

Parece até que tem um carma a me perseguir. Talvez esperar por mais uma semana, com certeza. Ele está tão próximo. E ela tão longe.Com certeza por minha incompetência, minha intolerância, minha ignorância, talvez.

É como uma mãe distante, mais distante quem está sou eu. Não ligo para as pessoas. O telefone está logo aí, mas pouco ligo.

E ainda assim tenho sempre que ficar só. Tão só que me dá angústia. A solidão é outro carma que carrego, ou que me carrega talvez. Sem entrar em depressão, isso não me conta, conto sempre com a esperança de logo ficar melhor, & por incrível que pareça, basta começar encaixar as coisas, todo mundo se lembra de mim.

Na baixa, todo mundo parece me esquecer. E quase sem existir, passo dias & dias nessa luta solitária em busca de espaço. Do meu espaço. Um cigarro atrás do outro, nem sei como meu pulmão agüenta, fico tamborilando esse teclado a espera de alguma coisa nova.

O passado, como um rio, foi ficando cada vez mais longe &, mesmo com todas as reminiscências presentes em cada fio de cabelo, me provocam com meus erros. Parece que só os meus erros ficam à mostra.

Os acertos são logo esquecidos, como se não existissem. Mas existem, foram importantes. Tenho certeza que marcaram, não só a mim, como muitos.

Uma pessoa não passa a vida toda errando. Tenho certeza que acontecem muitos acertos. E eu sei que errei muito. Erros graves. Mentiras, meias-verdades, entre outras travessuras.

Mas acertei muito.

Porém aqueles que erraram comigo, que deixaram, quase sempre numa merda de fazer gosto, pouco fizeram para reparar seus erros. Erraram, pouco se importaram, me chutaram para escanteio & cortaram a corda, que seria a minha tábua de salvação.

Se alguém teve que se afogar nessa meleca toda, fui eu. Raríssimos me bateram às costas para me dar o seu apoio.

Sim, tenho até uma lista dos amigos. Acho até que tenho mais amigos que a grande maioria das pessoas. Mas não é desses que falo, ou melhor, escrevo. Para eles, o espaço tem que ser outro. Penso é naqueles que de uma maneira ou outra, se comprometeram com o meu trabalho, & pelo trabalho que fiz, acredito de boa monta, deixaram um vazio imenso na minha vida.

São incontáveis as coisas que perdi, dedicando tempo & espaço ao trabalho & quase nada recebendo em troca. Na maioria das vezes, um belo pontapé na bunda. Além, é claro, de toda sorte de absurdo que escutei ao longo do tempo, seja por estar trabalhando muito, por estar recebendo pouco, ou até por não estar recebendo. Ou porque eu montei aquele escritório, ou porque ela saiu da fábrica onde trabalhava, sendo que hoje poderia estar com sua aposentadoria, ou por ter tentado fazer isso ou aquilo, e não ter dado certo, caindo de novo à culpa em mim, ou porque que eu fui comprar esse computador, é um puta investimento que até hoje não se pagou, & assim por diante. Ah! aquele monte de revista em quadrinhos, os vídeos, os CD's, & não sei mais que outros negócios que comprei.

Além de todo o dinheiro que eu queimo em cigarros, em cervejas, na quadra, no futebol, em pescaria, em jornais, & em outras revistas, nos almoços quando estava trabalhando, em balas, em doces, em cafés, etc, etc, etc, etc. Assim como se somente eu, única & exclusivamente eu, fosse o único a gastar.

Só que enquanto eu trabalhava, & principalmente ganhava dinheiro, tudo quanto que era feriado, ou fim de semana, ou qualquer outra oportunidade que tivesse, ela ia para o interior. Não perdia uma única oportunidade de viajar, principalmente quando seus pais se mudaram. Pouco importava se eu ia passar mais um fim de semana só.

Da mesma forma, as milhões de promessas que escutei durante a vida. Do tipo, você é o meu braço direito. Comigo você vai longe. E acabei ficando pelo caminho. A empresa está crescendo, & você vai crescer junto. Só que, quem bateu com a cara no chão fui eu. Ou ainda, “acerta as coisas” que eu te passo trabalho, tudo, & mesmo acertando, fiquei falando sozinho.

Isso sem contar uma vez que estava tudo certo para um trabalho super legal, que envolvia várias empresas, pessoas, etc, & que aguardava um "vamos fazer", & quando veio, era falso. Além de ficar falando sozinho, deixei mal uma grande amiga, & reconhecidamente, até hoje, estou em dívida com ela. Tudo por causa de um imbecil irresponsável. A minha vergonha foi tanta, que nunca mais pude olhar essa minha amiga de frente. E acredito, que até hoje, ela ainda deve ter mágoa de mim.

Hoje é 18 de setembro de 1.998. Não é assim, um dia tão especial.

Uma semana atrás, completei 12 anos de casado. Nem eu, nem ela, demos a devida importância para a data. Ninguém se lembrou disso também. A data passou assim, praticamente desapercebida.

Hoje, fico me perguntando, porque?

