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Os Ignorados na Literatura Moçambicana

Considera-se Literatura de um país ou de um continente o registo escrito que reporta a cultura desse país ou desse continente. Porém, se partirmos desse conceito muito generalista e alargado, será difícil falar de qualquer cultura, seja ela africana, europeia ou asiática (e aqui estaríamos a falar de continentes) ou moçambicana, e, neste caso, estaremos a falar da cultura de um país, não podemos ter definições vagas nem demasiado generalizadas para nenhum deles. Por este motivo, pela necessidade de restringir o assunto de que falaremos e tornar objectivo o conceito de literatura moçambicana por oposição à Portuguesa (ou Brasileira, Guineense, Cabo-verdiana ou Timorense) tentarei enunciar o que considero LITERATURA MOÇAMBICANA.

Depois de ter percorrido muitos autores da teoria da literatura, parece mais recorrente a teoria que afirma que a literatura própria de uma certa cultura é automaticamente reconhecida como tal quando o leitor encontra nela as paisagens, as cores, os ditos e os hábitos próprios de uma certa forma de pertencer a uma sociedade humana.

Ora se eu ler um autor fracês, mesmo traduzido, só me identificarei com ele no facto de sermos ambos europeus e portanto, algo mais que a língua falada nos separa. Mas, se eu ler um autor moçambicano, mesmo que a nossa língua seja comum, as cores, os sabores, os hábitos e as tradições são outras. E é essa diferença que me faz sentir que estou perante um livro que me transporta a uma outra cultura a um outro continente. O mesmo servirá para Angola, Cabo Verde, S.Tomé e Guiné, Macau, Timor Leste. A língua é sempre o português, mas o português de cada autor não é apenas uma língua; ele fala uma cultura, registando-a para o futuro.
Um dos mais fecundos escritores de Moçambique é Aldino Muianga, de quem a Escola de Bailado Nacional de Moçambique aproveitou o conto “A noiva de Kebera” para um bailado que já percorreu alguns países com grande sucesso. O referido conto dá o nome a um dos seus livros. Trata-se de um escritor moçambicano, cirurgião, que nasce a 1 de Maio de 1950, no então Lourenço Marques. Muito do que escreveu fê-lo na diáspora pois durante muitos anos a sua actividade de Professor e cirurgião foi praticada no Zimbabwe onde residia quando o conheci e nos tornámos amigos. Era um escritor moçambicano na diáspora, mas agora que já fixou residência definitiva em Moçambique, continua a ser um escritor desconhecido o qual, no entanto, já nos oferece um contributo muito elevado para a edificação da Literatura Moçambicana. Quem conhece eses títulos:

Xitala Mati, de Aldino Muianga;
Xefina, contos, Marcelo Bucuani;
Lendas e Contos de Carneiro Gonçalves;

GODIDO e outros contos de João Dias
DO TEMPO INÚTIL, TRINADO PARA UMA NOITE QUE AVANÇA e AMARANTO de Glória de Sant’Anna;
Irmão do Universo, ou Contraponto (póstumo)de Leite de Vasconcelos
COLECIONADOR DE QUIMERAS, DE Afonso dos Santos;
O HOMEM SUGERIDO, de Fernando Manuel
Lírica do Imponderável, de Calane da Silva
OS MOLWENES de Isaac Zita (morto aos 22 anos)?
Não sei de qualquer estudo ou trabalho sobre cada um destes autores cujas obras, contudo, poderão suscitar, sobretudo, contextualizando as respectivas datas de produção, e seria interessante verificar como do conto ou do poema se passa à novela e ao romance.

“Uma a uma, as portas das cabanas se abriram e todos se precipitaram para a escuridão da madrugada, ao encontro do estranho cântico que sobrevoava a aldeia de Tonga, quebrando o silêncio, espantando todas as coisas, despertando todas inquietações. O medo crescia à medida que o misterioso cântico se ouvia por cima das suas cabeças, como se fosse um doloroso lamento, como se viesse de lugares desconhecidos para pressagiar uma enorme desgraça. Dirigem-se, todos, para o átrio da aldeia. Talvez escutem as palavras apaziguadoras dos mais velhos.”

Todo o misticismo, o mistério crédulo, a respeitabilidade dos velhos se encontram reunidos neste pequeno trecho do livro de Marcelo Panguana”O Chão Das Coisas” com que o autor inicia a narrativa, introduzindo o suspense desde o primeiro parágrafo do romance.

