Delírios Tipicamente Norte-Americanos I

ACONTECIMENTOS QUE SEMPRE MARCAM UM INÍCIO

“Pois, conforme se verifica, são grandes a ignorância e o desconhecimento da Natureza naquele que cria o Mal e o Inútil, porque é orientado por uma cabeça que carece de cérebro.”

Theophrastus von Hohenheim (Paracelso)

“...o’er the land of the free, at the home of the brave.”

“Ei, Joe, agora que acabou de cantar essa música tola, poderia dar uma olhada na horrível revolução que está acontecendo lá fora?”

“Quem são eles?”

“São os zeladores da Lei e da Ordem.”

“Dê folga a todos.”

“Mas Joe, e quem irá fazer o serviço deles?”

“Os vermes farão.”

Crimson Joe dá folga também a Clemens, que vai ao cinema assistir The Patriot. Na bilheteria encontra a Águia Americana, que está pousada no ombro do Tio Sam. Tio Sam dorme em pé, ou talvez apenas finja que está dormindo.

“Águia Americana, já viu o filme?”

“Já.”

“E gostou?”

“Um pouco limitado demais para meu bom gosto de ave de rapina.”

“E o velho Sam?”

“Foi ao taxidermista esta manhã. Fez um bom trabalho, não?”

Chlorine Clemens assiste ao filme. Come pipoca salgada com refrigerante de cocaína, vendo as aventuras de um cavaleiro sem cabeça que na calada da noite sai gritando pelas ruas da Nova Inglaterra: “Os putos estão chegando! Os putos estão chegando!” Clemens vira-se para o vizinho.

“Impressionante a coragem desse sujeito, não acha?”

“Cale-se, Clemens. Deixe-me ver o filme.”

“Joe, é você?”

“Não. Sou uma estagiária da Casa Branca.”

Na saída, ocorre uma pancadaria. Aleijados do Vietnã aplicam bengaladas em agentes do FBI. Richard Olive, o coronel homossexual, alisa um ídolo pop.

“Você é tão forte, Dean...”

“Não amola.”

“Dean, não acha que poderíamos nos casar em Las Vegas?”

“Não faria isso nem que fosse no Álamo.”

Execução do Star Spangled Banner. Dave Crockett, trepado nos telhados cheios de pombos do Capitólio, enfeita as laterais com ornamentos florais de sua autoria. Um senador o vê e ordena a um de seus carabineiros pessoais que o alvejem. Crockett despenca, produzindo ruídos de vidro quando estilhaça.

“Agora teremos de trocar todas aquelas vidraças.”

“Não se preocupe, senhor, tudo ficará bem.”

“Já chamaram o vidraceiro?”

“Sim, senhor. Virá da Guatemala no próximo trem.”

“OK. Quando chegar, provavelmente estarei no banho.”

“Tem um banho marcado para hoje, senhor?”

“Claro, homem! Amanhã é o Quatro de Julho!”

“Havia me esquecido, senhor.”

“Pois que não torne a ocorrer.”

“Perdoe-me, senhor. Não acontecerá mais.”

Parada do Independence Day. Alienígenas disfarçados de chineses com bottons da YMCA espalham AIDS com seringas hipodérmicas de insulina em saudáveis norte-americanos cheios de hambúrgueres e fritas. Velhas múmias de chapéu Stetson queimam negros com gasolina, assando nas chamas salsichas para seus hot-dogs.

“Quer mais mostarda no seu, Angus?”

“Sim. Ainda estou sentindo gosto de preto.”

A Águia Americana sobrevoa o Estado do Texas. Em Dallas, vê o Tio Sam na porta de uma tabacaria. Está vestido de índio, e tem um maço de charutos na mão. A Águia Americana pousa em seu ombro.

“Está perdendo a parada, Sam.”

(Silêncio.)

“Pode me dar um desses seus charutos fedorentos, Sam?”

(Mais silêncio.)

“Pegarei um. Foi bom conversar com você, Sam.”

A Águia Americana acende o charuto com seu isqueiro Zippo niquelado. Os Hell Angels aparecem, montados em suas poderosas Harleys, fazendo um círculo roufenho ao redor do animal. O Tio Sam não se manifesta, permanecendo estático na porta da tabacaria. O proprietário chama seu garoto para assistirem juntos à cena.

“Ei, rapazes, vejam! Não é a Águia Americana?”

“Vamos depená-la e fazer um caldo com seus ossos!”

“Não, vamos arrancar suas asas e faze-la dançar com balaços de nossas Colts!”

Os motoqueiros depenam a ave, que continua fumando. Wild Bill Hicock e Calamity Jane juntam-se a eles, tornando a coisa ainda mais interessante.

“Jane, os cowboys modernos não são muito melhores que os de antes?”

“E muito mais simpáticos, Bill. Veja o que estão fazendo com essa galinha!”

