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Ensaio sobre Giacomo Joyce - Giacomo Joyce: o menor pelo maior



I

Escrito no ano de 1914 em Trieste, Giacomo Joyce é um fragmento ou experiência literária que não foi publicado por Joyce – sendo publicado postumamente em 1968. Situado exatamente entre o término de Um Retrato do Artista quando Jovem e o início de Ulisses, Giacomo Joyce é – nas palavras de Ellmann – “uma espécie de traço de união entre os dois livros. Poema de amor nunca declamatório, é a tentativa de educação sentimental de uma jovem italiana, o adeus de Joyce a um dos momentos de sua vida e, ao mesmo tempo, a descoberta de uma nova forma de expressão do imaginário.”
Giacomo Joyce é um dos mais autobiográficos escritos de Joyce. Richard Ellmann situa os eventos que aparecem no texto como ocorridos entre 1911 e 1914, durante a estadia de Joyce na cidade italiana Trieste. Escrito em oito folhas, frente e verso, de papel grande e grosso, com fina caligrafia, Giacomo Joyce é uma espécie de receptáculo para o desabafo apaixonado de Joyce. No texto, as divagações eróticas e amorosas são escritas em uma indistinta miscelânea de poema de métrica livre, prosa fluída e drama interno, retratando uma paixão de Joyce por uma aluna judia, à qual ensinava inglês.
Para além do interesse autobiográfico de Giacomo Joyce, ou, o interesse pelos trechos do livro que serão amplamente reutilizados em “Ulisses” e em “Finnegans Wake”, a obra possui outro interesse muito maior: nela estão germinando algumas das técnicas narrativas que surgem em Dublinenses – principalmente no conto Os Mortos – e em Um Retrato do Artista Quando Jovem – principalmente na última parte do romance -; nela também são apontadas várias técnicas que serão retomadas e aperfeiçoadas no Ulisses e no Finnegans Wake. Em Giacomo Joyce aparecem também muitos dos temas centrais do conjunto da obra de Joyce, como a culpa, as emoções eróticas, a infidelidade.

II

A arte imprópria provoca emoções cinéticas: ela gera desejo ou repugnância, levando o espectador a desejar ou a abandonar o que a arte apresenta à consciência. Os exemplos de arte imprópria dados por Stephen são a arte didática ou a arte moral, que estimulam a repugnância. A arte própria não é cinética, mas estática: ela mantém o espectador em contemplação, ao invés de levá-lo à ação.

No trecho apresentando acima - do ensaio A Teoria Estética e os Estudos Críticos de Robert Scholes e Marlena G. Corcoran - há uma síntese da teoria estética que Stephen Dedalus apresenta no romance Um Retrato do Artista Quando Jovem. A teoria que Stephen esboça em discussões com seus colegas de estudos é, em certos pontos, uma retomada das teorias estéticas de Tomás de Aquino, porém: “Onde Tómas de Aquino associa beleza à razão, através da cognição, Joyce (ou Stephen) separa a beleza da razão atribuindo-a a imaginação, enquanto associa o intelecto à verdade e relega o bem ao domínio da arte imprópria.”
A distinção feita por Stephen entre razão e imaginação, verdade e beleza, arte imprópria e arte própria, é também aquela que agitou as discussões sobre a forma do romance no século XIX: as instâncias narrar e descrever. A transformação que foi se configurando no romance pode ser sintetizada da seguinte forma: a narração altamente subjetiva e parcial vai dando lugar, aos poucos, a descrição de pretensão objetiva, imparcial, analítica. Tudo isso confluindo com o pensamento científico positivista que se firmava na segunda metade do século XIX.

O artista, como o Deus da criação, permanece dentro ou atrás ou além ou acima de sua obra, invisível, aprimorado fora da existência, indiferente, aparando suas unhas.

O artista pensa-se então como um deus criador capaz de captar a realidade em todas as suas minúcias e transformá-la em obra de arte. O escritor é um observador assaz perspicaz que consegue descrever a realidade em todos os seus pormenores.
Vale ressaltar aqui que os pressupostos estéticos das escolas realistas e naturalistas nada têm a ver com o pensamento de Batteux, Du Bos,  e outros estetas franceses do início do século XVIII que pensavam a arte como imitação da natureza. Dentro deste pensamento, uma obra de arte seria tão mais perfeita quanto mais ela se aproximasse da imitação da natureza. A criação e a invenção eram repudiadas, o artista teria apenas a função de organizar os materiais presentes na natureza e não de criar novos materiais. Os conceitos de natureza e imitação são totalmente distintos no início do século XVIII e na segunda metade do século XIX.
Entretanto, a necessidade de representar objetivamente a realidade traz para o romance um paradoxo inextricável: qual a posição do narrador no romance, se este já não pode mais narrar?

