O CAMINHO NÃO PERCORRIDO - a trajetória dos assistentes sociais masculinos em Manaus - contunuação

3.3. DEPOIMENTOS DE ASSISTENTES SOCIAIS MASCULINOS SOBRE O EXERICIO PROFISSIONAL E O MERCADO DE TRABALHO.

Com o objetivo de conhecermos o pensamento dos Assistentes Sociais Masculinos sobre o exercício profissional, o mercado de trabalho, a profissão, o preconceito etc., consideramos importante os depoimentos de profissionais masculinos graduados no Amazonas. Por uma questão de metodológica, convém deixar os depoimentos como foram dados, sem maiores comentários, porque eles são precisos, esclarecedores e conclusivos.

Dos assistentes sociais ouvidos,alguns exerceram a profissão; outros, não porque abandonaram-na logo depois da graduação, seguindo para outras profissões como veremos no capítulo seguinte. Outros começaram mas abandonaram o curso.

1. NILO PAIXÃO( in memória). Graduou-se em 1957 e exerceu a profissão até seu falecimento: “Continuo acreditando na profissão de Assistente Social e encorajando pessoas de ambos os sexos a segui-la. Não acho que a profissão seja feminina ou masculina, posto que até prova em contrário, profissão não tem sexo e nem é propriedade particular de ninguém...

Acredito na profissão, tanto assim que, tanto eu como outros colegas de quem tenho notícias, fomos bem sucedidos nela...

Exerci a profissão, inicialmente, no Departamento Estadual da Criança, órgão da então Secretaria Estadual de Saúde; depois na Hospedaria dos Imigrantes, órgão pertencente ao Instituto Nacional de Imigração e Colonização, de onde fui transferido para o antigo INPS, hoje INSS, por onde me aposentei e atualmente exerço as atividades no grupo empresarial Bemol. Isto tudo de 1958 até a presente data, 1994...”

2. JOSÉ ROBERTO RIBEIRO DE ARAÚJO. Graduado em 1959, mas não exerceu a profissão; também não informou se exerceu outra profissão: “Havia preconceitos moralistas, típicas da cultura brasileira, que não admite o homem externe sentimentos como a mulher, chegando ao absurdo, até de querer impedi-lo de chorar pois “homem que é homem, não chora...”Senti que haveria um forte preconceito contra o exercício da profissão por pessoas do sexo masculino...Por ser cada maior o número de pessoas carentes, desprovidas de educação, saúde e sujeito a todo tipo de violência, é imprescindível a atuação de profissionais que atuem junto a esse público, conscientizando-os e orientando-os no sentido da organização de seus direitos de cidadania...Assistente Social só pode ser mulher, é um preconceito machista que não tem razão de ser. Assim como qualquer outra profissão, que presumidamente fosse do exercício privativo dos homens e pode ser exercida por mulheres, o serviço social pode ser exercido por homem...”

3. JOSÉ VICENTE SILVA. Graduou-se em 1958. Exerceu a profissão por treze anos na Previdência Social:

Sou realizado na profissão...

A família, em todos os seus níveis, necessita de um pronta ação do Serviço Social...

Eu não senti qualquer tipo de preconceito por ser homem e exercer serviço social...Eu sempre acho que deveria ter seguido a profissão de assistente social. Sou uma pessoa realizada...”

4. BISMARCK CORRÊA BARAÚNA. Graduou-se em 1958. Exerceu a profissão por trinta anos no Serviço Social do SESI – Serviço Social da Indústria, onde se aposentou: “Eu não senti qualquer tipo de preconceito...Hoje, mais do que nunca, o Serviço Social é uma necessidade. A profissão é positiva porque há grande mercado. Só não sei se os assistentes sociais se dedicam de forma ampla para atender às necessidades sociais...A profissão não é valorizada...O Sesi, onde trabalhei, não dá valor ao assistente social e desconheço quem dá...O Assistente Social não é tratado como deveria ser, pela sua importância. Eles também não estudam e não pesquisam...O desajustamento social requer cada vez mais a presença do assistente social, mas este encontra uma barreira pesada porque a sociedade está se desiludindo...O assistente social vai muito longe e o homem pode atuar em campos mais perigosos...”

5. JOSÉ RIBAMAR SOARES AFONSO. Graduou-se em 1962, mas não exerceu a profissão. É advogado. Como aluno, foi presidente do Diretório Acadêmico “Mary Rochamond”em 1961: “Não exerci porque não havia valorização profissional. Hoje, a profissão avançou sobre a conscientização, pela comunidade, “do que é” o assistente social. Sabe-se hoje, mais sobre a profissão...O Serviço Social é a “ante sala”do analista, do sociólogo...”.

6. JAIR CARDOSO BENARROZ. Graduou-se em 1969. Exerceu a profissão por 13 anos na Fundação Universidade do Amazonas e foi professor do Curso de Serviço Social. Hoje, é advogado: “Eu senti preconceitos. Comentavam que a profissão era feminina. Quando eu fazia o curso, diziam que era um curso feminino, o salário era baixo e o mercado de trabalho era reduzido...O Serviço Social é uma profissão importante, que deveria merecer um espaço em qualquer repartição (privada ou pública), considerando a formação acadêmica do Assistente Social e os estágios do curso. Lamentavelmente a profissão, na minha ótica, na minha ótica, não é valorizada. O Poder Público, de maneira geral, aceita a inclusão do Assistente Social nos setores da produção de serviços assistenciais, quando poderia colocá-lo nos planejamentos. Na área privada, o empresário desconhece a importância profissional do Assistente Social. A sociedade sempre necessitará do Assistente Social. Em primeiro lugar, porque todos somos diferentes. Em segundo lugar, os problemas de caráter social sempre existirão e o assistente sócia deveria atuar neste campo junto com outros profissionais”.