“Não é uma galinha, sua louca. É uma pomba atômica.”

Washington. Capitólio. A estátua de Lincoln levanta do mármore e caminha até o Monumento ao Soldado Desconhecido. Estaca, olhando para o obelisco de alto a baixo, com uma expressão de extremo desprezo no rosto. Toma distância, dispara e arrebenta a gigantesca agulha de alvenaria, que desmorona em pedaços a seus pés.

“Deram muito mais importância aos anônimos que a mim.”

Um mugwump sai dos escombros, espanando a poeira de seus ombros com a Constituição Americana. Está muito aborrecido.

“É melhor ser um civil conhecido que um soldado anônimo.”

Um avião seqüestrado sobrevoa a cidade de Nova York. Em seu interior, Clemens e Joe discutem onde seria o melhor ponto para derrubarem o aparelho.

“Que tal na Estátua da Liberdade?”

“Poucas pessoas, Clemens.”

“O Empire State Building, então?”

“Aquilo cairá sozinho.”

“O World Trade Center?”

“Já fizeram isso antes.”

“Ah, Joe! Aonde, então?”

“O negócio é pegar uma filial do McDonalds mesmo, Clemens. Nunca apreciei o atendimento daqueles sujeitos.”

“Você é tão esperto, Joe! Só você teria uma idéia boa dessas!”

Localizam uma na Wall Street, ao lado da Bolsa de Valores. Foi inaugurada recentemente. Clemens está eufórico. Joe trava o manche e ajeita o pára-quedas.

“Não vai ficar até o fim, Joe?”

“Você sabe que não posso. O capitão jamais afunda com o navio.”

“Isto aqui não é um navio, Joe. É um avião cheio de passageiros.”

“Pois para mim é a mesma coisa.”

Joe salta. Clemens comunica através dos alto-falantes que a viagem está no fim.

“Atenção, senhoras e senhores, dentro de alguns segundos todos nós estaremos degustando deliciosos hambúrgueres.”

As aeromoças distribuem folhetos de propostas de seguro de vida aos passageiros. Eles pegam os papéis, totalmente desinteressados. A Águia Americana passa pela janela. Norman Mailer pára de escrever em sua máquina portátil e aponta a ave, dizendo para Robert Crumb, que calmamente desenha uma tira do Mr. Natural a seu lado:

“Não é aquela águia dos emblemas da CIA?”

“Não, meu caro. Não vê que está depenada?”

“É uma águia careca por inteiro, meu amigo.”

O avião cai. Os fregueses reclamam com a gerência, que resolve não cobrar nada pelos sundaes. Os fregueses ficam satisfeitos, prometendo voltar ali outras vezes. A lanchonete transforma-se em ponto turístico, e os japoneses a comprarão na seqüência.

COMENTÁRIOS NECESSÁRIOS OU DESNECESSÁRIOS #1

A SERPENTE MARROM E SUA CURTÍSSIMA GENEALOGIA

Uma sátira metafórica a respeito do orgulho, do ideal e do sonho americanos

Sou uma grande serpente marrom. Eu vivo num poço cheio de água, tendo saído de uma porta que há no teto, dividido em duas saliências arredondadas. Eu vivo no escuro. Não sei de onde vim antes de passar por aquela porta, e não sei para onde irei depois. Estou na escuridão há tanto tempo que nem sei medir ao certo quanto tempo faz que estou aqui. Foi-me dada a capacidade de pensar e fico pensando apenas na razão que motivou essa habilidade e não penso em mais nada além disso. Bóio na água, sentindo a umidade atravessar minha pele e penetrar minha substância. Sem olhos posso apenas pressentir as sensações que estou narrando aqui. Sou uma grande serpente marrom e meu corpo é macio e exala um odor que perfuma todo o poço em que estou encarcerada. Estou só e a solidão é triste e então eu me divido em duas, e somos agora duas pequenas serpentes marrons e nós brincamos na água como enguias e corremos uma atrás da outra como crianças na piscina, perseguindo-nos. Mas nós jamais vimos enguias ou piscinas ou crianças, e não sabemos direito o que é um poço ou água ou portas. E também não sabemos o que é brincar e correr e perseguir, mas falamos dessas coisas pois precisamos que nos entendam, e é por isso que usamos essa linguagem: para podermos comunicar as coisas que queremos deixar registradas. Pois relatórios são necessários para o desenvolvimento da classe das serpentes marrons, que dividem-se como células sem nem ao menos saber o que são células. Nós, as serpentes marrons, agimos por instinto. Só que o teto com a porta de repente desaparece e luz que nunca vimos invade o poço, e um redemoinho arrasta-nos definitivamente para as profundezas desconhecidas, onde nunca tínhamos ousado mergulhar. E é quando nós desaparecemos.

Damnus Vobiscum
Enviado por Damnus Vobiscum em 20/05/2012
Reeditado em 23/05/2012
Código do texto: T3677441
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