etimologia da língua portuguesa 125

Etimologia da Língua Portuguesa por Deonísio da Silva Nº123.

Criado: veio do Latim creatus ,pessoas nascidas de servidores em residências nobres criada, alimentada e educada no próprio local, que faz serviços domésticos. Mordomo, do Latim medieval maiore domus, é o criado mais importante da casa, porque chefia os empregados.

Baldaquim: do Italiano baldacchino. Designa dossel com colunas e cortinas para embelezar tronos, carruagens, andores, tálamos conjugais ou simples camas, importado de Bagdá, que em Italiano antigo se chamava Baldac. O famoso orador luso-brasileiro Antônio Vieira ( 1608- 1697 ), descrevendo o baldaquim do rei Salomão ( século X a. C. ), cujo nome quer dizer Pacífico, do mesmo étimo Shalom, paz, chama-o carroça e diz que os pés reais se apoiavam sobre uma representação da caridade, para mostrar que também esta virtude está submetida aos reis. Ele deve ter lido uma tradução equivocada. Os originais do trecho citado, o Cântico dos Cânticos, tanto em Hebraico, como em Grego e em Latim, informam que “ as filhas de Jerusalém enfeitaram com amor o revestimento do tálamo “. Antigos estudiosos da Bíblia evitavam traduzir o Latim charrita por amor. Preferiam caridade. Mas nas epístolas de São Paulo ( 10-67 ) o Latim charrita é traduzido amor : Ainda que eu falasse todas as línguas do mundo, sem amor eu nada seria”.

Criado: do Latim creatus, uma das primeiras palavras a entrar para a língua portuguesa designando a pessoa que, nascida dos servidores ou agregados dos palácios e residências nobres, era criada , alimentada e educada no próprio local, fazendo serviços domésticos. Por humildade e cortesia, entrou para forma de tratamento nas apresentações: “ Fulano de Tal, seu criado”, expressão em desuso. Entre valetes, garçons, camareiras, cavalariços e demais serviçais, havia tipos como a criada invejosa e malévola, o genro metido a besta, a avó sem papas na língua, o homossexual enrustido e o mordomo pelego, ás vezes caricaturados em romances, e até em seriados, de que é exemplo Downton Abbey, sucesso da televisão inglesa, ora em exibição também no Brasil.

Garrafal: de garrafa, de origem controversa, do Árabe giraf ou do Árabe-Persa garába, designando vasilha para transporte de grãos e de líquidos. No Português do Brasil, garrafa ensejou garrafal, adjetivo de dois gêneros para qualificar algo grande, como no caso das manchetes dos jornais ou em qualquer texto com letras bem maiores do que as outras, letras garrafais.É que no começo da imprensa tipográfica, na fabricação dos títutulos l das notícias eram usados de modelo os rótulos das garrafas. Garrafão designa também um jogo de pega pega no qual um participante faz as vezes de rolha, interditando a entrada dos outros em certa área. E no basquete o garrafão leva este nome porque aquele espaço semelha uma garrafa bem grande.

Mordomo: do Latim medieval maiore domus, o criado mais importante da casa, chefe de empregados como camareiros, valetes e cozinheiros, entretanto acima da governanta, quando esta se fazia presente e não administrava sozinha a casa, fixando-se, então, como chefe das criadas que trabalhavam no interior da residência e dos palácios, chamadas camareiras, por arrumarem a câmara, do Latim câmera, depois quarto, quartus, de início a quarta parte da casa.

Quantificar: de quant, étimo do Latim mais a alteração de quantus, quanto, mais a alteração de fazer, do Latim facere e ficere e depois ficar como elemento de composição de que são exemplos classificar, simplificar e fortificar. No Português ocorre com frequência e qualificação semântica, como nas expressões “ trocar seis por meia dúzia “, “ são outros quinhentos “ e “ cheio de nove horas “.

Zeugma: do Grego zeugma, vínculo, ligação. A figura de linguagem provavelmente foi inspirada em instrumento musical da Grécia antiga, composto de duas flautas reunidas, denominado zeûgos. No zeugma se diz mais com menos palavras, pela supressão de algumas, que expressam antes, na mesma frase ou oração, não precisam ser repetidas. Bom exemplo de zeugma está no Sermão da Primeira Sexta- Feira da Quaresma, do padre Antônio Vieira, ao descrever o baldaquim no qual o rei Salomão desfilava por Jerusalém nos dias solenes: “ A matéria era dos lenhos mais preciosos e cheirosos do Líbano, as colunas de prata, o trono de ouro, as almofadas de púrpura, e no estrado onde punha os pés estava esculpida a caridade”. Por economia, regra de elegância, mesmo num autor de estilo copioso como o dele, o verbo ser (era) foi omitido três vezes.

Deonísio da Silva; da Universidade Estácio de Sá e da Academia brasileira de Filologia, é escritor, doutor em Letras pela Universidade de São Paulo ( USP ), autor de 34 livros, alguns publicados também em outros países, como os romances Avante, Soldados: Para Trás ( Prêmio Internacional Casa de las Américas ) e Lotte & Zweig, e os livros de referência De Onde Vêm as Palavras e Palavras de Direito. Apresenta na Rádio BandNews , com Ricardo Boechat. Sem Papas na Língua, e com Pollyanna Bretas Pitadas do Deonísio. E-mail: deonisio@terra.com.br

Revista Caras

2013

deonísio da Silva
Enviado por zelia prímola em 02/04/2018
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