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A ASSINATURA DO ARTISTA

A obra de arte antes de ser uma mensagem criativa do pensamento humano é um objeto material, resultado de inúmeras combinações de materiais com propriedades diversas, que sofre durante sua existência luz, variações de temperatura, poluição, ataques de agentes biológicos e a própria ação do homem no afã de conservá-la. Em 2010 escrevi um ensaio sobre a tela de Hugo Calgan, que intitulei ‘O pavão e a rainha, ’ no livro “Harmonia-Lyra palco das musas, desde 1858” e ali levantava todos os dados disponíveis sobre esse artista cercado de mistério, nascido em Berlim, Brandenburgo em 1852 que aporta ao Brasil em 1872, passa por São Paulo, Rio de Janeiro, Curitiba e chega a Joinville em 1882. Por onde passou esse artista deixou obras, sendo que aqui existem em maior número, oito retratos no Museu Nacional de Imigração e Colonização, uma cena de gênero intitulada a posteriori “O viúvo” e que a meu ver é sua obra prima, e esta tela, hoje um quadro, originalmente peça cenográfica, proscênio ou pano de fundo do palco, e não pano de boca como era conhecida, uma vez que esse não passa de uma cortina.
 A Sociedade Harmonia Lyra apresentou ao Edital do SIMDEC ano passado projeto Nº0062/2013 para restauração do quadro e moldura que foi contemplado e executado pelo restaurador Alexandre Matile, de Jaraguá do Sul em seis meses; graças a isso a obra rejuvenesceu, teve tratamento adequado de limpeza química, reintegração de superfície e proteção final por verniz especial com filtro U.V., e mais, pudemos reavaliar detalhes importantes que acrescentam à sua história e interpretação.
 Assim, inicialmente a retirada da tela da moldura permitiu a descoberta de dois nomes inscritos na moldura: o autor de antigos restauros limitados a fechamentos de rasgos e repintura localizada, além da eliminação de partes e estiramento em chassis executados por Érico Miers, pintor que localizei ser pintor de paredes e não artístico, e Henrique G. Puck, da moldura, provavelmente um marceneiro dotado de tupia para fabricar o perfil necessário a seu fabrico. A data: 27 de abril de 1950, o que nos leva ao Centenário de Joinville no ano seguinte e à apresentação da peça teatral “Festa artística na Corte”, de José Diniz, baseada na tela exposta no Salão Azul.  Comparamos então a apresentação da orquestra na fotografia de 1922 (Acervo do Arquivo Histórico de Joinville), em que se tem o proscênio completo e a tela atual, permitindo chegar às medidas originais: altura 2.80 m, hoje 2.40 m; largura total: 5.82m, hoje 3.92m tendo sido cortados 1.02m no lado direito e 0.88m no lado esquerdo.
 Recentemente, em virtude da restauração foi aventada dúvida de como a obra teria chegada a Joinville o que não procede, as fontes são claras, o jornal Kolonie Zeitung de 17de junho de 1882 registra o sucesso dos bastidores encomendados a Hugo Calgan, apresentados na peça “Die Grille”(A cigarra) e em 1899 ela aparece como pano de fundo no Salão Berner(acervo AHJ). Aliás, Wilhelm Friederich Berner, de profissão hoteleira é quem criara esse salão de dança e apresentações teatrais, como maçom e membro da Loja Amizade Alemã ao Cruzeiro do Sul estabeleceria relações estreitas com a Harmonia Lyra, bastando lembrar que em 27 de maio de 1883, por ocasião dos 25 anos de existência da Sociedade Harmonia Lyra o homenageado foi o Mestre maçom Ottokar Dörfell, durante todo esse período diretor teatral da Sociedade. A peça “Preciosa”, de Pius Alexander Wolff, a música de Karl Maria Von Weber, a ação em parte no interior de um castelo espanhol e em parte nos jardins, o cenário de Hugo Calgan. Dois meses depois inexplicavelmente Calgan deixa a cidade, após publicar desagravo em jornal sobre calunias que teria sofrido, e os comentários de época eram de que estaria muito endividado e entregara o proscênio em pagamento de dívida a Berner.