7. ALOISIO LEAL DE SOUZA. Graduou-se em 1982. Trabalha no Der-Am – Departamento de Estrada de Rodagem do Amazonas, há três anos: “Não é uma profissão rentável e, em muitas ocasiões, você se desgasta muito. Não é um curso muito acreditado no Serviço Público, mas tem um vasto campo de pesquisa e projeto. Você é mais valorizado por outros profissionais. O assistente social é um profissional que atua por vocação, com amor próprio. Não é uma profissão não que deva ser exercido por quem não tenha vocação.”

8. CARLOS ALBERTO LOUREIRO PINAGÉ. Graduou-se em 1974, mas não exerceu a profissão. Ao ingressar no curso, via vestibular, já era Bacharel em Direito. “A profissão de assistente social é promissora. Todavia, não é reconhecida (principalmente em Manaus) pela estrutura do Estado. A sociedade precisa de assistentes sociais porque vivemos em desigualdade social e em estado de abandono. Conclui o curso mas não requeri meu registro profissional porque eu era Promotor de Justiça e atuava na comarca de Humaitá.

9. PAULO DOS ANJOS FEITOSA. Graduou-se em 1951. Exerceu a profissão por quatro anos no Serviço Social da Indústria e fez curso de especialização na Escola de Serviço Social, na cidade de Natal, Estado do Rio Grande do Norte. Deixou a profissão, ingressou na Faculdade de Direito e, pois, seguiu a carreira da magistratura no Tribunal de Justiça do Amazonas e hoje é desembargador aposentado: Deixei de exercer a profissão porque não havia prestígio, o salário era muito baixo e eu precisava dar condições à família. A natureza do trabalho social me agradava muito. Eu fui convidado para trabalhar no SESI. Por isso, decidi fazer serviço social. A profissão cresceu muito e hoje a gente sente a influência a influência do Serviço Social nas relações empregado/empregador. Hoje, há mais mercado e mais prestígio. É preciso dar mais espaço ao assistente social. Hoje, o assistente social funciona como um advogado para harmonizar o conflito social.

10 AMBRÓSIO COHEM ASSAYAG. Abandonou o Curso de Serviço Social em 1960. Tentou fazer outros dois cursos de nível superior, mas os abandonou também. Hoje, é empresário: Havia preconceito, sim. Diziam que exercer Serviço Social era caracteristicamente emprego de mulher e tirava a masculinidade do homem. Seguramente é uma das mais importantes profissões do setor de relações humanas. É impossível não ter um Assistente Social para mediar essas questões. Ela tem um parâmetro com a odontologia: todo mundo sabe da importância do dentista mas privilegia o médico. Além disso, o assistente social não é chamado de doutor e nós vivemos a síndrome do doutor... Hoje, mais do que nunca, precisamos de assistente social porque quanto maior é o problema social de um povo, maior a necessidade de pessoas qualificadas para tratar dos problemas sociais”.

11 FÁVIO DE PAULA FIGLIOULO. Graduado em 1953 e foi transferido para o Rio de Janeiro, onde seguiu os cursos de Direito e Administração de Empresas.”Hoje o Serviço Social tem mercado e a instrução que o curso oferece dá mais condições de projeção profissional. Na área da industrial, tem uma posição definida e é uma profissão que discerne as coisas. O assistente social tem que ser visto como um espelho que reflete e orienta.”

12 JOSÉ ROBERTO CÉSAR M. CARVALHO. Graduou-se em 1991 e exerce a profissão há três anos no IEBEM – Instituto Estadual do Bem Estar do Menor, em Manaus: “Eu sinto preconceito...As pessoas vêm com espanto e admiração um homem assistente social...A profissão de assistente social não tem um papel definido dentro das relações sociais. Acredito que esta indefinição esteja na ação direta do Estado, na manipulação das políticas sociais...Infelizmente a profissão não é valorizada porque, por ser uma atividade na área social, qualquer pessoa que pratique ajuda em qualquer nível assistencialista, passa a considerar-se “um assistente social”...O Estado não valoriza a profissão porque não existe um política social séria. O que o Estado faz é puro assistencialismo. Não há vontade política de levar à sério para solucionar os problemas sociais...”

13 HUGO MÁRIO TAVARES. Abandonou o curso de Serviço Social para ser professor de Administração em Serviço Social, na Escola de Serviço Social de Manaus. Ao ingressar no curso na Escola, já tinha graduação em Economia, Administração de Empresas e Contabilidade, todos os cursos feitos fora do Amazonas: “Eu já tinha três cursos superiores e queria aumentar meus conhecimentos. Mas fui convidado pelo desembargador André Vidal de Araújo para ser professor de Administração na Escola. Aí tive que deixar de ser aluno para dar aula para os meus colegas...O mercado de trabalho era pequeno, mas eu sentia falta do serviço social nas empresas. As questões sociais exigem a presença do assistente social nas empresas. As questões sociais exigem a presença do assistente social. É preciso pressionar para abrir mais mercado para o serviço social...Eu presumo que ingressei no curso porque seria uma ampliação de minhas profissões...Em relação a outros cursos e nível superior, a valorização do serviço social é muito pequena. O Estado paga muito mal, embora o assistente social tenha importância no contexto geral da sociedade...”

