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Eu só quero escrever.

EU SÓ QUERO ESCREVER. Só que pra escrever eu tenho que pensar. Pra escrever eu preciso sentir. Pra escrever eu preciso sofrer... meus olhos doem, minha cabeça também. O ronco da minha cadela interfere diretamente nos meus pensamentos, e a chuva lá fora me impede de sair. A noite é longa e silenciosa, tenho tempo para escrever. Estou tentando ser sincero, passei dias examinando à minha consciência. Agora estou diante de mim, como se estivesse na frente do espelho; não há nada entre nós, vejo minha imagem com nitidez. Mas é só eu perguntar: "Quem sou eu?", que tudo desaparece, e volto à escuridão. Para onde vai a estrada da vida? Quero falar sobre a culpa, o mal-estar, a angústia, as relações. Como me relaciono c/ o outro? Com aquele que me é diferente? Tento colocar questões que me parecem profundas, não aguento mais à superfície, sinto desejo de mergulhar, de me afogar, de ir o mais baixo possível, de machucar o calcanhar de Aquiles, de mostrar que eu também sinto as coisas profundamente. Não sou do tipo que foge. Estou pronto pra morrer. Talvez isso seja parte do processo de PURIFICAÇÃO; uma hora isso ia ter de acontecer. Não escrevo para me mostrar, só quero ver se consigo escrever/pensar algo que tenha algum valor. Nada de exibicionismo. Nada de arte. Nada de nada. Se eu tivesse que desejar algo, eu iria querer que esse texto tivesse um pouco de sabedoria, ou que, ao menos, incitasse as pessoas a sonharem, ou a deixarem de serem hipócritas, medrosas, ou seja lá o que for, e começassem a viver a vida. Mas, o que significa "viver a vida"? Eis a questão. Como saber se realmente estou vivendo, ou se estou apenas existindo? Como saber? Meus pés coçam, estou sentado, o relógio está marcando 01:45, tenho insônia, estou escrevendo um monte de coisas, falando explicitamente que quero mexer com as pessoas, mas o que eu estou fazendo? Estou sozinho, após um dia longo, onde eu não fiz absolutamente nada de relevante. Assisti um filme, estive com a minha namorada, cozinhei, tomei remédio, cuidei dos meus cachorros, etc, etc, etc...

A casa verde
aberta - os portões de madeira
arreganhados.

Toda vizinha adentra.
Dia de festa, recebo
meus amigos, apresento
à decoração.

... e agora estou aqui falando que as pessoas tem de viver. Isso me parece ridículo. Mas como deixar de ser ridículo? NÃO SERVE, NÃO SERVE, NÃO SERVE. Se eu lesse tudo que eu acabei de escrever como se tivesse sido escrito por outra pessoa, eu diria que tudo isso é pura merda. Ser sincero não serve para absolutamente nada, a não ser para passar vergonha. Que ridículo, não consigo sair do lugar. Estagnado, é assim como eu me sinto. O que devo fazer? Como deixar de chorar? Como se tornar o maior de.todos os homens? Fazer algo grandioso, ficar marcado na história, realizar o maior de todos os sonhos, ser mais rico que qualquer deus, construir ou conquistar o maior império. Ou apenas continuar escrevendo durante essa madrugada chuvosa, ao lado da minha cadela, que dorme sem nenhuma dessas preocupações. Ultimamente todo mundo diz que meus textos estão "sofríveis". Mas, por acaso, vocês também não compartilham dessa dor? Vocês não sofrem? Como vocês conseguem viver.uma vida mesquinha sem sentir vontade de mudar tudo? Sem sentir essa maldita angústia que me faz querer vomitar na cara de todos vocês, e também na minha cara e nos meus escritos.


Carlos Gadamer
Enviado por Carlos Gadamer em 31/12/2017
Código do texto: T6213027
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Carlos Gadamer
Jacareí - São Paulo - Brasil
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