Analisando a composição da tela como está hoje e como foi no passado vemos que os cortes sofridos na época, necessários pelo mau estado, por ter sido dobrada e redobrada inúmeras vezes, além das partes eliminadas serem as laterais de acesso às coxias e da porção inferior junto ao chão, onde originalmente colunas pintadas nos dois lados imprimiam perspectiva pelas linhas de fuga e criavam profundidade ao cenário. Igualmente os degraus em primeiro plano justificavam o recinto da ação: um recesso entre o interior do palácio e o exterior de um jardim, daí a coluna grotesca, elementos arquitetônicos ao fundo e a profusão de folhas e flores no lado direito.
 Uma obra historicista de cunho romântico, fruto da imaginação de um fato jamais ocorrido, o encontro de dois personagens marcantes do século XVI na Inglaterra: a Rainha Virgem Elizabeth I e o bardo William Shakespeare. Quando vista em 2010 a obra estava bastante escurecida pelas sujidades, e principalmente, sabemos hoje através do restauro por ter sido reentelada em 1950 com cera quente procedimento bastante comum então, sofrendo impregnação e passagem para a superfície daquele material e dificultando a leitura. Hoje vemos que a paleta de pintor aos pés de Shakespeare, observada inicialmente e inexplicável, na verdade é a folha de uma planta tropical como a dos antúrios, e certos simbolismos até então ocultos vieram à tona. Em primeiro plano a dama que empunha o alaúde tem a seu lado um cão, símbolo da fidelidade, e a seu lado uma figura masculina, com vestimenta estranha em vermelho, hoje se vendo em seu peito um escudete com os Leões Passantes heráldicos da Inglaterra. É um Yeoman of the Guard, corpo da guarda criado no período Tudor, tendo como motto o grito de batalha “Dieu et mon droit”( traduzido freqüentemente como o direito divino dos reis, mas na verdade significando: Deus está na minha mão direita) e usando na época como uniforme uma túnica curta acinturada ( debruada em amarelo aqui inexistente, quer pelo artista o desconhecer, quer por não ter sido finalizada), originalmente com a Rosa Vermelha dos Tudor no peito e nas costas. Calgan pôs em seu lugar o escudete inglês, mas o significado é o mesmo: lealdade ao monarca e ao reino acima de tudo.
 O que mais chama a atenção hoje é o Brasão de Armas do Reino Unido na parte superior da tela e centralizado, antes indistinto. Dentro de uma reserva em formato de losango (e aqui assinalo ser incomum essa forma de reserva, na heráldica essa forma significa contato entre símbolos ou campos do brasão, o que aqui veremos fazer um sentido) a franja inferior do cortinado forma o Esquadro e o ângulo superior da reserva o Compasso maçônico; os quartos do brasão estavam bastante apagados com exceção de um, o terceiro, com a harpa da Irlanda em branco. Mais uma vez algo estranho, por que o artista tendo à mão pigmento amarelo, e que se quisesse poderia acrescentar purpurina para pintar a harpa dourada da Irlanda usou o branco? A harpa irlandesa é símbolo dos bardos e poetas, ligada ao passado celta heróico e independente. Porém a harpa simboliza as tensões entre os instintos materiais e aspirações espirituais, harmoniosa quando em equilíbrio e sendo branca absoluta, a soma de todas as qualidades. Por ser harmônica assume o papel da lira, a Jóia do Mestre da Harmonia e símbolo da música universal na Maçonaria, unindo céu e terra.
 Lembrando que a criação da Loja Maçônica Amizade ao Cruzeiro do Sul funcionou no Rito Schröder e da estreita aproximação com a “Harmonie-Gesellschaft”, no ritual antigo entoavam-se cantos maçônicos dos aprendizes, companheiros, vigilantes e mestres promovendo a exaltação das faculdades intelectuais e espirituais, conduzidos pelo Mestre da Harmonia de modo a vibrar em sintonia com a Harmonia Universal, ficando claro então o porquê simbólico da Harpa em branco.
Nossa atenção se volta para o canto direito da obra, que por ser mera peça cenográfica não está assinada. Entretanto, ali está o pavão associado ao orgulho e à vaidade, porém também da imortalidade, do nascimento e da morte, sinalizando a Eternidade. Qual melhor assinatura para Hugo Calgan, aquilo que não teve princípio e nunca terá fim?

Walter de Queiroz Guerreiro, Prof.M.A.
Historiador e Crítico de Arte (ABCA/AICA)
Walter de Queiroz Guerreiro
Enviado por Walter de Queiroz Guerreiro em 14/09/2014
Código do texto: T4961281
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Walter de Queiroz Guerreiro
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