CAPÍTULO IV

4. ANÁLISE E INTERPRETAÇÃO DOS DADOS DA PESQUISA

Com respaldo no referencial teórico abordado nos capítulos anteriores, analisaremos os caminhos percorridos pelos homens que cursaram Serviço Social, em Manaus, a partir de 1941, quando aconteceu a formatura da primeira turma de alunos da Escola de Serviço Social de Manaus, criada um ano antes.

Os dados foram obtidos através da aplicação d questionários, observações diretas, entrevistas e análise documental, permitindo a obtenção de informações sócio-econômica-cultural e política. Em nossa pesquisa de campo, identificamos 138 homens que cursaram Serviço Social, em Manaus, a partir de 1941. Desse total, aleatoriamente, elegemos 10% e os entrevistamos.

De acordo com os dados da pesquisa, fica claro que havia outra forma de ingresso no curso de Serviço Social, nos primeiros anos de funcionamento da Escola de Serviço Social de Manaus. Essa outra forma de ingresso, “era o convite” feito pelo criador da Escola, André Vidal de Araújo, quando ele próprio aplicava um teste de conhecimentos gerais. Outros passavam apenas por entrevistas e tinham avaliadas as suas notas obtidas em cursos regulares em nível de segundo grau.

André Vidal de Araújo, o criador da Escola, era descrito pelos que o conheceram como uma “pessoa cativante” e teria influenciado, com o seu carisma a escolha da profissão por muitos alunos:

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Tabela 1

Forma de ingresso no curso de Serviço Social

Evento f %

Vestibular 8 62

Outro meio 5 38

Total 13 100

Fonte: pesquisa realizada com os assistentes sociais masculinos em Manaus, em dezembro de 1994.

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Criado em 1940, o Curso de Serviço Social é o segundo mais antigo de Manaus e o terceiro do Brasil. O primeiro, de Direito, era disputado pelos filhos de famílias com um elevado poder aquisitivo. Era inacessível à maioria. Essa dificuldade e a falta de outros cursos geraram a opção pelo Serviço Social. Contudo, alguns alunos dos oriundos de outros cursos superiores, realizados fora de Manaus, decidiram fazer Serviço Social como forma de conhecer a profissão. A inexistência de concurso vestibular e, sim, a aplicação de uma aprova de conhecimentos gerais, o que poderia tornar o ingresso na Escola mais fácil, não atraiu muitos alunos. O ingresso no curso dava-se por falta de opção e por influência pessoal do criador da Escola, André Araújo. Alguns dos entrevistados disseram que, em alguns casos, “o

professor André” os apanhava em casa e os levava para a Escola:

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Tabela 2

Que razões o levou a ingressar no Curso de Serviço Social, em Manaus?

Eventos f %

Era o mais fácil 1 8

Não havia opção 6 46

Outros motivos 6 46

Total 13 100

Fonte: pesquisa realizada com ao assistentes sociais masculinos em Manaus, dezembro de 1994

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Dos alunos que ingressaram no curso de serviço social, muitos desistiram antes de concluí-lo, por já serem possuidores de diploma de nível superior. Um desses alunos (Hugo Mário Tavares), por já ter duas formações de nível superior, cursadas fora do Amazonas, foi convidado pelo diretor da Escola, André Vidal de Araújo, para deixar a sala de aula e tornar-se professor de seus antigos colegas de sala, ministrando a disciplina “Administração em Serviço Social”. Outros alunos, devido a transferência de suas famílias para outros Estados, também não conseguiram concluir o curso (ver tabela 3).

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Tabela 3

O senhor concluiu o curso de Serviço Social, em Manaus?

Eventos f %

Concluíu 10 77

Não concluiu 3 23

Total 13 100

FONTE: Pesquisa realizada em 1994, com os Assistentes Sociais Masculinos

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Dos alunos que concluíram o curso, 80% exerceram a profissão. Embora não tenha sido objeto da pesquisa saber o período, onde se deu essa atividade ou quantificá-la, nos foi possível detectar que alguns logo após a conclusão do curso, fizeram vestibular para seguir outra carreira. Mesmo os que exerceram por maior tempo, também, alguns destes optaram por outra profissão. O preconceito contra “homem assistente social”, existia(ver tabela 6), mas este não foi o fator influenciador da mudança da profissão. Conforme se observa na tabela abaixo, o que levou a muitos assistentes sociais a abandonarem suas carreiras foi a própria “desvalorização da profissão”.

Tabela 4

Se o senhor abandonou a da carreira de assistente social, por qual foi o motivo?

Evento f %

Desvalorização da profissão 6 50%

Falta de prestígio 1 8

Falta de autonomia 1 8

Falta de mercado 2 17

Não informou 2 17

Total 12(.) 100

FONTE: Pesquisa realizada com ao assistentes sociais masculinos em Manaus, em 1994

• Resposta em aberto, não obrigatória.

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O Estado, na opinião da maioria dos assistentes sociais, na opinião dos assistentes sociais, não valoriza a profissão, embora ele a legitime. Os profissionais masculinos que exerceram a profissão em Manaus garantem que a profissão não é valorizada em termos financeiros. Os baixos salários são, portanto, a razão principal para o abandono do exercício profissional e à busca de novas formações. Os homens, por razões diferentes, mas a manutenção de suas famílias é uma das principais, não aceitam os baixos salários. Dentro do Aparelho de Estado, a profissão de Assistente Social é vista como apêndice de outras profissões. Essa verdade é agravada, ainda, pela discriminação profissional entre os profissionais de nível superior, principalmente em termos salariais. Dentro de um quadro de ganhos, o assistente social é sempre o que ganha menos, de qualquer outra profissão de nível superior. Às vezes, ganha até menos que um técnico, que não precisa ter formação qualificada de anos de duração.

