DESABAFO DA MINHA MEMÓRIA.

A memória é voz atroz, arteira, encrenqueira,

faz troça de Deus, apronta mil e umas,

por hora é santa, por hora é vilã.

Vive nos becos da alma, nas crostas carameladas dos anjos,

é falante e calante quando lhe aprouver,

é dona dos seus domínios pra sempre.

A memória pouco conhece de si, acredite,

quando se torna praga, alastra seu manto por todo canto,

quando se vê acuada, grita até seus pulmões virarem pó.

A minha é capenga, caolha, surrada,

sempre que é chamada para servir, foge da raia,

sempre que é empurrada para sua estreia, morre na praia,

é o elo da minha corrente mais enferrujado, mais traíra,

mais maldito, que mais me leva à dor.

Um dia por certo serei capaz de domá-la, de trazê-la à minha tona,

dessa vez não terão desmandos, nem gritos de horror,

então darei meus gritos de glória, meu salto de alforria por fim,

só pra poder seguir meus próprios passos em paz.

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Oscar Silbiger
Enviado por Oscar Silbiger em 18/09/2012
Reeditado em 18/09/2012
Código do texto: T3887468
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