No último livro de Marcelo Panguana o narrador é omnisciente e tem o saber da actual vida das personagens e também das suas vidas passadas; o tom da sua escrita, num português normal e bem manejado para criar o suspense, a ironia e a reportagem de um imaginário que se alimenta totalmente das tradições e credos moçambicanos. Este é o 4º livro de Marcelo Panguana, membro da Direcção da AEMO (Associação dos Escritores Moçambicanos). Trata-se de um ignorado da Literatura que produz, pois não constam estudos feitos sobre a sua escrita. Posso dizer que é um ignorado da actual literatura moçambicana. Ele viveu sempre em Moçambique e no meio dos escritores que o conhecem bem, mas não se fala dele. Só em Maputo é MAL conhecido. Poder-se-ia dizer que ele é um escritor da diáspora porque é um emigrado da memória de quem estuda a Literatura moçambicana. Dir-se-á que em Maputo o seu livro se vendeu... E quantos especialistas da Literatura moçambicana o conhecem e estudam?

A ele, como a muitos que vos citei no início deste texto, falta a divulgação necessária para que em Portugal e no Brasil os seus livros se conheçam e se verifique a sua espessura como prosador e como essa espessura se adensou até ao seu último livro. Repugna-me, como estudiosa da literatura escrita em português, que tantos “Mestres” e “Doutores” com tantas teses elaboradas e cientificamente orientadas, (QUE OS AUTORIZAM COMO PROFESSORES DA MATÉRIA) conheçam tão poucos autores MOÇAMBICANOS. Os trabalhos centram-se sempre sobre os cinco nomes mais famosos que vendem e são traduzidos noutras línguas. Reconheço-lhes o mérito, mas, modéstia à parte se Virgílio de Lemos (o mais profícuo poeta moçambicano) e Paulina Chiziane não tivessem sido lançados por Fernanda Angius em Conferências de Lusitanistas, talvez não tivessem ainda a projecção que têm na Literatura moçambicana.

Hoje a publicação de vários títulos no estrangeiro arranca-os desta lista de ignorados, mas provam que, se não houver um esforço organizado de edição e divulgação dos autores minimamente aceitáveis, não poderá haver um conhecimento que justifique a vida de quem se dá às letras, muitas vezes com prejuízo de uma ocupação de tempo mais lucrativa. Julgo também caber aos moçambicanos na diáspora estabelecer laços de comunicação activa com os autores “nacionais” em Moçambique; e darem-se as mãos para que não aconteça que haja manifestos de celebrações literárias com autores moçambicanos que se conhece melhor no pais de acolhimento do que no país que os viu nascer. É o que, neste momento está a acontecer em Nantes, onde um evento de evocação literária tem como poeta em linha de ponta, com manifesto gráfico com a sua fotografia, um moçambicano na diáspora, Virgílio de Lemos, que será um dos poetas celebrados neste evento a decorrer esta semana em Retz – Nantes – França.
Pode acontecer que razões determinadas como as rupturas coloniais, a guerra, a mudança de regime, a não-aceitação das normas que governam o país, a procura de melhores meios de vida e as missões profissionais criem exilados, ausentes ou emigrados. Nunca deixarão de pertencer à cultura em que mamaram o leite materno e aprenderam os rituais dos jogos infantis, saboreando os frutos da sua terra.

Vivi muitos anos em Africa, 14 ao todo, e posso dizer que nunca me senti tão portuguesa e europeia como quando saboreava uma manga que, na época, não podia encontrar no meu país.

Sou amiga de moçambicanos, brancos, mulatos e pretos. Todos eles se sentem moçambicanos ainda que vivam na Europa desde anos tenros e as suas memórias não esquecem os aromas que aspiravam e os hábitos de brincar e conviver que possuiam.
Perguntarão o que tem isto a ver com os “ignorados da literatura moçambicana”?....