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Tabela 5

Existe valorização da da profissão de assistente social social em Manaus, pelo Estado?

Evento f %

Valorizada 3 23

Desvalorizada 8 62

Não informou 2 16

Total 13 100

FONTE: Pesquisa realizada com os assistentes sociais masculinos em Manaus, em 1994.

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De acordo com registros no Livro de Matrícula de Alunos, da Escola de Serviço Social de Manaus, de 1941 a 1971, quando a Escola passou à pertencer oficialmente à Fundação Universidade do Amazonas, 138 homens cursaram serviço social; ou seja, se o período de 30 anos for dividido pelo 138 homens, equivale a um resultado de 0,2173 alunos por turma. Contudo, como mais na frente veremos, o número de homens matriculados ultrapassava ao de mulheres, principalmente no início da implantação da Zona Franca de Manaus. Mas esse é um assunto que será tratado posteriormente. Do total de 138 alunos que concluíram o curso, só encontramos 28 Trabalhos de Conclusão de Curso. A razão é que alguns, depois de formados, ou não apresentavam o TCC ou os entregariam posteriormente e não há qualquer registro nos livros da Escola. A baixa predominância de homens no curso, não está diretamente relacionada à existência de preconceitos aos assistentes sociais masculinos, mais ao pagamento de baixos salários aos profissionais, depois de formados, à falta de prestígio e à falta de autonomia (ver tabela 4).

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Tabela 6

Preconceito

Existe preconceito contra o exercício profissional do assistente social masculino?

Preconceito f %

Sim 6 46

Não 6 46

Não percebeu 1 8

Total 13 100

FONTE: Pesquisa realizada com os assistentes sociais masculinos em Manaus, em 1994.

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Na opinião dos assistentes sociais pesquisados, Manaus não é uma cidade machista, mas já foi em período bem recente de sua história. Diante disso, os assistentes sociais masculinos responderam de forma dividida: para 46% existe preconceito; para outros 46%, não existe preconceito contra o homem assistente social, depende do ponto de vista que se faça a análise. O desaparecimento do machismo é consequência de uma evolução histórica da sociedade e das conquistas femininas no mesmo período pesquisado. Hoje, garantem os assistentes sociais masculinos, Manaus é uma cidade que oferece oportunidades iguais para homens e mulheres em vários campos profissionais. Em nossa pesquisa, tentávamos identificar o possível vínculo entre o machismo e o preconceito. Como o machismo não está presente (tabela 7), o preconceito passa a ser uma situação isolada, não havendo qualquer relação com a questão cultural histórica.

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Tabela 7

Existe machismo na cidade de Manaus?

Evento F %

Sim 3 23

Não 9 69

Não informou 1 6

Total 13 100

FONTE: Pesquisa com os assistentes masculinos em Manaus, em 1994

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Depois de abandonarem o serviço social pelas razões já expostas nesta pesquisa, os assistentes sociais seguiram as seguintes profissões, todas ais rentáveis economicamente e com mais autonomia e status na época. Das várias profissões seguidas pelos assistentes sociais, à Formação em Direito teve maior prevalência (53%).

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Tabela 8

Depois que o senhor abandonou o serviço social, que carreira seguiu?

Eventos f %

Advogado 7 53

Economista 1 8

Administrador 3 23

Contabilidade 1 8

Pedagogo 1 8

Total 13 100

FONTE: Pesquisa com os assistentes sociais masculinos em Manaus, em 2994

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“Conhecer bem a profissão”. Esta foi a principal resposta dos entrevistados. É natural essa definição. A profissão, mesmo inserida na força de trabalho como mercadoria também, tem um componente técnico importante (Ver tabela 9):

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Tabela 9

Quais as qualidades que o senhor aponta como indispensáveis para o profissional de Serviço Social? (respostas abertas)

Eventos f %

Conhecer bem a profissão 6 28

Ter vocação 4 16

Ser humanista(...) 4 16

Ter índole ilibada 3 12

Gostar da profissão 2 8

Ser humilde 1 4

Ser sincero 1 4

Não se envolver 1 4

Não ser paternalista 1 4

Ter equilíbrio social 1 4

Total 24 100

FONTE: Pesquisa com os assistentes sociais masculinos em Manaus, em 1994

(...) O espírito humanista tem origem na doutrina social de Igreja, em uma linha tomista (São Thomás de Aquino).

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4.3. PERFIL DAS FAMÍLIAS DOS ASSISTENTES SOCIAIS PESQUISADOS

Os assistentes sociais, formados em Manaus, pela Escola de Serviço Social criada por André Vidal de Araújo, eram em grande parte originários do Nordeste, atraídos que foram para as riquezas da borracha, em 1900. População inteira do Amazonas era de 363.166 habitantes (dados do Censo) e, a de Manaus, 106.399 habitantes. Em 1940, quando foi criada a Escola, havia uma formação cosmopolita na cidade, sendo 64.824 pardos; 38.585 brancos; 2.273 negros, 86 amarelos e 272 não declarados. Em todo o Amazonas, em 1940, residiam 438,008 habitantes.