III

O corpus joyceano, mais do que nunca, ergue-se como um divisor de águas no romance contemporâneo, pela radicalidade de sua revolução da linguagem, anunciada já na fragmentação final do A Portrait of the Artists as a Young Man [Um Retrato do Artista Quando Jovem] (1916), levada a níveis de complexidade incomuns no Ulysses e extremada até aos excessos de um “sanscreed” (sânscrito sem credo) polilíngue e polifacético no Finnegans Wake.

É no contexto da revolução da linguagem feita por Joyce que se encontra uma possível solução para o lugar do narrador no romance contemporâneo.
A diferenciação estética feita por Stephen Dedalus em Um Retrato do Artista Quando Jovem entre narrar e descrever, arte própria e imprópria, desmanchar-se-á no final do romance e a revolução na linguagem se manifestará em todo Giacomo Joyce, texto de experimentação e transição, para ter plenitude em Ulisses.
No final de Um Retrato do Artista Quando Jovem vemos, na parte do diário, mudanças significativas na forma de narrar. Ao escrever em forma de diário, Joyce apela para uma forma onde realidade e imaginação se misturam. A narração pode ser suprimida e subentendida; narra-se o essencial e os fatos narrados estão carregados de descrições altamente subjetivas, mas, ao mesmo tempo, objetivas e precisas com relação ao pensamento de Stephen.

Cinco de abril: Primavera selvagem. Nuvens correndo. Que vida! Corrente escura de água-de-pântano na qual macieiras lançaram suas flores delicadas. Olhos de meninas entre as folhas. Meninas recatadas brincando ruidosamente. Todas louras ou castanhas: nenhuma morena. Coram melhor. Epa!

Joyce ao fazer Stephen escrever em seu diário, capta seu fluxo de consciência e utilizando-se também do discurso indireto livre, começa a apontar para a técnica do monólogo interior que será amplamente utilizada em Ulisses. O que Raymond Williams diz sobre Ulisses, evidencia-se claramente no final de Um Retrato do Artista Quando Jovem – “a relação entre ação e consciência, mas também a relação entre narrador e personagem, foi modulada a ponto de alterar toda a forma da linguagem.”
Nos trechos finais do romance, o que vemos, então, é uma mistura de realidade, memória e imaginação, confluindo para que narração e descrição deixem de ter o caráter das técnicas realista e naturalista utilizadas anteriormente, transformando-se, assim, em outra coisa completamente diferente.

IV

Em Giacomo Joyce, as transformações efetuadas por Joyce na linguagem serão suscitadas e, trabalhando com jogos de perspectiva, veremos se estruturar algumas das técnicas que serão utilizadas em seus escritos posteriores.
Giacomo Joyce, é construído como se fosse um diário íntimo. Nesse diário, os episódios anotados são de difícil identificação. Podemos pensar que, genericamente, todos os episódios se referem aos encontros de Joyce com sua aluna judia  e, posteriormente, as relações amorosas e sexuais dos dois. Porém, entremeados a esses episódios, deparamo-nos com recordações da infância de Joyce, encontros com o pai da moça, citações em latim, trechos de canções de John Dowland , explicações sobre Hamlet, referências a livros e autores – Joyce faz referência ao próprio Ulisses que estava em processo de composição -, e, principalmente, reflexões feitas no momento da escrita sobre os acontecimentos que são anotados no diário.
Então, temos, basicamente, um texto que irá misturar: acontecimentos de diversos momentos do passado, reflexões feitas no momento presente da escrita e suposições acerca do que aqueles episódios irão representar no futuro.

