Relacionamento sentimental x sensorial *

Se entre os pássaros existissem pastores ou padres, seria um pecado terrível voar.

O amor sentimental, namorar, transar, sempre foi orientado, ensinado numa ideologia (ou seria uma teologia) através de relacionamento sentimental, poetas, educadores, padres e pastores radicalizaram este discurso, tornando maldito outra forma de encarar um relacionamento, criando uma fictícia divisão maniqueísta; de um lado o sublime do amor, a beleza do sentimento, do outro lado, o subproduto do amor, o sexo, a sacanagem, a putaria, a safadeza. Sim, houve muita gente que lutaram para mudar isso, tentando “rebuscar” o sexo como um divertimento amoroso, mas com viés ainda espiritual, como se fosse a alma que transa e não o corpo, para amenizar os sentimentos de culpa pelo gozo do prazer.

Não quero criticar esta visão romântica, sentimental do amor, do sexo, dos relacionamentos, pois assino em embaixo em todas suas virtudes e qualidades, talvez seja a melhor forma de relacionar,

mais profunda e sublime, mas quero defender, apontar, que existem outras formas de relacionamento, sem pensar nos relacionamentos classificados negativos: movidos a interesses econômicos, apesar de achá-los, pessoalmente, não serem negativos quando ocorrem de comum acordo e mútuos benefícios.

Em suma, minha proposta, nesta conversa, é valorizar também os relacionamentos baseados na experiência sensorial entre homens e mulheres no jogo erótico-afetivo. Falo dos benefícios da interação entre homens e mulheres (sim, que me perdoem os gays, só consigo pensar em relacionamentos entre um o homem e uma mulher, na polaridade do feminino e masculino).

Como filósofo, peço licença aos mestres que sempre negaram o valor dos sentidos para conhecer a verdade; as coisas, a maioria dos filósofos pensou “nossos sentidos nos enganam sempre”. Pelo Mundo dos Sentidos é que tocamos, sentimos a vida, as pessoas. Por exemplo, os grandes prazeres da vida neste planeta é sensorial – físico; comer, dormir, praticar exercícios, a sensação

de bem estar físico, beber, além de falar mal da vida alheia, é claro. Que relação teria entre comer e transar?

No sexo sensorial os sentidos tem um prato cheio, pelos cheiros dos corpos, as imagens da estética de cada corpo, as texturas da pele, os volumes em movimentos, os espaços percorridos, os sons do prazer, os calores dos beijos – e tudo o mais que experienciamos com o nosso corpo – é o que dá substância a nossos prazeres terrenos. Qualquer elemento que utilizamos para fantasiar, sonhar ou criar possui origem nas nossas experiências sensoriais.

Nos relacionamentos sensoriais, mantidos pelo Mundo dos Sentidos, podemos despertar uma arte da PERCEPÇÃO, desenvolver uma capacidade perceptiva, no qual a razão, o intelecto, se torna ativo, promovendo uma ativação sutil da personalidade, a atração entre duas pessoas entram em esferas de provocações intelectuais, causando experiências riquíssimas como ponto de contato entre os mundos interno(subjetivo) e externo(objetivo). Do que estou falando? Falo da atração que uma pessoa pode despertar pelo jeito que ela fala, argumenta, pela cultura que ela

tem, o tom da voz, pela sutilidade que a pessoa tem para captar certas nuances, vontades, antecipando desejos, ou despertando estados mentais diferentes(por exemplo, sendo tímida sexualmente uma pessoa, a outra pode provocar de tal forma que esta pessoa se libera, desvanecendo a vergonha, saltando para uma atitude mais ousada).

Nesta esfera de relacionamentos vislumbra-se a multiplicidade das pessoas, tipos de personalidades, diferença de idades, sociais, econômicas, se no amor romântico isso pode causar transtornos, aqui estas diferenças só potencializa as percepções.

Prós e contras: relacionamento por amor x relacionamento sensorial

No relacionamento baseado no amor, no sentimento, ocorre uma mudança de estado mental, social e de individualidade, quando se ama os caminhos se cruzam, os destinos se entrelaçam, cria-se uma dependência psicológica ente os amantes, alterando seus destinos e personalidades. A natureza deste relacionamento exige a condição da FIDELIDADE, a pessoa perde totalmente o interesse por outras pessoas, cria-se uma conexão, uma simbiose, no qual a pessoa sacia-se totalmente nesta relação. A intenção nestes relacionamentos é encontrar uma pessoa para namorar, casar, viver a vida toda com esta pessoa, quando isso não ocorre é uma decepção, um erro, “passado negro”, muita dor, às vazes a pessoa passa anos amando sofrendo até esquecer a pessoa amada. O grande problema nesta forma de relacionamentos é sua condição de existência, seu idealismo, no qual exige o encontro de “almas gêmeas”, de “sua cara metade”, nem sempre temos a sorte de encontrar tal pessoa.