As famílias que fugiram da seca do Nordeste e se encontraram com a riqueza da borracha, sofreram influência dessa mistura de raças existentes e, para piorar, desconheciam qualquer tipo de controle de natalidade. Ao contrário, tinham uma prole sempre muito numerosa porque diziam com freqüência, “onde come um, comem dez” e também “minha riqueza são meus filhos”. Portanto era compreensível e normal se encontrar famílias numerosas naquela época, com alta renda para sustentá-la, como constataremos a seguir. Com relação ao grau de escolaridade dos pais dos assistentes sociais, também é compreensível o fato de 70% terem apenas o 1. Grau. Naquela época, havia poucas escolas; poucos cursos superiores e, além disso, havia a cultura “pai analfabeto; mas, filho doutor”. Os 39% de entrevistados que informaram que a renda de suas famílias era de até 10 salários mínimos, também é compreensível, pois eles se enquadram dentro 47% das famílias constituídas de 10 a 15 filhos. Com as conclusão da pesquisa, podemos afirmar, com toda a certeza, é que todo amazonense tem sempre como formação de sua raça uma mistura de sangue nordestino, ou negro, ou amarelo, ou branco, embora os pesquisados (47%) tenham se declarado do Amazonas. Mas quando questionados informalmente, quase 100% informaram ter algum parente direto que veio para o Amazonas atraído pela riqueza da borracha. Com isso, seguramente, não existe uma raça pura no Amazonas, mas sempre uma miscigenação dessas raças que convivam com os caboclos do mistura de sangue de nordestinos com os índios ou outras raças existentes no Estado. Vamos aos dados sócio-econômico e cultural das famílias dos assistentes sociais entrevistados, nas tabelas 10, 11, 12 e 13:

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Tabela 10

Composição das famílias

Eventos

(faixa de pessoas) f %

De 1 a 5 4 30

De 5 a 10 3 23

De 10 a 15 7 47

Total 13 100

FONTE: Pesquisa realizada com os assistentes sociais masculinos em Manaus, em 1994.

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Tabela 11

Renda familiar em salários da época

Eventos (em salário mínimo da época) f %

De 1 a 3 1 8

De 3 a 6 4 30

De 6 a 9 5 39

Mais de 10 5 39

Mão informou 5 23

Total 13 100

FONTE: Pesquisa realizada com os assistentes sociais masculinos em Manaus, em 1994

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Tabela 12

Grau de Instrução dos pais dos assistentes sociais entrevistados.

Eventos (em instrução dos pais) f %

Analfabeto 0 0-

1º Grau 9 70

2º Grau 2 15

Nível superior 2 13

Total 13 100

FONTE: Pesquisa realizada com assistentes sociais masculinos em Manaus, em 1994

Tabela 13

Origem das famílias dos assistentes sociais entrevistados

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Eventos f %

Manaus (*) 6 47

Interior do Estado 3 23

Outros Estados* 5 30

Total 13 100

FONTE: Pesquisa realizada com assistentes sociais masculinos em Manaus, em 1994

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(*) Em conversa informal com os entrevistados, pude observar que todos tinham ascendência nordestina (pai, mãe, avô ou avó tinham vindo sobretudo de Fortaleza ou outros Estados do Nordeste atraídos pela febre da produção de látex no Amazonas.

CAPÍTULO V

ANDRÉ VIDAL DE ARAÚJO: O HOMEM, O HUMANISTA, O SOCIAL

ANDRE VIDAL DE ARAÚJO nasceu em 13 de outubro de 1898 na cidade pernambucana de Goiana e faleceu em Manaus no dia 15 de março de 1975 – Dia do Professor.

Araújo Filho, quando decidiu residir no Amazonas, trouxe toda a família constituída de várias filhas mulheres e três filhos homens. André Vidal de Araújo era o mais velho. Ruy Araújo, que se destacou na política do Amazonas como deputado estadual e, por várias, deputado federal pelo Amazonas, era um ano mais novo do que seu irmão Martim Francisco de Araújo, que falecera logo depois de chegada da família ao Amazonas.

Em toda sua trajetória de vida elegeu como seu valor maior, o ser humano. Para ele, as coisas só ganhavam valor na medida se relacionassem com o homem. Era um humanista no sentido mais primário da palavra. André Araújo era um leitor de São Tomas de Aquino.

Com isso, ele via o ser humano como o centro da criação. Suas leituras se encaminhavam nesse sentido. Lia os clássicos, pensadores católicos e os filósofos gregos. Isso vez com que ele, em toda a sua vida, se despojasse dos bens materiais. Como desembargador do Tribunal de Justiça do Amazonas, fazia questão de usar camisas costuradas pela sua esposa e companheira de ideais, a professora Milburges Araújo. Seus sapatos, usava-os até acabar e se roupas ou sapato lhes fossem dados pelos seus filhos, crescidos e já formados, ainda assim preferia seus sapatos velhos. André Araújo achava que a pobreza podia engrandecer o homem se fosse vivenciada porque, em sua opinião, o poder e o dinheiro deformavam a personalidade do ser humano.

O menino André Vidal de Araújo era filho do jurista Francisco Pedro de Araújo Filho. Araújo Filho decidiu morar no Amazonas para fugir de injunções políticas em sua cidade natal. Com Araújo Filho, aportaram outros juristas que se tornaram famosos, como Artur Virgílio do Carmo Ribeiro e Sadoc Pereira, ambos se tornaram desembargadores do Tribunal de Justiça do Amazonas. Acompanhou-o também à Manaus, outro ilustre homem, João Corrêa

André Araújo cresceu em um ambiente tranquilo. Do pai, latinista erudito, aprendeu lições. Araújo Filho, embora tenha feito uma brilhante carreira de jurista, não quis ingressar na magistratura.