Entro no argumento:
Moçambique já existia e os moçambicanos que lá nasceram já se sentiam naturais de Moçambique, mesmo que o seu bilhete de Identidade os classificasse como portugueses. Portugal era o Continente, a Metrópole e muitos só a conheceram depois de “terem de” abandonar a sua terra para virem viver para a tal metrópole que nada lhes dizia. Recordo, a propósito, a peça de teatro de Carlos Patraquim, “Venho te buscar”, cuja análise daria uma bela tese sobre a o que é aculturação e dasaculturação....(fica a ideia...). Luís Carlos Patraquim é outro poeta da diáspora moçambicana, embora a esse não falte o reconhecimento e prestígio tanto cá, em Portugal onde reside, como lá, no seu país, que visita muitas vezes em trabalho de jornalista e de poeta. Moçambique pode não reconhecer, todos os seus autores na diáspora, mas eles nunca deixarão de afirmar, explícita e implicitamente, Moçambique como sua naturalidade.
O facto de se terem fixado noutros continentes como América do Norte ou do Sul, Ásia ou na Europa, só pode ter contribuído para o alargamento e prestígio das culturas de língua portuguesa, pois eram professores, médicos, engenheiros, arquitectos, mecânicos e artistas que com o seu saber e com as suas obras levam ainda hoje Moçambique com a fala e a escrita com que se relacionam com o mundo. Impossível conhecer um moçambicano sem ser contagiado pela sua saudade...e nasce a vontade de conhecer o país.
Glória de Sannt’Anna foi a maior poetisa que celebrou Pemba e o Indico na sua lírica. Algum dos presentes a conheceu? Julgo que sim pois ela nos deixou há pouco mais de um ano e viveu os seus últimos anos em Válega, mas nunca deixou de registar nosseus versos uma saudade e uma cultura em que o Índico e os palmares se não sentissem. Como inspiradora de Eduardo White (um bem conhecido poeta e publicado de entre os da nova geração), foi mãe de poetas no sentido literal da afirmação. É de Glória de Sant’Anna o poema que aqui trago, é do livro SOLAMPO, publicado pela Ndjira em 2000, sendo o último poema do livro dedicado a outro escritor e poeta moçambicano na diápora, Eugénio Lisboa.
O poema que lhes trago reune dois poetas na diáspora, pois Glória de Sant’Anna explicita que o primeiro verso foi dito pelo Eugénio Lisboa:
Eu quero uma estrada virada ao mar
/uma estátua que se encha de sal/
quando o vento caminhe
/E que tome o tom verde das águas/
o das algas que se lhe enrodilhem
/junto às mãos e à face
Porque a única forma de ter uma estátua
/é saber de antemão que ninguém
/saberá quem ali se desfaz-
Esta amante do mar, a que tanta poesia dedicou, deixou na memória genética de duas filhas, nascidas como todos os seus seis filhos em Moçambique, o sémen da poesia e também elas se tornaram verdadeiras construtoras da literatura moçambicana na diáspora.
Alguém poderá duvidar dessa verdade quando lê as brincadeiras com as palavras no tecido poético bem trabalhado como é o que Inez Andrade Paes produz? Oiçamos este poema :
gala galas
de gala em galaas gala galasengalanadas de cores raraspara galas de golas abertasquando iradasao sol paradasatentas a ti ..........corrempassam-te o caminhode sol tórridoe as golas já baixasmas ainda com cores rarasagora douradasmas sem nenhuma galaas galardoadas gala galasficam paradasa mostrar sua medalhana gola de galajá apertadaaquele olhar de trunfoquando esbeltas enaltecidasem cima da rocha prateadaó gala gala! .........de golaabre-te agora ao ventoreparacomo teu brilhose mistura com a rochamas cuidadonão fiques tanto tempo paradaque o brilho cegae não vêsa outra que passa
Inez Andrade Paes

Aqui todos sabemos o que é um gala-gala, mas se se tratasse de um poeta cuja infância tivesse só decorrido em Portugal, recordaria apenas as brincadeiras dos rapazes com as lagartixas...
Quem conhece estas moçambicanas? Talvez todos os que aqui estamos, mas quantos as ignoram? Quando é que num manual ou antologia moçambicana se encontram alguns poemas de Inez Andrade Pais? E, quer ela, quer seus irmãos nasceram de uma das maiores vozes da lírica moçambicana, Glória de Sant’Anna cujo nome é muito citado entre os literatos do país, atribuindo-se-lhe mesmo o título da maior poetisa do mar de Pemba. É esse mar, essas conchas e esses gala-galas que moram na poesia e na saudade de Inez e de sua irmã Andrea. Não sei se os livros publicados se esgotaram, se estão nas prateleiras das livrarias, se vão ser vendidos a peso... sei apenas que os estudiosos da literatura moçambicana não os conhecem.
Enquanto Colónia, já muitos moçambicanos se desejavam autónomos e independentes; talvez por reconhecerem que o sistema colonial não os tratava como cidadãos de primeira e só muito poucos conseguiam progredir socialmente, pois a maior parte do povo moçambicano estava sujeito ao estatuto de colonizados ou indígenas.
Depois da Independência, a 25 de Junho de 1975, os moçambicanos brancos e a elite negra, que ali prestavam serviço público ou privado, por muito que desejassem permanecer no país que tinham ajudado a construir, não encontraram modo de vencer ódios e rancores acumulados e, como na velha fábula do lobo e do cordeiro, funcionou o “se não foste tu, foi o teu avô”... Assim, afugentados e espavoridos, a maior parte dos quadros abandonou seus lugares e suas casas para recomeçar do zero a sua vida noutros países, espalhando a diáspora moçambicana no planeta.
scêncio de Freitas (o pioneiro da moderna Literatura Africana), Luís Carlos Patraquim, Ana Mafalda Leite, Sebastião Alba (já falecido), João Craveirinha, Jorge Viegas, Carlos Gil, Inez Andrade Paes, Andrea Andrade Paes, Ribeiro Couto, Augusto Carlos, Manuel Matsinhe e o nosso “hospitaleiro” Delmar Gonçalves são alguns dos escritores moçambicanos na diáspora. Quantos estarão ainda por conhecer? Talvez outros tantos... E será, ao menos justo? E conhecerão também eles os outros emigrantes da terra em que cresceram?