Ela coleia rumo a mim ao longo do divã rugoso. Não posso me mover nem falar. Chegança enroscada da carne estelinata. Adultério da sabedoria. Não. Vou. Vim.
- Jim, amor! –
Macios lábios sorventes beijam minha axila esquerda: um beijo sinuoso em miríades de veias. Inflamo! Encolho-me como a folha em flama! Da axila direita salteia um colmilho de fogo. Uma serpente estelar me beijou: uma fria serpentenoite. Estou perdido!
- Nora! -

Neste trecho, Joyce problematiza o caso amoroso com sua aluna. Aqui podemos evidenciar o que John Paul Riquelme chama de “qualidade móvel da memória”.  Joyce mistura a lembrança de relações sexuais com sua aluna e relações com sua mulher, Nora Barnacle, devido aos anseios que o perturbam no momento da escrita. O “adultério da sabedoria” nos situa em um momento de relação com a aluna, pois Joyce era casado no período em que se passam os fatos descritos em Giacomo Joyce, daí o “adultério”; e “da sabedoria” podemos supor que se refira à diferença de formação cultural das duas mulheres. A aluna de Joyce é de formação intelectual consolidada e isso pode ser observado no próprio Giacomo Joyce:

Ela diz que, se O Retrato do Artista fosse franco apenas por amor à franqueza, ter-me-ia perguntado por que lho dera para ler. Tê-lo-ia, não? Uma dama das letras.

Já Nora Barnacle, esposa de Joyce, não fazia muito caso de seus escritos - Richard Ellmann conta, na biografia de Joyce, que a mulher do escritor mal teria lido as primeiras páginas do Ulisses. Entretanto, o grito de “Nora” e o apelido pelo qual a mulher chama Joyce (“Jim”), pode nos situar em um momento entre Joyce e sua esposa.
Memória e imaginação se misturam nos trechos apresentados acima, criando situações onde a realidade aparece como representação dos devaneios do narrador-personagem. Além da intimidade e a sensação onírica que a escrita em forma de diário trás, temos também outra inovação importantíssima no contexto da arte moderna: a estrutura fragmentária e, consequentemente, a técnica de bricolagem. Giacomo Joyce é escrito de forma fragmentária: episódios desordenados que aparecem reunidos pela arbitrariedade da memória. No fac-símile do texto , podemos observar como parágrafos relativamente pequenos (às vezes uma frase, ou até, uma linha) são separados por imensos espaços em branco. A estrutura do texto e a escrita com muitos espaços em branco podem sugerir um espaço que poderia ser preenchido pelo leitor através da reflexão ou da criação intuitiva. Algo semelhante ao que acontece no livro Como É de Samuel Beckett .
Assim, Giacomo Joyce pelo aspecto da fragmentação e da bricolagem pode ser associado aos primeiros quadros cubistas de Picasso; pelo aspecto onírico de uma imaginação que transfigura e metamorfoseia-se a realidade podemos fazer um paralelo com as primeiras composições expressionistas de Arnold Schoenberg. Essas tendências serão lapidadas e melhoradas, e aparecerão em Ulisses como um todo compacto e bem articulado. Podemos associar as transformações que ocorrerão nas técnicas e formas empregadas por Joyce, às reconfigurações que se darão no cubismo analítico de Braque, na mistura de cubismo e futurismo que Duchamp emprega e que acaba criando algo completamente diferente, ou, no campo da música, às composições de Alban Berg que cria obras onde a fragmentação constrói um todo orgânico.
Giacomo Joyce é um fragmento literário onde começam a despontar alguns dos artifícios que farão dos escritos posteriores de Joyce obras de complexidade ímpar. Ellmann conta que, no fim da vida, Joyce manifestava sincera vontade de escrever algo simples e curto: uma prosa que se aproximasse muito de um pequeno e belo poema. Giacomo Joyce, com certeza, se assemelha a essa vontade.
Assim, podemos pensar Giacomo Joyce como sendo – nas palavras de José Antonio Arantes -: “um prisma que refrata as obras máximas de Joyce, e por isso – não apesar disso – deve ser lido como uma silenciosa obra com identidade própria. Como Joyce mesmo teria sido capaz de dizer, sem modéstia: é o menor pelo maior.”