O filho André Vidal de Araújo também não desejava seguir a carreira do pai. Desejava ser engenheiro. Era muito habilidoso com as mãos e achava que poderia ser um excelente engenheiro.

Conhecendo o desejo do filho pela engenharia, curso que não era ministrado em Manaus, começou a guardar dinheiro para isso.

Contudo, um roubo mudou os planos do jovem André Araújo. Sem dinheiro, como sustentar seus estudos fora do Amazonas? Impossível! Sem condições de fazer uma opção livre (a Universidade Livre de Manaus já começava a desmoronar com os cursos de Farmácia, Odontologia e Direito), restou-lhe ingressar na Faculdade de Direito. Este curso, ao menos, preenchia sua vocação pelo humanismo. Como aluno, foi impecável e um exímio orador. Recebeu o Diploma de Bacharel em Direito, com destaque. Logo em seguida, prestou concurso para o Ministério Público e foi aprovado. Mas desistiu da carreira de promotor para ingressar na judicatura.

Como juiz, André Vidal de Araújo atuou em praticamente todos os municípios do interior do Amazonas, mas antes ingressou no Ministério Público e só depois ingressou na magistratura. Enquanto André Vidal de Araújo desenvolvia suas atividades judicantes no interior, em Manaus o interventor do Estado, Nelson de Melo, colocou em disponibilidade todos os desembargadores. Isso não abalou o trabalho desenvolvido por André Araújo.

Mas só a judicatura não o satisfazia mais. Era preciso despertar, além da judicatura, o seu lado humanista, humanista que estava adormecido dentro dele. Decidiu, com o apoio de sua esposa e professora Milburges Araújo, dar aula também. E assim o fez. Começou a exercer também o magistério. Em alguns municípios, só o juiz André Araújo e a esposa do juiz, Milburges Araújo, eram os únicos professores que existiam no município.

Bacharel em Direito, André Vidal de Araújo exerceu função de Promotor de Justiça no Ministério Público e depois ingressou definitivamente na carreira da magistratura.

Ainda era necessário algo mais: então, por onde passou, passou a mostrar ainda mais seu lado humanista. Aproveitando suas tardes livres e, com a ajuda da comunidade construiu escolas, contando com a ajuda de sua esposa e o tempo disponível dos moradores. Ao trabalho iniciado por André Araújo se juntaram depois os padres dos municípios. As escolas foram construídas em regime de multirão.

Hoje, muitas dessas escolas ainda existem e são as mais importantes no município. É o caso do Instituto Araújo Filho, em homenagem ao seu pai, em Parintins e, em Manacapuru, a primeira e mais importante Escola construída por André Araújo anda existe.

A Cruzada pela Educação, como André Araújo batizou seu trabalho, implantou mais de 200 Escolas nos municípios do Amazonas, sem qualquer verba pública.

Como juiz na cidade de Manacapuru, André Vidal de Araújo se encantou com dois garotos, considerados por ele como muito inteligentes e talentosos. Os trouxe para Manaus. Custeou seus estudos, um, filho de um padeiro, matriculou-o no Colégio Dom Bosco e outro, filho de outro, amigo foi matriculado no Colégio Estadual. O primeiro garoto, Henoch da Silva Reis, foi Ministro do Federal de Recursos e depois foi indicado pelo Governo Militar para Governador do Amazonas. O outro, Carlos de Almeida Barroso, mais tarde foi professor da Escola de Serviço Social de Manaus, a primeira do Estado e a terceira do Brasil, foi professor e diretor do Colégio Estadual (Gynnasio Amazonense) e, ao falecer no Rio de Janeiro era presidente da Associação Brasileira das Academias de Letras.

O juiz André Vidal de Araújo ainda estava trabalhando como juiz no interior do Estado quando ocorreu o Estado Novo de Getúlio Dornelles Vargas, em 1930. Álvaro Botelho Maia foi escolhido pela Assembléia Legislativa do Estado como interventor federal de Getúlio Vargas para administrar o Amazonas.

O interventor, seguindo as idéias do juiz André Vidal de Araújo criou o Juizado de Menores pela Lei n. 18, de 21 de setembro de 1935, o primeiro do Estado e um dos primeiros do Brasil. No Rio de Janeiro, Melo Mattos já havia criado um. O juiz André Araújo foi convidado por Álvaro Maia para assumir a direção do juizado. Aceitou e passou a residir em Manaus.

Mais uma vez, André Vidal de Araújo se colocava frente à frente com sua vocação humanista, pois iria trabalhar em uma Vara de Menores com grande humano e social. Nesta função, revelou mais uma vez sua vocação para o social.

De Álvaro Maia, recebeu uma parte do prédio da Penitenciária Central do Estado, fazendo frente para a Rua Duque de Caxias. Embora não tenha gostado muito do local, André Araújo criou no local a Agro-Escola Melo Mattos, em 1937, para menores delinquentes, abandonados, mas em moldes muito humanistas. E esse fato foi tão significativos que os seus filhos – João Bosco, Platão Araújo e Martim Araújo – iam brincar de manja, barra bandeira e de bola com os internos da Agro-Escola, que tratavam André Araújo pelo diminutivo de pai, “paim” como também seus filhos o chamavam.

Em 1945, André Araújo cria uma instituição semelhante para meninas abandonadas, carentes e semi-prostituídas, a Escola Premonitória Bom Pastor, mais conhecido como Instituto Maria Madalena, ampliando ainda mais seu trabalho com a infância e a adolescência.