É tempo de acabar com as distâncias em tempo das estradas electrónicas; começar a aproveitá-las para criar e manter laços de comunicação constante, dando a ler, uns aos outros, o que a diáspora cria, e alimentar a corrente de energias positivas que alimentem os que guardam dentro de si a vontade de narrar o que viram e viveram. Talvez desta forma consigamos conhecer talentos que se encontram escondidos pela falta de apoio e de quem se interesse pela sua existência.

A literatura tem os seus ídolos a quem venera e pôe nos altares das vendas. Na Literatura moçambicana os ídolos são poucos e nada obscurecerá a sua luminosidade e sucesso livreiro se escritores ditos menores (tornando-se conhecidos), começarem a entrar no grupo a que têm direito à partida e cujo sucesso se afirmará ou não.

Deixo aqui um poema de Delmar Gonçalves, poeta moçambicano na diáspora que nos revela como as suas raízes africanas falam mais alto do que as comodidades europeias; remete-nos para o tempo circular da esteira e da fogueira à roda da qual todos se reuniam para ouvir e fixar a sua história:

Nostalgia africana

Em sonhos nostálgicos
estávamos sentados em círculo numa
esteiraque substituía a fogueira ancestral
Meu avô contava-me histórias
e lendas
Dos grandes heróis Africanos
Escutava-o atento e procurava
Entendê-lo.

Em sonhos nostálgicos
estávamos sentados em círculo numa
esteira que substituía a fogueira ancestral.
Minha Avó contava-me a história verdadeira
das invasões e guerras dos estrangeiros do Norte e do Sul
Por terras da Zambézia.
Por acaso nem ela nem eu compreendíamos as invasões
e as
Guerras.

Em sonhos nostálgicos
estávamos sentados em círculo numa
esteira que substituía a fogueira ancestral
Eu, Meu Avô e minha Avó.[1]

O poeta consegue criar uma rede de sentidos que nos reportam não apenas à sua infância de moçambicano “ausente”, mas que cria na forma do poema o tempo circular e eterno da ausência/presente que o acompanha e nos revela o seu estado de poeta na diáspora. Evidentemente esta leitura é muito sumária e não dá conta de todas as ilações que o poema nos oferece a nível da sua mancha gráfica, da estrutura morfológica e sintáctica, da riqueza semântica que se revela ao nível do tratamento dos signos e do modo como estes funcionam ora remetendo-nos para o mundo do sonho ora fazendo notar pelo não dito e apenas intuído a partir da palavra nostalgia que é bem mais pesada e negativa do que a palavra saudade. A saudade é uma recordação de um bem sempre presente, mesmo que ausente, pela partida do bem-amado; a nostalgia é a lembrança triste de um bem perdido e do qual resta a mágoa da sua perda para sempre.
Resumindo, e porque o tema daria margem para um texto muito mais longo, direi apenas que estes encontros vão tornando já visível as várias iniciativas que se geram â volta da realidade cultural de que a literatura é reflexo. Sinto-me grata à Casa de Goa que nos fornece o espaço tão conveniente a um encontro que espero seja sempre um crescendo de interesses e de abraços entre gente que fala a mesma cultura.

Obrigada a todos os que tiveram a paciência de escutar e ao Delmar Maia Gonçalves cujo interesse por este evento é o responsável pelo seu funcionamento feliz.


Fernanda Angius
(Investigadora/Ensaísta Moçambicana)

Casa de Goa

Lisboa, 27 de Agosto de 2010


[1] Delmar Maia Gonçalves. Moçambiquizando, Lisboa: Editorial Minerva, 2006, p.31
FERNANDA ANGIUS
Enviado por CEMD em 02/03/2013
Reeditado em 11/03/2013
Código do texto: T4167217
Classificação de conteúdo: seguro

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