Conheci a obra plástica de Ernesto Neto junto à entrada de uma pequena galeria paulistana de vanguarda, a Arco Arte Contemporânea em uma exposição coletiva que reunia Regina Silveira, Marco Gianotti , Artur Barrio , Carlos Bevilacqua, Monica Nador e Milton Machado, alguns já consagrados , outros iniciantes . Na época,  causou-me estranheza como escultura , aquela meia feminina de náilon  esticada desde o teto pelo peso de um lastro de pequenas esferas de chumbo, questionando-me então    do significado e aonde pretendia   o artista  chegar.
              Passados 20 anos obtive a resposta com a instalação Anthropodino, uma Site-Specific Art no Park Avenue Armory em New York. Aquela fina membrana artificial de nylon era a abertura para um mundo novo, na qual com o passar do tempo o artista nos convidou a adentrar, arquitetura orgânica em que o observador passa à categoria  de participante da experiência artística . Como local especifico para a instalação a escolha foi a antiga praça de armas do Sétimo Regimento de New York, já havendo ai um duplo sentido, uma vez que era conhecido como Silk Stocking Regiment  (Regimento das Meias de Seda ) pelo grande número   da elite local alistada . Ficando fronteiriço ao Museu Americano de História Natural, cuja grande atração é a coleção de esqueletos de dinossauros, forneceu o mote e o diálogo para a instalação.
               Anthropodino se expandiu em dois níveis , uma grande forma biomórfica que dialoga com o entorno , erguendo-se como visão surreal de um ser desconhecido a dezoito metros de altura, e ao nível do chão a possibilidade de penetrar nas entranhas deste animal, que pode nos devorar.  A estrutura principal é um domo, formado por inequívocas costelas ósseas articuladas em madeira compensada criando o esqueleto, recoberto em lycra que recebe os visitantes, num abrigo repleto de labirintos orgânicos de transparências e planos, aqui e ali com orifícios, dando passagem à luz e em dialogo com o exterior. Deste dorso translúcido, que recorda uma medusa gigante, descem patas, tubos convidando a entrar, tentáculos preenchidos com esferas de chumbo e outros substituídos por miçangas coloridas e especiarias diversas, cravo,cominho, gengibre, cúrcuma e pimenta preta, todos à meia altura, despertando sensações tácteis, visuais e olfativas, na volta ao ambiente materno. O tecido translúcido que as envolve amplia a sensação de suavidade táctil das meias femininas aliado às  cores rosa e azul pastel ,como convite a um tempo mítico , o da Grande Mãe.
            Como experiência de interação física e psíquica a instalação dialoga entre exterior e interior, repetindo-se na dialética leveza/peso, transparência /opacidade, suspensão/balanço, o estruturado e o corpóreo, metáforas da própria existência, da vida em eterno conflito . Ao mergulhar na instalação o observador constrói e desconstrói mentalmente experiências próprias, cada elemento interferindo noutro ,interagindo, buscando restabelecer equilíbrios, cada um com a sua linguagem, demandando uma resposta interior que as partes devem ao todo.
     Como atmosfera de vivencia é um ambiente orgânico de relaxamento utópico, já que se afasta dos violentos processos metabólicos de um organismo vivo, o que remete ao neologismo do titulo.  Anthropodinos somos nós, dinossauros humanos,  buscando no exterior, pela transcendência das relações, justificação da nossa animalidade . Como tal, esse mergulho poderia ser uma bad trip, que o artista afasta no retorno à Grande Mãe. Tudo evoca o mito de Cibele, do filho recolhido à caverna que é o útero e seio maternos.  Tal como no mito, o filho transforma-se nos galhos suspensos, agora descendentes como raízes aéreas, na nostalgia de retorno à figura materna como libido que foi sacrificado, regenerando-se no inconsciente. O uso das cores, aliado aos aromas, remete a uma identidade pré-consciente da libido com seu significado, o rosa da regeneração que acompanhado do azul é uma sublimação do desejo , processo de volta à mãe , afastando-se do fantasma do incesto e da vida animal , pela negação do dinossauro oculto .
   Reside ai a mensagem de Ernesto Neto, quando grande parte da sociedade se organiza , idealiza sua própria imagem afastando-se da experiência corpórea e desconhece então o processo organizador de nosso próprio ser. Como dinossauros evoluídos devemos organizar nossas próprias experiências, destruindo a simples apreensão dos símbolos, indo a seus significados, para entender os processos corporificados.
     Aquela pergunta que não soube formular em 1989, qual o objetivo de todas as coisas, hoje tem uma resposta. Como indivíduos Anthropodinos, vemos com órgãos que agem independentes da razão, cabendo aqui a formulação de Joseph Campbell sobre o dia da crise que separa a humanidade dos animais: “A percepção da monstruosa natureza deste jogo terrível que é a vida “, quando perdemos a inocência, e recorremos ao mito como negação do mundo.
 
Walter de Queiroz Guerreiro, Prof.M.A
Membro da Associação Brasileira e internacional
de críticos de arte (ABCA/AICA)