Animado com os resultados positivos de seu trabalho, amplia-o ainda mais e cria o Circulo Operário de Manaus, predecessor da Previdência Social no Amazonas, criada mais tarde pelo Estado Novo de Vargas. Os operários das fábricas de beneficiamento de borracha, sova, balata etc., pagavam uma pequena contribuição mensal e recebiam uma pensão, assistência médica, aposentadoria etc., coisas que a Previdência Social passou a fazer mais tarde.

Criou, ainda, Creche Circulista Menino Jesus, até hoje em funcionamento na Avenida 7 de setembro, destinada a abrigar os filhos das operárias que trabalhavam nas fábricas de beneficiamento de produtos extrativistas. Às crianças, eram prestadas assistência médica, dentária, alimentícia e educacional.

O trabalho social realizado por André Vidal de Araújo fica cada vez mais ampliado mais ainda não o satisfazia plenamente, Então, ele adquiri um sítio no bairro Adrianópolis e decide construir no local o Instituto Montessorano Álvaro Maia, inspirado na pedagoga Maria Montessori. Como não havia bairro que o limitasse, o sítio foi sento ampliado seguidamente. Moravam em Adrianópolis, nessa época, famílias que se tornaram tradicionais no Amazonas: Adriano Jorge, Dr. Thomas, Martins, Monassa e Daou, além de outras não menos importantes.

No Instituto Montessoriano Álvaro Maia, André Araújo começa o seu grande trabalho de educação, em moldes concretistas: mandou construir no jardim que havia em seu entorno, um relevo terrestre com lagos, montanha, rios etc., para o ensino de geografia. Com o auxílio do Governo do Estado, que pagava professores e lhes propiciava cursos de especialização em educação de surdos–mudos, fora do Estado Suas filhas, Rita Araújo (esposa de Umberto Calderaro Filho) especializou-se em trabalho com surdos-mudos e fez estágio com padre redentorista Eugênio, um do maiores especialistas no assunto, e Tereza Araújo, que especializou-se em método braile e as duas deram aulas no Instituto.

Todo o trabalho do Instituto era mantido com a contribuição mensal através de um carnet. de comerciantes como J. G. Araújo, J. Rufino, J. S. Amorim, a ajuda de comerciantes do Mercado Municipal Adolfo Lisboa, que lhes dava alimentos e outros gêneros alimentícios, membros ilustres da sociedade e com a ajuda do Governo do Estado.

Ajudado pelo surdo mudo Moacir, usando uma carroça puxada por um só cavalo, diariamente André Araújo percorria os comerciantes do Mercado Adolfo Lisboa recolhendo doações de alimentos. Não há notícias de que um só comerciante tenha se recusado à contribuição.

André Araújo assume o posto máximo da magistratura. Como desembargador, cumpria as formalidades judicantes e as vezes dava sentenças eu não eram consideradas ortodoxas porque ele sempre contemplava muito o lado social em suas sentenças. Como escrevia e argumentava muito bem, muito bem decidia contra os textos legais, colocando sempre motivações humanas e sociais dentro de suas sentenças de mérito. Isso o tornou o desembargador maio deslocado dentro da ortodoxia do Tribunal.

Mas, apesar disso, André Vidal de Araújo não abandonou suas obras sociais e percebeu que elas não poderiam mais ser realizadas de forma amadorísticas.

Ele já tinha conhecimento do surgimento de uma nova profissão nos Estados Unidos, a de trabalhador social, mais tarde conhecida como Assistente Social.

Começou a levantar dados sobre a nova profissão e constrói, em 1940, a Escola de Serviço Social de Manaus, a primeira do Amazonas e a terceira do Brasil.

Com a ajuda financeira da Legião Brasileira de Assistência, criada no Governo Vargas e presidida em Manaus por Helena Araújo, esposa do deputado federal pelo Estado , Ruy Araújo, seu irmão, constrói em um terreno de sua propriedade a obra física.

Depois, com a ajuda do frei Pio, constrói o Museu Amazônico e expõe uma coleção de máscaras e flechas de índios da etnia ticunas.

Na Escola de Serviço Social de Manaus, ministraram aulas Henock da Silva Reis, Carlos de Almeida Barroso, os dois garotos que André Araújo os trouxe de Manacpuru para estudar em Manaus e, ainda, Nário Ypiranga Monteiro, João Corrêa, Sadoc Pereira, Artur Virgílio do Carmo Ribeiro, Raimundo Said, mas nenhum recebia dinheiro por isso. E ainda havia na Escola, como administrativas, duas negras Sofia e Vitória, que eram remuneradas.

A Escola de Serviço Social de Manaus foi reconhecida com a ajuda de seu irmão, Ruy Araújo, deputado federal pelo Amazonas, que conseguiu trazer a Manaus, representantes do Ministério da Educação e Cultura – MEC. Dessa comissão de inspetores do MEC fez parte também, o professor Agenor Ferreira Lima, que representava o órgão em Manaus.

Reconhecida, a Escola de Serviço Social passa a receber recursos do Governo Federal e, depois de todos os pagamentos realizados, se permanecia ainda dinheiro em caixa, André Araújo se excluía, reunia os demais funcionários e anunciava: “ainda temos tantos contos de reis, nós somos tantos. Tantos dividindo por tantos é igual a tantos reis para cada um” e os entregava o que já estava separado para todos os professores e demais funcionários da Escola.