Lógico, que eu queria estar numa situação melhor. Poder comemorar, mesmo que fosse só com ela. Mas nem isso estou podendo fazer, quiçá, comemorar com os meus poucos amigos. Logo, logo, vai chegar o meu aniversário, 39 anos. Como eu gostaria de comemorar com uma grande festa. Eu ainda acredito que possa fazer. Faltam ainda, uns 2 meses, & quem sabe, até lá, já tenha conseguido arrumar um novo trabalho fixo, & com alguma grana no bolso, possa dar, mais uma vez, uma guinada nessa má sorte que anda me acompanhando. Quem sabe até, uma guinada histórica.

Eu acredito, sempre acreditarei.

Como já disse antes, faz parte da minha natureza acreditar sempre. Sempre que queria começar alguma coisa, me faltava algo. Dinheiro principalmente.

Hoje, como não poderia deixar de ser, me falta tudo. Além do malfadado dinheiro, emprego, trabalhos, atenção dos amigos, sobrando por certo inúmeras recusas, além de fatídico distanciamento que as pessoas te empurram goela abaixo, quando você se encontra na mais pura merda.

Hoje eu fui até a casa da minha mãe. Ela me pediu uma camisa, para ver ser consegue uma força extra, para me tirar desse buraco. E como se não bastassem, tantos problemas, a outra resolveu me jogar na cara que o cerco está se fechando. Juro por tudo quanto que é mais sagrado, que tive vontade de dar uma porrada nela.

Bem, como eu ia dizendo, fui até a casa de minha mãe. E no caminho, fui pensando em toda essa merda que se transformou a minha vida, com todos os problemas causados por aquele filho-da-puta, que me extorquiu 3 anos de trabalhos, sem quase nada me pagar.

Pensando nisso, fiquei também remoendo os tantos pedidos que fiz para o camarada lá de cima, é aquele que está sempre olhando por nós, mesmo quando não estamos nem aí para ele, mas que nesses últimos 7 ou 8 meses, está com uma listinha grande da minha parte, de tanto que eu venho pedindo pra sair desse buraco.

Veja bem, isso não quer dizer, que passo a maior parte do tempo pedindo para o cara me ajuda, me ajuda, me ajuda. Tenho tentado cumprir também a minha parte, indo em todos os lugares possíveis, respondendo aos anúncios da área, para voltar trabalhar o mais rápido possível. E até agora nada, e mais nada. Pensando em tudo isso, & ficando cada vez mais puto, me ocorreu um rasgo de pensamento. Vou fazer que nem o personagem de uma revista em quadrinho que coleciono, & que nunca pede ajuda ao seu Deus. Muito pelo contrário, até ironiza, quando encontra alguém devoto de mais pelo caminho. E procura levar a sua vida ao sabor da aventura. E tudo o que vier é lucro.

Pois comecei a pensar assim também. Imaginando que se tudo está uma merda, pior não vai ficar. E se tiver que piorar, não posso fazer mais nada.

Como todo mortal, tenho também os meus limites. Agora, se o cara lá de cima resolver que eu tenho que ter um pouco mais de sorte, & que as coisas voltem a acontecer comigo, tudo bem. Caso contrário paciência.

Juro que toda essa linha de pensamento me deixou até um pouco mais leve.

Surpreendia-me a disposição que começava a sentir. A passagem pela casa de minha mãe foi super rápida. Em pouco tempo estava de volta ao meu canto, & em casa, me propus a arrumar os capítulos que venho escrevendo & assistir ao jogo que ia passar na TV.

E não é por esses desatinos da vida, que toca o meu telefone, com um antigo cliente querendo me passar um trabalho.

Quando eu vivo repetindo que me amo mais do que qualquer coisa desse mundo, é por essa razão. Toda a neurose que me incomodava nestes últimos meses, todas as reclamações que fiz & que fui obrigado a engolir, se afogaram como se tivesse dado uma descarga na privada. Não que eu já esteja contando com o ovo no cu da galinha, mas que esse é um sinal extremamente positivo, caralho. Eu tenho certeza, que é um bom sinal. E que logo as coisas comecem a entrar nos eixos de novo.

Essa merda não pode durar o resto da vida.

Tudo pode mudar de uma hora para outra. Basta saber o momento certo da mudança. Se você não acompanhar os movimentos do acaso, pode ficar a vida inteira esperando mudanças, olhando os ponteiros do relógio, com seus movimentos ritmados, a passagem de nuvens, a troca de estações, ou até mesmo o aparecimento dos cabelos brancos. Essas não são todas as mudanças que você passa a vida esperando. Ainda mais com essa tal de globalização que vem assolando o mundo inteiro. Se você ficar parado, nem o bonde da história vai ver. É bem capaz da vida passar por você, & quando se der conta, estar começando a espera tudo de novo.

Se você é um cético que não acredita em mudanças, você não é desse mundo.

Peixão89

Na Canalha - 1998

Peixão
Enviado por Peixão em 03/12/2009
Código do texto: T1959041
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