Bibliografia

ADORNO, Theodor W. Notas de Literatura I. São Paulo: Editora 34, 2003. Trad. Jorge de Almeida.
CAMPOS, Haroldo de e Augusto de. Panaroma do Finnegans Wake. São Paulo: Perspectiva, 2001.
ELLMANN, Richard (at. al.). Joyce e o estudo dos romances modernos. São Paulo: Editora Mayo, 1974. Trad. S. Lemos.
JOYCE, James. Giacomo Joyce. São Paulo: Iluminuras, 1999. Trad. José Antonio Arantes.
____________ Um Retrato do Artista quando Jovem.  Rio de Janeiro:     Objetiva, 2006. Trad. Bernardina da Silveira Pinheiro.
____________ Ulisses. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2008. Trad. Antônio Houaiss.
NESTROVSKI, Artur (Org.). riverrun – Ensaios sobre James Joyce. Rio de Janeiro: Imago Ed., 1992. Trad. Jorge Wanderley, Lya Luft, Marco Lucchesi, e outros.
WILLIAMS, Raymond. O campo e a cidade na história e na literatura. São Paulo: Companhia das Letras, 1989. Trad. Paulo Henriques Britto.

Notas:

1. ELLMANN, Richard. Apresentação de Giacomo Joyce. In: Joyce e o estudo do dos romances modernos. São Paulo: Editora Mayo, 1974. Trad. S. Lemos. Pág. 81.
2. SCHOLES, Robert e CORCORAN, Marlena. A Teoria Estética e os Estudos Críticos. In: riverrun – Ensaios sobre James Joyce. Org: NESTROVSKI, Artur. Rio de Janeiro: Imago Ed., 1992. Trad. Lúcia Xavier Bastos. Pág. 80.
3. Ibid. Pág. 81.
4. JOYCE, James. Um Retrato do Artista quando Jovem.  Rio de Janeiro: Objetiva, 2006. Trad. Bernardina da Silveira Pinheiro. Pág. 227.
5. Ver os tratados estéticos de Jean-Baptiste Du Bos: Reflexões críticas sobre a poesia e a pintura; e Charles Batteux: As Belas Artes reduzidas a um mesmo princípio.
6. Paradoxo formulado por Adorno em seu ensaio “Posição do narrador no romance contemporâneo”. Ver: ADORNO, Theodor. Posição do narrador no romance contemporâneo. In: Notas de Literatura I. São Paulo: editora 34, 2003. Trad. Jorge de Almeida. Pág. 55.
7.CAMPOS, Haroldo de. Do Desesperanto à Esperança – Joyce Revém. In: CAMPOS, Augusto e Haroldo de. Panaroma do Finnegans Wake. São Paulo: Perspectiva, 2001.
8.JOYCE, James. Um Retrato do Artista quando Jovem.  Rio de Janeiro: Objetiva, 2006. Trad. Bernardina da Silveira Pinheiro. Pág. 264.
9.WILLIAMS, Raymond. A figura humana na cidade. In: O campo e a cidade: na História e na Literatura. São Paulo: Companhia das Letras, 1989. Trad: Paulo Henrique Britto. Pág. 329.
10.Richard Ellmann na biografia de Joyce aponta Amalia Poper - filha de Leopoldo Poper, homem de negócios judeu de Triste – como sendo a aluna com quem Joyce teve um caso.
Cf. ARANTES, José Antonio. Notas a Giacomo Joyce. In: Giacomo Joyce. São Paulo: Iluminuras, 1999. Pág. 63.
11.John Dowland (1563 – 1626) é um compositor do período renascentista. Exímio alaudista, a maior parte de suas composições são canções para voz e alaúde.
12. A estadunidense Vicki Mahaffey irá argumentar que a estrutura frágil do texto de Giacomo Joyce não permite uma boa utilização das referências fragmentárias que estão sugeridas no texto.
Cf. MAHAFFEY, Vicki. Reauthorizing Joyce. Cambridge: Cambridge University Press, 1995.
13. JOYCE, James. Giacomo Joyce. São Paulo: Iluminuras, 1999. Trad. José Antonio Arantes. Pág. 53.
14. RIQUELME, John Paul. Stephen Hero, Dublinenses e Retrato do Artista Quando Jovem: Estilos de Realismo e Fantasia. In: riverrun – Ensaios sobre James Joyce. Org: NESTROVSKI, Artur. Rio de Janeiro: Imago Ed., 1992. Trad. Suzana Kampff Lages. Pág. 60.
15. Ibid. 14. Pág. 45.
16.  “Jim” é o apelido carinhoso pelo qual Nora chamava Joyce. Nas cartas de Joyce para Nora, vemos muitas delas assinadas simplesmente com o “Jim”. Sobre a relação distanciada de Nora com os escritos de Joyce, ver também as cartas


Lucas Paolo
Enviado por Lucas Paolo em 22/07/2010
Código do texto: T2393325

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