Com o reconhecimento do Curso de Serviço Social, o Amazonas passou a ter dois cursos superiores reconhecidos pelo MEC. Mais tarde, surgiu o curso de enfermagem, da Escola de Enfermagem de Manaus, ligada ao Ministério da Saúde.

Em 1965, é implantada a Fundação Universidade do Amazonas. André Araújo, come;a a se preocupar com a perenidade do curso da Escola de Serviço Social de Manaus. Em 1967, durante a reitoria de Jauari Marinho, apresentou uma proposta de compra da Escola de Serviço Social de Manaus.

“Eu sou contra. Neste momento, proponho a doação à FUA inteiramente grátis. Sou pedir que a Universidade respeite o direito de todos que trabalharam aqui por tanto tempo, e de graça!” teria dito André Araújo durante reunião com todos os professores e funcionários da Faculdade de Serviço Social de Manaus. E essa resposta foi repassada à FUA.

Na administração do reitor Aderson Dutra (1970-76), a Escola de Serviço Social de Manaus foi incorporada ao acervo da FUA e o curso de Serviço Social foi transferido de seu antigo endereço. O local precisava de uma reforma em seu telhado, mas isso nunca aconteceu e hoje só restam ruínas no local.

O homem André Araújo, extrovertido, brincalhão, dono de um humor impressionante, capaz de fazer e contar piadas, sempre acessível às novas idéias, apaixonado pelo trabalho e pela sua biblioteca de 35 mil volumes, prossegue sua vida como desembargador e decide entrar na política.

Em 1950, lança-se candidato ao Governo do Estado. O seu amigo Álvaro Maia, morando no Rio de Janeiro, em total ostracismo político, decide voltar para Manaus. André Araújo, então, desiste de sua candidatura e indica Álvaro Maia em seu lugar como candidato. Faz isso em praça pública, sem consultar a ninguém. Os amigos, surpresos com o fato, o lançam candidato a deputado federal ao lado de seu irmão, Ruy Araújo. Abertas as urnas, Álvaro Maia é eleito governador, André Araújo é o mais votado para a Câmara Federal e Ruy Araújo também foi eleito. Licenciou-se do Tribunal, onde ainda era desembargador para assumir o mandato político.

Como deputado federal, levou um esboço do que ele achava ser um Código de Menores moderno, revolucionário, educativo e não policialesco para ser aprovado na Câmara dos Deputados, depois no Senado da República e ser sancionado pelo presidente Getúlio Vargas, que prometeu apoiá-lo durante essa tramitação.

Como Getúlio Vargas não apoiou, André Araújo decidiu ir à Tribuna, fez um discurso de renúncia, voltou à Manaus e se lançou, de novo, candidato a deputado estadual, mas foi derrotado. Os líderes do PTB, Plínio Ramos Corrêa, Gilberto Mestrinho, Artur Virgílio do Carmo Ribeiro Filho e Áureo Melo, o consideravam remanescente do péssimo governo de Álvaro Maia.

Derrotado, reuniu a família e disse que a sua derrota era um sinal de que a política não era seu caminho e decidiu reassumir seu cargo vitalício de desembargador, onde permaneceu até sua morte.

O pai André Araújo, em família, era um homem rigoroso nas questões morais, mas nunca autoritário. Sobre as moças que vinham do interior para trabalhar morar em sua casa: “respeitem essas moças como se fossem irmãs de vocês. Não admitirei que um filho meu se prevaleça do fato de ser filho do dono da casa para abusar de uma pobre moça”. Depois, ele continuava a reunir e conversar, todos juntos. Os filhos emitiam opiniões, objetivavam mais isso era feito sempre em total harmonia.

O homem André Araújo sempre foi uma pessoa simples. Viveu em dificuldades financeiras e, ao morrer, deixou apenas uma casa, comprada financiada pelo Banco Popular de Manaus, avalisada pelo seu irmão, o deputado federal Ruy Araújo. A casa custou 11 contos de réis e ele pagava 1 conto de reis, mensalmente. Durante o Governo Álvaro Maia, o salário dos funcionários públicos sempre atrasava. Passou a comprar fiado na mercearia do português Manoel das Cabaças. Tudo era anotado em caderneta, Quando saía o pagamento, André Araújo quitava seu débito.

Em 1973, o desembargador André Vidal de Araújo perdeu a esposa Milburges Araújo. Entrou em depressão. Duas vezes por semana entrava na loja de cosméticos “Recanto da Beleza”, adquiria dois vidros de água de colônia e os despejava sobre a cova da esposa. Com a morte da esposa, companheira, amiga e confidente, decidiu que seria capuchinho. Chegou a conversar com os padres sobre isso mais faleceu de enfarto no dia 15 de 1975 sem realizar seu último desejo.

A família, após sua morte tentou identificar os credores de André Araújo. Um dos credores, Sr. Barata, dono da Livraria Acadêmica, um dos únicos que se apresentou, disse: aqui na minha livraria o desembargador André Araújo não deve mais nada. E o valor do debito do homem que era apaixonado por livros – ele os comprava muito -, nunca chegou a ser revelado.

André Vidal de Araújo, ainda em vida, viu desmoronar seu maior sonho concretista: o fim do Instituto Montessoriano André Araújo. Ele não se abateu. Não tinha simpatia pelos ricos e era um admirador do nobre francês Charles de Foucaud, que após se tornar monge fundou uma ordem, abandono toda riqueza e a nobreza que possuía e morreu trucidado no deserto do Saara ...

carlos da costa
Enviado por carlos da costa em 10/10/2010
Reeditado em 11/10/2010
Código do texto: T2547970