Quantas pessoas passam dias, meses, anos esperando encontrar “uma pessoa que caiba no seu sonho”, abrindo mão de uma vida sexual ativa e saudável, ficam esperando, esperando. Outro problema desta forma de relacionamento são seus desencontros, quando um ama, o outro não ama, os graus de doação, de entrega, quantos não sentem sufocados, sentem mal amados. Amar altera o estado mental e de personalidade. Amar altera a liberdade de escolher o destino de vida de forma individual, pois tem que pensar e agir de acordo com dualidade do casal, em comum e mútuo interesse. Muitas vezes estamos concentrados em objetivos que exigem muita concentração e dedicação (estudos, concursos, treinamento e competições esportivas) um apego amoroso pode atrapalhar, até destruir sonhos. Conheço pessoas que tava no caminho, com um futuro promissor graças “ao amor” se perderam.

Nos relacionamentos sensoriais, perceptivos, não ocorrem aqueles estados de comunhão, de saciamento, de segurança total, no qual a pessoa encontra-se num estado de êxtase constante. Os relacionamentos sensoriais e perceptivos são efêmeros, provisórios, tempestivos. Mas não podemos cair no maniqueísmo, achando que por serem efêmeros, provisórios, são ruins, pelo contrário, suas qualidades e importâncias estão neste aspecto, nesta condição que, tais relacionamentos permitem uma abertura, uma liberdade de viver e conhecer pessoas, de interações mais livres e construtivas durante percurso de vida.

A natureza do mundo aponta para uma multiplicidade de pessoas, com suas personalidades e corpos diferentes, cada pessoa tem seus encantos, seus interesses, seus desejos e necessidades. Esta questão temporal permite uma gama de atividades. Estes relacionamentos não exigem uma pessoa ideal, uma condição ideal. As diferenças de idades entre os envolvidos, a diferença cultural, a diferença econômica, as diferenças físicas e psicológicas só aumentam o potencial de recursos para o prazer e divertimentos entre os envolvidos. Nestes relacionamentos não exigem uma mudança de estado mental e social, cada pessoa pode viver sua individualidade, seus objetivos, cada ser continua no seu caminho de vida, os encontros são apenas convergências prazerosas, desinteressadas. Tá na hora de valorizar o corpo, as emoções.

Muitos podem pensar que este tipo de relacionamentos levam a ser promíscuo, por exemplo, as mulheres são tão educadas para serem sentimentais que, em geral, valorizam apenas os relacionamentos sentimentais, quem nunca ouviu tais frases vindas das mulheres; “não vou sair dando para qualquer um”, “meu corpo não é depósito de....” entre outras frases horríveis. Existem homens mal resolvidos, quando não encontram uma mulher “certa” para amar, as outras são apenas objetos de alívio. Tais pessoas são refém do maniqueísmo do amor ou sacanagem. Por isso, a intenção deste texto é conscientizar sobre a possibilidade de relacionamentos sem amor, mas com humanidade, com beleza e respeito. A interação entre homens e mulheres tem que romper com este cinismo, esta hipocrisia da ditadura do culto ao amor, fingir que ama para transar, fingir que gosta para ficar, fingir que sente para ter uma companhia, enganar que é fiel, sendo que a maioria das pessoas, homens e mulheres traem e vão trair cada vez mais, só é fiel quando se ama, mas nem todos os relacionamentos são baseados no amor.

Será que estamos dispostos realmente a abrir mão de conhecer pessoas diferentes, de ter vários romances e envolvimentos ao longo da vida com pessoas interessantes, em momentos e lugares diferentes? A liberdade e criatividade de ficar com alguém, o estímulo de conhecer e curtir uma pessoa diferente, o prazer sensorial que oferece as personalidades(pessoas calmas, nervosas, sensíveis, firmes, doces, selvagens, intelectuais, espirituais, românticas, alegres, tristes, intuitivas, tapadas, santos, safados, pobres, ricas, nativas, estrangeiras, quietas, irrequietas, nova, velha, do interior, urbanas, jeito de pensar, falar, tocar, etc, etc, etc.), tanta multiplicidade de corpos( pessoas baixas, altas, tonalidades de peles, cortes de cabelos, loiras, ruivas, negras, brancas, morenas, magras, gordas, modos de se vestir, os mais variados formatos de bunda, seios, pênis, vaginas, pernas, bocas, pés, etc, etc, etc,).

A felicidade de celebrar bons momentos, aceitar que certos relacionamentos tem prazo de validade, que é um erro tentar prolongar uma relação, saber que aquela pessoa não serve para namorar, mas que é excelente para ficar, para ter um caso, uma aventura. Vamos celebrar a vida, as pessoas, as possibilidades de relacionamentos, amando, ficando, curtindo, amizade, sexo, em vez de esperar pelo paraíso no além, vamos celebrar o Paraíso na Terra.

Para pensar:

Se entre os pássaros existissem pastores ou padres, seria um pecado terrível voar.

*Autor João Marcos

Disponível em : http://jomasori.blogspot.com.br